Coronavírus

Saúde Estudo identifica infecção pulmonar em feto causada por coronavírus

Estudo identifica infecção pulmonar em feto causada por coronavírus

Brasileiros encontram pela 1ª vez o vírus em feto abortado de mãe que teve covid leve. Causa da morte foi trombose na placenta

Agência Estado
Coronavírus foi encontrado em diferentes órgãos do feto, como coração, cérebro, rins e fígado

Coronavírus foi encontrado em diferentes órgãos do feto, como coração, cérebro, rins e fígado

Pixabay

Cientistas brasileiros detectaram a presença do SARS-CoV-2, vírus causador da covid-19, nos tecidos de um feto abortado por uma mulher que teve um quadro leve da doença durante a gravidez. Estudos anteriores já tinham encontrado o RNA do vírus no cordão umbilical e na placenta materna ,em casos semelhantes. Mas essa é a primeira vez que se consegue registrar o novo coronavírus em diferentes órgãos, como coração, cérebro, rins e fígado. Os cientistas também conseguiram demonstrar que o vírus causou uma infecção pulmonar.

O estudo indica, no entanto, que a morte do bebê, na 34ª semana de gestação, não foi causada pela infecção pulmonar. O feto morreu por causa de uma grave trombose na placenta materna, que interrompeu o fluxo de sangue e oxigênio para a criança. Embora problemas com o feto sejam raros gestantes com covid, pesquisadores acreditam que o novo estudo é importante para aprimorar as diretrizes de acompanhamento médico para grávidas que tiveram a doença. O trabalho foi publicado na "Frontiers in Medicine" nesta semana.

"Detectamos o RNA do vírus em diversos tecidos, no bulbo olfativo, na glândula salivar, no pulmão, na traqueia, nos rins, além de na placenta e no cordão umbilical. Com o exame de imunofluorescência, conseguimos também registrar a presença da proteína S do Sars-CoV2 no cérebro e no coração", explicou o principal autor do estudo, o pediatra Arnaldo Prata, do Instituto D'Or de Pesquisa.

Segundo o pesquisador, foi descoberta no pulmão do bebê morto uma grande quantidade de células de defesa , ou seja, uma resposta inflamatória. Ele explicou que destacava essa constatação porque o vírus poderia ter circulado pelo feto sem necessariamente causar a doença. A presença dessas células indica que houve, de fato, uma infecção pulmonar causada pelo vírus. Já a trombose tem causas mais complexas.

"A gravidez é um estado em que a mulher, por questões de mudanças no estado fisiológico normal, se torna mais predisposta a quadros de coagulação", explicou Prata. "Essa é uma coisa esperada na gravidez, por isso as grávidas são consideradas grupo de risco."

A covid-19, como já está documentado, também predispõe a quadros de coagulação. Os pesquisadores informaram que a paciente não tinha uma predisposição genética anterior a episódios de coagulação. Portanto, a conclusão é de que a covid-19 somada à gravidez provocou a trombose placentária.

A diretriz atualmente vigente é que, em casos de covid-19 leves, a grávida deve retornar ao serviço médico após 14 dias para controle ou antes, se sentir algo diferente. Como a paciente teve uma infecção praticamente assintomática, ela só retornou ao serviço médico após 14 dias.

"Infelizmente, quando ela voltou, o feto já tinha morrido havia dois dias", contou o médico. "Acho que a mensagem maior desse estudo é que, de um modo geral, a covid na gestação não costuma ser grave, mas, uma vez que ocorra, é aconselhável acompanhar os marcadores de inflamação e de coagulação mais de perto e ter uma revisão médica mais frequente."

Caso o bebê tivesse sobrevivido, restaria saber se a presença do vírus em todo o organismo fetal teria provocado alguma sequela. "Isso ninguém sabe ainda", disse Prata. "Precisamos agora acompanhar essas crianças ao longo da vida. No caso dos adultos, já está bastante documentado que a infecção pode causar vários problemas, como déficit cognitivo, problemas neurológicos e insuficiência cardíaca. Nas crianças, ainda não sabemos se teremos problemas adiante."

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