Falta de remédio que está em teste contra covid-19 prejudica pacientes

Eliene Costa usa hidroxicloroquina há mais de 10 anos para tratar lúpus, mas oito farmácias não tinham o medicamento nesta quinta-feira (19)

Houve aumento da procura pelo medicamento após fala do presidente dos EUA

Houve aumento da procura pelo medicamento após fala do presidente dos EUA

Agência Estado

O anúncio feito presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na última quinta-feira (19), de que o medicamento hidroxicloroquina (ou cloroquina) foi aprovado nos Estados Unidos para tratamento contra o novo coronavírus gerou uma corrida às farmácias no Brasil.

Agora, pessoas que realmente precisam do remédio para dar continuidade ao tratamento de doenças, não o encontram nos estabelecimentos.

Este é o caso da assessora de comunicação Eliene Costa Machado, de 37 anos. Ela faz uso de hidroxicloroquina há mais de 10 anos para tratar lúpus, uma doença inflamatória autoimune que pode afetar as articulações e diversos órgãos, como rins, pele e cérebro.

Na quinta-feira, após saber do comunicado de Trump, o marido de Eliene foi a oito farmácias na região da Pompeia, na zona oeste de São Paulo, mas não encontrou o medicamento em nenhuma delas.

"Ele ouviu em uma das farmácias: 'Vendemos as duas últimas [caixas] para pessoas que vieram atrás por causa do coronavírus'", conta Eliene.

"Na internet também não tem mais. Minha tia, que é de Taboão da Serra [município da Grande São Paulo], também tentou [comprar] e não conseguiu porque a farmacêutica recolheu, acho que com medo de ter problemas porque várias pessoas que precisam do remédio estão procurando", acrescenta.

Eliene precisa tomar hidroxicloroquina todos os dias, mas os comprimidos vão durar até a próxima semana. De acordo com ela, o medicamento custa entre R$ 72 e R$ 85. "É caro, então não costumo estocar", pondera.

"As pessoas estão indo comprar um remédio que elas não precisam e não sabem se vai funcionar. O remédio existe com uma finalidade e não é para tratar coronavírus", desabafa Eliene. "Não dá pra esgotar um medicamento sem pensar em quem realmente precisa dele".

Assim que leu a notícia, ontem, a empresária Amanda Forchesatto De Marchi, já ficou preocupada. Horas depois, desceu até a farmácia ao lado do trabalho e já constatou que não havia mais o medicamento, que usa por determinados períodos de tempo para amenizar os efeitos de uma doença autoimune que tem, a síndrome de Sjögren.

Ela percorreu mais quatro farmácias na cidade de Curitiba (PR) logo em seguida e também já não havia mais o medicamento.

"Esse medicamento é imunomodulador; ele não vai deixar meu sistema imunológico com defesa baixa como um imunossupressor, vai modular. [Sem tomar] posso ter piora nas dores articulares e nos sintomas específicos da doença, que são as mucosas — olhos e boca — secas."

A farmácia próxima ao trabalho dela reservou uma única caixa da cloroquina que chegou nesta sexta-feira. Isso garantirá à empresária ao menos mais 60 dias de remédio. 

Amanda conta que ficou chateada quando percebeu que as pessoas estavam comprando um medicamento para estocar sem nem saber se precisariam.

"Nessa corrida desenfreada que teve, muita gente que não necessita acabou fazendo estoque em casa, quando agora a gente vai ter necessidade nos hospitais com pessoas em risco agudo de morte por causa do coronavírus."

Flávia Pinto Mendes da Silva, de 47 anos. ficou ansiosa ao saber das notícias sobre hidroxicloroquina e ligou imediatamente para o farmacêutico com quem costuma comprar o medicamento.

"Ele disse: 'acabou, as pessoas compraram de cinco a sete caixas hoje'. E esse é um remédio muito forte, que dá surdez e problemas de visão", diz sobre os efeitos colaterais. "E a gente que precisa ficou de mãos atadas", lamenta.

Ela demorou um ano para descobrir uma doença autoimune que até hoje não foi diagnosticada, mas afeta suas mamas. Para não ter sintomas, faz uso da medicação todos os dias

"Meu seio produz pus, secreção e sangue. Aparecem nódulos que estouram se eu não usar o remédio. Eu sentia muita dor, mas já estou há 4 anos tomando [o medicamento]", conta.

"Em outubro a médica tentou diminuir [a quantidade] e nasceu um nódulo, mas não evoluiu porque ela aumentou de novo", lembra.

Nervosa diante da situação, ela recorreu a um grupo em uma rede social para pedir ajuda. "Consegui graças a pessoas de prédios vizinhos que me cederam", diz ela, que mora no bairro Jardim Caravelas, zona sul de São Paulo.

Mas antes de saber dessa auxílio, Flávia mandou manipular o remédio. E para isso desembolsou mais que o drobo de dinheiro que costuma gastar. "Paguei R$ 150, e normalmente custa R$ 68", compara.

Medicamento 'sob estudo'

Em entrevista ao R7o infectologista Gerson Salvador, especialista em saúde pública, afirmou que o medicamento “tem potencial e está sob estudo” para ser usado no tratamento de pessoas que contraírem o novo coronavírus. No entanto, segundo ele, é preciso aguardar resultados definitivos.

“As pessoas têm que ter prudência, aguardar os resultados definitivos dos estudos, porque a gente pode ter um grande número de pessoas tomando o medicamento que nem está comprovado ser tão eficaz, como os estudos preliminares apontam, e, além do mais, a gente pode ter um monte de gente com efeitos colaterais graves”, enfatizou.

Precisa de prescrição médica

Em nota, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não determinou nenhuma medida de restrição à comercialização da cloroquina nas farmácias.

Ainda de acordo com a instituição, o medicamento está sujeito a prescrição médica e registrado para tratar artrite, lupus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária.

O Conselho Regional de Farmácia de São Paulo orienta os farmacêuticos a não vender o medicamento sem receita.

"A dispensação de medicamentos que contêm hidroxicloroquina e cloroquina deve ser feita somente mediante a prescrição médica", informou em nota.