Fator de risco para covid-19, hipertensão atinge camadas mais pobres

No dia do combate e prevenção à hipertensão, especialistas explicam por que doença é fator de risco para covid-19 e como camada mais pobre é atingida

Cardiologista explica por que hipertensão é fator de risco para coronavírus

Cardiologista explica por que hipertensão é fator de risco para coronavírus

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“Imagine que você e um conhecido com problemas de saúde sofram um acidente de carro. Os dois sobrevivem, mas o passageiro doente enfrenta uma série de complicações para se recuperar. Hoje, a covid-19 é o acidente de carro.” É com esta comparação que Iran Gonçalves, responsável pelo pronto socorro de cardiologia do Hospital São Paulo, explica por que pacientes hipertensivos estão mais vulneráveis às complicações causadas pelo novo coronavírus.

No dia nacional de prevenção e combate à hipertensão, o cardiologista aponta que a doença atinge cerca de 35% dos brasileiros, o que os coloca no chamado “grupo de risco”. Segundo uma pesquisa com mais de 5 mil pacientes publicada no Journal American Medical Association, a hipertensão arterial chamou atenção como fator de risco isolado diante de doenças mais complexas como câncer e diabetes.

“Para entrar em uma célula, todo vírus precisa se encaixar em um receptor, como se fosse uma chave”, explica Gonçalves. “No caso da covid-19, foi identificado que um desses receptores está ligado à problemas de hipertensão."

“Esse é um dos marcadores que faz com que a doença evolua mal e aumente a mortalidade. Embora 85% dos casos não precisam de internação, são esses pacientes com as chamadas comorbidades que estão mais suscetíveis aos outros 15%.”

Mais pobres sob pressão

Embora hipertensão seja controlável com medicamentos, o cardiologista aponta que ainda se trata de um “inimigo silencioso”. Por não ter sintomas a curto prazo, a demora pela procura de um diagnóstico e tratamento adequados ainda prejudica a saúde do brasileiro, especialmente entre as camadas de maior vulnerabilidade social.

“Pessoas mais pobres têm menos acesso a diagnóstico, exame e tratamento”, aponta Iran. “Se não tiver remédio no posto, ela simplesmente não toma. Muitas vezes ela não vai na consulta porque não tem dinheiro para o ônibus.”

Como uma das comorbidades que atingem a parcela mais pobre no Brasil, a pressão alta se torna mais um item na incontável lista de riscos  — como dificuldade de isolamento e acesso à água — que torna esta camada mais vulnerável à pandemia. é o que explica a infectologista Nilse Querino, doutora em microbiologia pela Universidade de Berlim e professora de medicina da Unime. Segundo Querino, o cerne desta comorbidade em específico está na alimentação.

“O brasil tem quase 20% da população com sobrepeso ou obeso, o que já causa um estado crônico de inflamação, o que já é ruim quando se pega uma infecção. A qualidade da alimentação é péssima para todos, e pior para os mais pobres, que acabam se alimentando com muito mais gordura, sal e proteínas de baixa qualidade.”

População negra sofre com maior predisposição

Um estudo realizado pela Unicamp em parceria com a Escola de Medicina de Harvard entre 1990 e 2010 mostrou que a população negra enfrenta mais dificuldades para tratar a hipertensão do que brancos. Segundo a pesquisa desenvolvida pelo cardiologista Wilson Nadruz, professor da faculdade de Ciências Médicas da USP, a taxa de brancos que tiveram AVC por causa da hipertensão caiu 27%, enquanto a de brancos teve uma redução de apenas 13%. Embora a pesquisa aponte uma predisposição genética para a hipertensão entre pessoas negras, Nilse Querino questiona se fatores de stress causados pela vulnerabilidade social também devam ser levados em conta.

“No Brasil e nos EUA, as camadas mais pobres são compostas por maioria negra. Elas têm pouco acesso a serviços de saúde de qualidade, ainda que no Brasil tenhamos o SUS. Quem mora na favela vive sob muito mais stress: acorda com os tiros na madrugada, como vai alimentar a família naquele dia, toque de recolher e horas a fio dentro de um ônibus para chegar ao trabalho”, aponta Nilse, que defende que recortes raciais em pesquisas relacionadas à saúde do brasileiro. “Ainda assim, 30% dos inquéritos feitos pelo Ministério da Saúde, não está preenchida a cor do indivíduo.”