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Saúde Febre amarela: reação alérgica à vacina pode ser contornada

Febre amarela: reação alérgica à vacina pode ser contornada

Ambulatórios de Alergia e de Eventos Adversos a Vacinas do HC trabalham em conjunto; dez pessoas com alergia severa a ovo já foram vacinadas

Febre amarela: reação alérgica à vacina pode ser contornada

A vírus da vacina da febre amarela é cultivado em ovo

A vírus da vacina da febre amarela é cultivado em ovo

Edu Garcia/R7

Um trabalho em conjunto do Ambulatório de Alergia e do Ambulatório de Eventos Adversos a Vacinas do Hospital das Clínicas em São Paulo tem ajudado pessoas com grave alergia à vacina da febre amarela a se imunizarem contra a doença.

De acordo com a Bio-Manguinhos/Fiocruz, produtora da vacina no Brasil, ela é contraindicada a pessoas com histórico de reações anafiláticas a ovos de galinha e seus derivados, gelatina, eritromicina e canamicina. A vacina é feita com vírus vivo atenuado cultivado em ovos de galinha.

“Temos recebido apenas solicitações de alérgicos a ovo. Há casos que chegam como alergia, mas não são”, afirma a alergologista Ariana Yang, coordenadora do Ambulatório de Alergia do HC.

Oito crianças e dois adultos com alergia severa à ovo já passaram pelo processo este ano no HC. “A prioridade são os pacientes da vacina contra a febre amarela, então, em no máximo dez dias é realizada a consulta de triagem e em cerca de uma semana se toma a vacina”, explica Ana Karolina Marinho, alergologista do Ambulatório de Eventos Adversos a Vacinas do HC.

O atendimento começa em uma unidade básica de saúde que pode encaminhar o paciente tanto para os ambulatórios de especialidades quanto para o Centro de Referência de Imunobiológicos Especiais (Cries). Ambos vão direcioná-lo ao HC.

Os critérios para passar pelo procedimento são apresentar alergia à vacina contra febre amarela e ter a necessidade de imunização, ou seja, morar ou frequentar área considerada de risco de transmissão da doença.

Reação pode ser imediata ou tardia

O procedimento de vacinação para alérgicos consiste em aplicar a vacina em duas doses – 10% e 90% – ou em no máximo cinco etapas, com intervalo de 30 minutos entre elas, com proteção de medicação antialérgica e supervisão de equipe especializada em um ambiente médico. É utilizada a dose plena.

“As alergias que apresentam risco são imediatas, ou seja, acontecem dentro de duas horas. Se tratadas rapidamente, são facilmente controladas. São graves e perigosas apenas quando não tratadas ou tratadas tardiamente”, afirma Ariana.

Ela explica que existem alergias tardias, mas elas não apresentam gravidade. Geralmente se manifestam por meio de diarreia e eczema (coceira, inchaço e vermelhidão da pele) e podem ocorrer horas e até dias depois do contato com o alérgeno.

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As alergias imediatas são causadas pelo anticorpo igE, que amplificam a reação alérgica, que pode variar de vermelhidão até choque anafilático. Já as alergias tardias são mediadas por células, que têm potencial de amplificação menor. “Os dois tipos de alergia têm predisposição genética, o que diferencia é a ferramenta imunológica. As imediatas usam um trator para matar uma floresta, e as tardias usam só uma foice”, exemplifica Ariana.

Diferentemente do que é feito no programa de dessensibilização alimentar do Ambulatório de Alergia do HC, em que o paciente é exposto gradualmente ao alimento ao qual tem alergia por cerca de dois meses para desenvolver aceitação do sistema imunológico ao alérgeno, no caso da vacina, todo processo dura apenas algumas horas.

“O objetivo não é a cura da alergia, mas sim fazer o paciente tomar a vacina em um ambiente seguro, com todas as precauções”, afirma Ana Karolina, que também é coordenadora do Departamento Científico de Imunizações da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).

A Asbai não possui o número de alérgicos a ovo no Brasil.

Alergia ao leite x febre amarela

A alergista Cristina Maria Kokron, do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que não há contraindicação da vacina contra a febre amarela a alérgicos a leite. “A vacina não tem a proteína do leite (lactoalbumina), causadora da alergia. Também não contém o açúcar do leite (lactose), mas sim um outro tipo de açúcar, a sacarose”, afirma.

"A vacina só é contraindicada a quem tem alergia grave a ovo, com reação anafilática. Quem não apresenta alergia grave pode vacinar", completa.

A lactose é utilizada como estabilizante por alguns fabricantes de vacina. “Raramente, algumas vacinas que contêm lactose podem provocar alguma reação a alérgicos a leite porque podem haver contaminantes da proteína com o açúcar do leite”, explica Ana Karolina.

Como exemplo, ela cita as vacinas pentavalente (difteria, tétano, coqueluche, Haemophilus influenza tipo b e hepatite B) e a do rotavírus, ambas administrada na infância – aos dois, quatro e seis meses de vida. Ela orienta que crianças alérgicas ao leite devem ser avaliadas por um alergista antes de tomar vacinas.

De acordo com a Asbai, há 350 mil crianças com alergia à proteína do leite no Brasil. Não há dados em adultos, pois a alergia tende a desaparecer ao longo dos anos, segundo Ana Karolina.

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Ela explica que crianças tendem se curar espontaneamente da alergia em torno dos 5 anos. Caso isso não ocorra, é possível fazer o tratamento de dessenbilização. “Não há limite de idade para esse tratamento, mas existe o que chamamos de janela de oportunidade imunológica. O sistema imunológico da criança ainda está em fase de modificação, então há possiblidade de maior sucesso na infância. O tratamento funciona no adulto, mas muito melhor na criança”, diz.

Grupo de riscos da vacina contra a febre amarela

A Bio-Manguinhos/Fiocruz informa que a vacina da febre amarela é contraindicada para menores de seis meses de idade; pessoas com doença febril aguda com comprometimento do estado geral de saúde; gestantes, com exceção de mulheres em situação de alto risco de exposição à doença; pessoas com imunodeficiência congênita ou secundária, devido a doenças como câncer e infecções pelo HIV ou devido a tratamento com drogas imunossupressoras; e história de doença do timo, como miastenia gravis, timoma ou timectomia.

“A vacina da febre amarela não é contraindicada em pacientes infectados com HIV, desde que sejam assintomáticos, ou a critério médico. A vacina somente deve ser utilizada em mulheres grávidas com orientação médica, avaliando possível risco e benefício. No entanto, não há evidências de que a vacinação de uma grávida esteja associada a efeitos anormais no feto. Existe a possibilidade de a vacina ser excretada no leite humano e causar infecção em crianças amamentadas ao seio. Deve-se avaliar a relação risco e benefício da vacinação de mulheres que estão amamentando", afirma a Bio-Manguinhos/Fiocruz.

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Segundo a fabricante, estudos indicam que há risco aumentado de eventos adversos em idosos. “Deve-se avaliar a relação risco e benefício da vacinação contra a febre amarela neste grupo etário”, diz.

Ainda de acordo com a A Bio-Manguinhos/Fiocruz, há indicações de que portadores de doenças autoimunes, como lúpus eritematoso sistêmico, podem ter maior risco a eventos adversos graves após a administração da vacina.

A Bio-Manguinhos/Fiocruz ainda alerta aos diabéticos pela presença de sacarose na composição da vacina.

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