Novo Coronavírus

Saúde Imunidade de rebanho: saiba o que é o conceito, alvo de crítica da OMS

Imunidade de rebanho: saiba o que é o conceito, alvo de crítica da OMS

Especialista afirma que não é adequado cogitar essa ideia para combater o novo coronavírus porque não se sabe se anticorpos garantem imunidade

  • Saúde | Brenda Marques, do R7

Circulação de pessoas é livre na "imunidade de rebanho"

Circulação de pessoas é livre na "imunidade de rebanho"

Antonio Parrinello/ Reuters - 12.05.20

Imunidade de rebanho é a proteção que se alcança quando a maior parte da população já teve contato com algum vírus e, por isso, se tornou imune a ele.

Na prática, isso exige que todos continuem circulando normalmente para pegar o vírus, algo que vai na contramão do que é defendido pela OMS (Organização Mundial da Saúde): isolamento social para desacelerar o contágio e garantir o atendimento aos pacientes que desenvolverem a forma mais grave da doença.

Nesta segunda-feira (11), Mike Ryan, diretor do Programa de Emergências da OMS, criticou a ideia de imunidade de rebanho, defendida por aqueles que são contrários ao isolamento.

"Humanos não são gado. Temos que ser muito cuidadosos com o uso de termos como este, porque se trata de uma aritmética brutal, que coloca as pessoas em risco de vida e causa sofrimento", declarou.

Gesmar Segundo, coordenador do Departamento Científico de Imunodeficiências da ASBAI (Associação Brasileira de Alergia e Imunologia), destaca que o termo mais adequado para se referir a humanos é imunidade de grupo. 

Ele explica que a palavra rebanho é mais popular porque a expressão, normalmente, é usada para se referir a gados que já foram vacinados contra determinada doença.

O Reino Unido, que tem 32.679 cidadãos mortos pela covid-19, segundo a Universidade John Hopikins, e se tornou o país com maior número de mortos da Europa, chegou a adotar essa tática no início da pandemia.

Contudo, o governo recuou após a publicação de um modelo matemático apresentado pelo Imperial College de Londres que deu um panorama extremamente sombrio de como a doença ia se propagar pelo país, como ia impactar o sistema público de saúde (o NHS, similar ao SUS) e quantas pessoas iam morrer.

O ideal seria que 70% da população estivesse imunizada para atingir esse patamar. Nesse caso, até mesmo quem está suscetível ao vírus seria protegido. "Se você tem o vírus e entra em contato comigo, mas eu estou imune e a maioria das pessoas também, a corrente de circulação [do vírus] quebra em você", esclarece.

Anticorpo não garante imunidade

Porém, nesse momento, não é apropriado nem mesmo cogitar essa ideia como estratégia de combate ao novo coronavírus porque não se sabe se quem contraiu está imune, de acordo com o especialista. "Os anticorpos são utilizados para fazer diagnóstico, mas não garantem imunidade". ressalta.

No geral, eles agem fora das células. "O fato de você produzir anticorpos não significa que eles são protetores, porque o vírus vive dentro da célula e o anticorpo não entra lá, ele impede a entrada do vírus na célula", explica.

Entretanto, no caso do SARS-COV-2, ainda não existem estudos que mostram como é esse mecanismo de ação. Gesmar afirma que pacientes com quadros graves de covid-19 são os que mais tem anticorpos. "Mas a gente não sabe se esses anticorpos estão ajudando", enfatiza.

De acordo com o imunologista, dentro da família de coronavírus existem alguns vírus que, aparentemente, não infectam a mesma pessoa novamente, como é o caso do SARS-COV-1 e do MERS. Mas ele cita exemplos que podem infectar mais de uma vez, como o 229E e o 0643, que causam gripes.

Colapso do sistema de saúde

Gesmar lembra que 20% dos pacientes com covid-19 precisam de internação e, destes, 5% vão para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Por isso, se 70% da população pegar o vírus, essa porcentagem de pessoas internadas será composta por um número muito grande, o que faria o sistema de saúde, que já está sobrecarregado, entrar em colapso.

O médico usa a cidade onde mora, Uberlândia, no interior de Minas Gerais, para alertar sobre a letalidade da covid-19. "Aqui temos 300 casos e 12 mortos. Entre o final de março e de abril, o número de mortes dobrou. Então. a gente vê o aumento rápido da mortalidade mesmo em cidades que não têm muitos casos", exemplifica.

Além disso, existem outros problemas de saúde que exigem cuidados complexos.  "Há doenças graves, como dengue e AVC [Acidente Vascular Cerebral], se lotar todos os leitos de UTI com pacientes de covid-19, não terá vaga para quem tem essas outras doenças, o que aumenta a mortalidade nesses casos também", acrescenta

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