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Saúde Indígenas venezuelanos cruzam fronteira para assistência médica

Indígenas venezuelanos cruzam fronteira para assistência médica

Sarampo leva à procura dos indígenas por postos de saúde dentro de aldeias brasileiras; há 140 indígenas com sarampo, sendo 126 venezuelanos 

  • Saúde | Deborah Giannini, do R7

Indígenas yanomami vivem na fronteira do Brasil

Indígenas yanomami vivem na fronteira do Brasil

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Indígenas venezuelanos estão cruzando a fronteira do Brasil em busca de tratamento para o sarampo. Entre os 442 casos confirmados de sarampo em Roraima desde março, 140 são de indígenas – 14 brasileiros e 126 venezuelanos, segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Roraima.

A pesquisadora Sarah Shenker, porta-voz da ONG Survival International, que há mais de 40 anos atua na defesa da população indígena no mundo, afirma que há relatos de indígenas da etnia yanomani que cruzam a fronteira da Venezuela em busca de assistência médica no Brasil.

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“É muito importante que o governo brasileiro e o governo venezuelano tomem mais ação. O surto devastador da doença pode matar centenas de indígenas caso medidas emergenciais não sejam tomadas”, afirma.

De acordo com o Ministério de Saúde, a maioria dos casos de sarampo entre indígenas ocorreu na região de Auaris, por ser o local de migração dos indígenas venezuelanos que procuram atendimento com as Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena.

“A vacinação da população indígena ocorre mensalmente no Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI), com a oferta de todas as vacinas preconizadas pelo calendário vacinal dos povos indígenas”, informou.

A região de Auaris é habitada principalmente por indígenas venezuelanos sanumá, subgrupo da etnia yanomami. “Para o indígena, não há fronteira. A mobilidade é constante”, explica Manoel Avelino, responsável pelo programa de imunização e doenças imunopreveníveis do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Yanomami. 

Ele explica que os indígenas venezuelanos procuram os postos de saúde localizados dentro de aldeias, no meio da floresta, em território brasileiro. Segundo ele, essa busca por assistência médica sempre ocorreu, mas por outras doenças como malária, pneumonia, diarreia, desidratação e desnutrição. Atualmente, há uma prevalência pela procura do tratamento de sarampo.

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“Fazemos o atendimento médico indiscriminado aos indígenas há muito tempo. Os indígenas que estão dentro da Venezuela vêm para o Brasil em busca de saúde. Isso ocorre dentro da floresta. Buscam postos de saúde nas aldeias”, afirma.

Segundo ele, além dos funcionários de saúde presentes nesses postos, equipes da DSEI visitam as aldeias semanalmente ou quinzenalmente, de acordo com a acessibilidade. “São dias de distância entre uma aldeia e outra”, diz.

DSEI Yanomami atende mais de 25 mil indígenas

O Ministério da Saúde afirma que a vacinação dos povos indígenas no país ocorre de forma sistemática e organizada desde o ano 2000 com a criação dos DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena). Atualmente, há 34 DSEIs.

Segundo a pasta, a cobertura vacinal do DSEI Yanomami/RR para a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, no primeiro trimestre deste ano é de 97,7% para toda a população indígena e 82,5% nos menores de 5 anos de idade.

“A cobertura vacinal dos indígenas brasileiros é bem satisfatória. Na última semana houve uma diminuição considerável do número de casos de sarampo”, diz Avelino.

O DSEI Yanomami tem sede em Boa Vista, capital de Roraima, e sua atuação abrange até o extremo Norte de Roraima e Amazonas, na divisa com a Venezuela, segundo o Ministério da Saúde. Está dividido em 27 bases que atendem a 348 aldeias, com população indígena total de 25.486. Está presente em cinco cidades de Roraima e três do Amazonas.

De acordo com o Ministério, todas as medidas de controle de disseminação do sarampo na comunidade indígena foram adotadas pelo DSEI, entre elas, investigação de casos, capacitação de equipes na área, ações de educação em saúde, busca de pessoas não-vacinadas e palestras na Casa de Saúde Indígena (Casai).

“Ainda foram adotadas ações de bloqueio vacinal, como fixação de equipes sentinela em pontos estratégicos nos territórios indígenas, monitoramento dos indígenas que entram e saem de área e atualização dos censos vacinais em todas as comunidades”, afirmou.

O DSEI participou da campanha de vacinação contra o sarampo realizada pelo Estado de Roraima, que, devido ao surto, teve início em março – cinco meses antes da campanha nacional, que começou na última segunda-feira (6) e inclui a vacina contra a poliomielite.

Além da antecipação da campanha, em Roraima e no Amazonas a recomendação da vacina contra o sarampo foi reduzida para os 6 meses de idade – nos demais Estados é a partir de 1 ano.

Entre os 5 mortos pelo sarampo este ano no país estão duas crianças com menos de um ano: um bebê indígena brasileiro, de 9 meses, em Roraima, e um bebê de 7 meses, no Amazonas. As demais vítimas são cidadãos venezuelanos que estavam no país.

Segundo o Ministério, os surtos de sarampo, doença que estava erradicada no Brasil desde 2016, estão relacionados à importação do vírus da Venezuela. O vírus de genótipo D8 que está circulando no Brasil é o mesmo que circula na Venezuela.

O Amazonas é o Estado com o maior número de casos. São 788 confirmados e 5.058 em investigação. Já Roraima confirmou 281 casos e 111 estão em investigação.

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Para a porta-voz da Survival International, o sarampo e outras doenças estão sendo transmitidas aos índios pelos garimpeiros. “É preciso proteger as terras dos yanomami dos garimpeiros que estão destruindo a floresta e transmitindo doenças que podem matar os indígenas, que têm pouca resistência a doenças de fora”, afirma.

Embora os indígenas representem uma parcela significativa dos afetados pelo sarampo, as principais vítimas em Roraima são crianças entre 1 e 4 anos. São 69 casos desde o início do ano, o que corresponde a maior parte dos infectados (25%). A taxa mais baixa é entre os adultos maiores de 50 anos – 1 caso apenas.

A vacina contra o sarampo inclui duas doses. A primeira, chamada de tríplice viral, que protege também contra a rubéola e a caxumba, deve ser aplicada a partir de 1 ano – em Roraima e Amazonas, a partir dos 6 meses. Já a outra, a tetraviral, que inclui imunização à varicela (catapora), é indicada aos 15 meses de vida (1 ano e três meses).

Segundo a Secretaria Estadual de Saúde de Roraima, a adesão à vacina contra o sarampo no Estado está baixa. A pasta informa que, até o momento, 123 mil pessoas foram vacinadas em Roraima, o que corresponde a apenas 30% do público-alvo, composto de 409 mil pessoas dos 6 meses aos 49 anos de idade.

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