Insegurança alimentar leva a doenças que agravam covid-19

Consumo de alimentos ultraprocessados acontece em todas as classes sociais; a ingestão em excesso causa obesidade, diabetes e hipertensão

Obesos estão no grupo de risco da covid-19

Obesos estão no grupo de risco da covid-19

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A insegurança alimentar pode ser definida como a falta de acesso a alimentos em quantidade suficiente e qualidade adequada. No Brasil, ela atinge 52 milhões de pessoas e 15 milhões de lares, de acordo com a última pesquisa feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) sobre o tema, em 2013.

Viver nessa condição leva a doenças que podem agravar a covid-19, dizem especialistas.

"A gente pode ter carência e má qualidade dos alimentos. Aqui no Brasil temos uma combinação dos dois", observa a professora Lígia Bahia, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IESC/UFRJ),

Ela chama atenção para o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, ou seja, aqueles industrializados e produzidos com a adição de muitos ingredientes - como sal, açúcar, olhos e gorduras. São exemplos batatas fritas prontas, macarrão instantâneo, congelados, embutidos e salgadinhos.

Insegurança envolve questões financeiras e culturais

De acordo com o Ministério da Saúde, a ingestão em excesso desse tipo de alimento é uma das principais causas de doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, que colocam as pessoas no grupo de risco da covid-19.

Segundo a especialista, o hábito de se alimentar com industrializados depende de aspectos financeiros e culturais.

"Mesmo em países ricos existe insegurança alimentar. O consumo de alimentos ultraprocessados não está relacionado só com a falta de recursos, tem questões culturais envolvidas. E esse padrão alimentar causa obesidade", destaca.

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Rosana Perin, gerente de nutrição do HCor (Hospital do Coração), concorda que ricos e pobres estão expostos à insegurança alimentar por causa do consumo de ultraprocessados e, portanto, vulneráveis a doenças crônicas.

"A [classe] menos favorecida fica mais vulnerável à hipertensão porque o preço dos [alimentos] embutidos é mais acessível e consumi-los aumenta a quantidade de sal no organismo", explica.

"Já na classe mais favorecida temos o consumo exagerado de fast foods, e aí temos a questão da obesidade. Junto com ela vêm a hipertensão e o diabetes", compara.

Entretanto, Rosana pondera que a obesidade "não tem classe social". Segundo dados oficiais, um em cada cinco brasileiros (19,8%) é obeso. Vanessa Alves Ferreira, professora do Departamento de Nutrição da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) ressalta que a obesidade favorece o desenvolvimento de mais de 25 doenças.

Por sua vez, ela analisa que a insegurança alimentar no Brasil é perpetuada por três aspectos: a falta de renda, a cultura alimentar e a forte publicidade acerca de alimentos de má qualidade.

"Um dos fatores decisivos envolve a questão monetária. A população de baixa renda vai optar por alimentos mais baratos", afirma. "O problema é que eles não são saudáveis."

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"A comercialização em larga escala de produtos ultraprocessados e processados, altamente calóricos, palatáveis e de baixo custo ampliaram o consumo desses itens entre a população mais pobre, contribuindo para o aumento das doenças crônicas e do excesso de peso", pondera.

Na época do levantamento feito pelo IBGE, os brasileiros em situação de insegurança alimentar eram, em sua maioria, pretos e pardos, com baixa escolaridade, moradores de área rural e das regiões norte e nordeste. Além disso, a maioria dos lares tinha pessoas menores de 18 anos.

"Isso mostra que a insegurança alimentar tem uma forte ligação com a pobreza e a desigualdade social", avalia Vanessa.

"Aqui no Brasil quem mora na periferia tem muita dificuldade de ter acesso a alimentos frescos", completa Lígia.