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Saúde Marca de 300 mil mortos revela fracasso do Brasil na pandemia

Marca de 300 mil mortos revela fracasso do Brasil na pandemia

Avaliação é de especialistas, que apontam cenário ruim enquanto país continuar a ter números elevados de novos casos de covid

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Resumindo a Notícia

  • Brasil tem 300 mil mortes por covid 76 dias após registrar 200 mil
  • Especialistas relatam fatores que levaram à trágica marca
  • Redução da mortalidade depende da queda da transmissão
País vive pior momento da pandemia ao atingir 300 mil mortes

País vive pior momento da pandemia ao atingir 300 mil mortes

Tarso Sarraf/Estadão Conteúdo - 21.3.2021

Com 300 mil mortes por covid-19, o Brasil pode ser visto como um claro exemplo de fracasso no combate à pandemia, na visão de especialistas.

Em todos os recortes possíveis — de mortes diárias, por milhão de habitantes — o país figura no topo das listas.

As últimas 100 mil mortes ocorridas no Brasil, até totalizar 300 mil, ocorreram em um intervalo de 76 dias, metade do tempo decorrido para atingir as 100 mil anteriores.

"Essas novas variantes são mais transmissíveis. Esse encurtamento do tempo demonstra aceleração na transmissão da doença. Então, você tem em um tempo mais curto mais pessoas doentes", analisa a epidemiologista e professora da Ufes (Universidade Federal do Espírito Santo) Ethel Maciel.

A pesquisadora do Observatório Fiocruz Covid-19 Margareth Portela fala sobre as causas que levaram ao cenário de colapso hospitalar vivido hoje no Brasil.

"É um fracasso que se deve a alguns fatores. Não dá hoje para não falar muito seriamente da falta de coordenação nacional. Tem determinadas medidas que não tem jeito, precisam ser tomadas na esfera federal. [...] Pior do que não ter uma gestão da pandemia, a gente teve uma agressão a qualquer possibilidade de gestão da pandemia. Quem fez algum esforço foi banido."

Além disso, a pesquisadora cita como ingredientes que levaram o país aos piores rankings da pandemia o estímulo de medicamentos inúteis contra a covid-19 e a falta de uma campanha pelo uso de máscara.

"[Há] uma Insistência em medicamentos sem eficácia, inclusive com a cumplicidade de algumas associações médicas e profissionais, de uma forma vergonhosa."

Perspectivas

As duas especialistas avaliam que as próximas semanas ainda devem ser de indicadores elevados no país.

"Como as medidas de restrição praticamente em todo o Brasil foram iniciadas na semana passada, tem pouco tempo, nós só vamos ver esse resultado daqui duas ou três semanas. O que estamos vivendo hoje ainda é reflexo de dias de contaminações anteriores a essas medidas de restrição", observa Ethel.

A média diária de novos casos está acima de 76 mil nos últimos sete dias, um recorde. Isso representa que um grande número de pessoas — em torno de 15% — pode precisar de hospitalização no momento em que há pouca ou nenhuma disponibilidade de leitos.

O país tem 23,1 mil leitos de UTI destinados a pacientes adultos com covid-19. Na semana passada, foram confirmados 511 mil novos casos da doença.

Se 2% dessas pessoas precisarem de vaga em UTI nas próximas semanas, já serão 10,2 mil pacientes, quase metade da capacidade do país.

Margareth alerta para a possibilidade de muitas pessoas não conseguirem nem mesmo ser atendidas se não houver uma queda das infecções.

"A taxa altíssima de ocupação de leitos é só a ponta do iceberg. Mas tem a base toda, que é um nível de contágio elevado e muitos novos casos. Quando perde o controle da pandemia, o crescimento da necessidade de leitos de UTI é exponencial. O colapso significa que as pessoas vão morrer nas filas de UTI ou não chegam nem ao sistema de saúde, morrem em casa."

Elas concordam que medidas mais rigorosas precisam ser adotadas para frear a transmissão do vírus, mas também ponderam que as ações ficam difíceis sem uma coordenação nacional.

"Estamos em um patamar muito alto, em uma situação de colapso. A expectativa é que de imediato a adoção de medidas mais rigorosas propicie uma reversão desse quadro", diz a pesquisadora da Fiocruz.

Ethel Maciel chama atenção ainda para a ausência de iniciativas que possam diminuir o contágio mesmo entre quem precisa continuar trabalhando.

Ela cita o exemplo da Europa, onde o uso de máscaras com um nível de proteção mais elevado está sendo exigido em determinados locais.

"Neste momento, a gente já sabe que as máscaras mais filtrantes, as PFF2, protegem. Na Europa, você não entra mais em transporte coletivo se não estiver com essa máscara. Eles reduziram todos os impostos para a máscara ficar mais barata, estão distribuindo para quem não pode comprar. Aqui no Brasil nem se discute isso."

Vacinação

As duas pesquisadoras  afirmam estarem otimistas em relação ao futuro da vacinação no país, mas criticam a demora do governo federal na compra de vacinas de outros laboratórios.

Apenas na semana passada o Ministério da Saúde fechou acordo com a Pfizer e com Janssen para adquirir 138 milhões de doses. Ainda assim, o prazo de entrega é incerto.

"Já estamos vendo uma menor internação e óbitos em pessoas acima de 85 anos, aquelas que já receberam a segunda dose da vacina. Isso reflete aquilo que os estudos já mostraram. Mas ainda é um futuro de incerteza porque a gente não está vendo essa vacinação rápida. Teríamos que vacinar mais rápido do que essas variantes", acrescenta Ethel.

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