“Meu maior medo é prejudicar a saúde do bebê”, diz grávida com diabetes gestacional

Mãe conta as mudanças na rotina exigidas para manter o bom controle da glicemia

“Meu maior medo é prejudicar a saúde do bebê”, diz grávida com diabetes gestacional

Fernanda Tavares teve diabetes gestacional nas duas gestações

Fernanda Tavares teve diabetes gestacional nas duas gestações

Arquivo pessoal

Falta menos de um mês para a chegada de Guilherme. Mas, a mãe Fernanda Tavares, de 37 anos, vive um misto de ansiedade e preocupação. Ao mesmo tempo em que está na contagem regressiva para ver a carinha do segundo filho, a advogada também tenta seguir uma rotina saudável para driblar os efeitos do diabetes gestacional diagnosticado no sétimo mês de gestação.

— O diabetes gestacional apareceu nas duas gravidezes. Na primeira vez, levei um susto e fiquei bem preocupada. Mais do que desenvolver diabetes tipo 2 no futuro, meu maior medo era em relação ao bebê vir a ter diabetes tipo 1. Procurei logo um endocrinologista para seguir o tratamento adequado e evitar qualquer prejuízo à saúde do bebê. O mesmo aconteceu agora.

Assim como o diabetes tipo 1 e tipo 2, o gestacional também é caracterizado pela alteração das taxas de açúcar no sangue e, como o próprio nome sugere, aparece ou é detectado pela primeira vez na gravidez. Em entrevista ao R7 para a série especial, a ginecologista Karina Zulli, do Hospital São Luiz, estima que 15% das mulheres grávidas sejam atingidas pela doença.

— Em geral, o diagnóstico é feito no final do segundo trimestre e início do terceiro, período que a curva glicêmica, exame que comprova o problema, é solicitada. Mas, se a mulher fizer parte do grupo de risco ou estiver ganhando mais de 1,5 kg por mês, assim como o bebê estiver crescendo ou engordando mais rápido do que o normal, o exame deve ser feito antes. Como a doença não tem sintomas é fundamental realizar o pré-natal adequado.

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Fernanda já havia apresentado o diabetes gestacional na primeira gravidez, assim “a chance de reincidência era quase certa”. Por conta disso, ela antecipou os cuidados com a saúde, mas mesmo assim não conseguiu evitar a doença.

— Amo tomar café da manhã e esta foi a mudança mais radical na minha rotina. Troquei o pão francês e o pão de queijo pelo pão integral light. Também abri mão da fruta após o almoço. Geralmente como em outro horário. Tudo é uma questão de adaptação.

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Com uma dieta balanceada, o primeiro filho Pedro, que atualmente tem quase dois anos, nasceu saudável com 50 cm e quase 3,3 kg.

Fernanda e o marido estão ansiosos pela chegada de Guilherme

Fernanda e o marido estão ansiosos pela chegada de Guilherme

Arquivo pessoal

— Não tive nenhuma complicação no parto e estou confiante de que o mesmo se repetirá com o Guilherme.

Além da dieta alimentar de baixa ingestão de carboidratos e aumento do consumo de fibras, a ginecologista Renata di Sessa, do Hospital Santa Catarina, reforça a necessidade da prática regular de atividade física.

— O exercício físico só não é recomendado quando a gravidez é de risco. Caso contrário, a mulher deve se movimentar de duas a três vezes por semana, sem ultrapassar 140 batimentos cardíacos. Se ela nunca fez exercício, pode optar por atividade de baixo impacto, como hidroginástica, com acompanhamento de um profissional.

A advogada admite que não conseguiu incluir uma rotina de atividade física, mas caminha bastante já que trabalha de metrô e vai muito a pé ao fórum. Para ter a certeza de que a glicemia está controlada, Fernanda faz quatro medições ao longo do dia.

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Segundo a ginecologista Alessandra Bedin Rubino, do Hospital Israelita Albert Einstein, se a mãe não conseguir controlar a glicemia com dieta e exercício físico a insulina deve entrar em cena.

— Se a doença não for tratada adequadamente, um dos riscos é de o bebê ter hipoglicemia [queda brusca da taxa de açúcar no sangue] ao nascer. Isso acontece porque no útero a criança está acostumada com um ambiente cheio de insulina [hormônio que retira a glicose do sangue] e quando nasce precisa se adaptar à nova realidade.

A hiperglicemia também pode desencadear má formação, estimular o crescimento do bebê que terá dificuldade para nascer e, em casos mais graves, levar ao aborto.

Mulheres que fazem parte do grupo de risco

O diabetes gestacional pode aparecer em qualquer mulher, mas a ginecologista Renata ressalta o perfil que tem mais chances de apresentar o problema.

—Mulheres com histórico de diabetes na família ou que já apresentaram diabetes gestacional em gestações anteriores, as que engravidam acima do peso ou engordam muito durante a gravidez, as que têm mais de 35 anos de idade ou, ainda, aquelas que apresentam alteração de colesterol e triglicérides.

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Neste caso, alerta a médica, “é muito importante fazer o rastreamento da doença desde o início da gravidez”.

— Se a glicemia de jejum estiver igual ou acima de 90 mg/dl já é recomendado a realização da curva glicêmica, independentemente do estágio da gestação.

A especialista do Hospital São Luiz acrescenta que mesmo a doença não sendo detectada no primeiro trimestre, “já é orientado a adoção de hábitos saudáveis como forma de prevenção”.

Uma vez diagnosticado, o diabetes gestacional persiste até o fim da gravidez. Depois que o bebê nasce, é esperado o fim da produção de hormônios pela placenta e, consequentemente, a remissão do quadro. No entanto, Renata explica que nem sempre isso acontece.

— A tendência é sumir, mas em alguns casos, as mulheres passam a conviver com o diabetes. Mesmo que isso não aconteça, é importante a mulher manter os hábitos saudáveis porque existe um risco maior de ela ser tornar diabética tipo 2 no futuro.

Por ter consciência disso, Fernanda garante que vai manter os hábitos saudáveis para prevenir o diabetes tipo 2 no futuro, especialmente porque seu pai também é portador da doença.

— Sei da importância da alimentação saudável e do exercício físico, por isso, assim que o Guilherme permitir, vou incluir a academia na rotina.

Atenção com os quilos extras na gestação

Na primeira gestação Fernanda conta que engordou um pouco mais do que o permitido, ou seja, 16,5 kg. Já desta vez, comemora ela, “até agora foram 10,5 kg”.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o aumento ideal de peso durante a gestação depende da condição da mulher antes da gravidez. A ginecologista do Einstein avisa que a recomendação de oito a 12 kg só vale para as mulheres que estão com o peso adequado.

— Se a mulher estiver com excesso de peso, a orientação é não engordar quase nada. No máximo, cinco ou seis quilos. No caso de mulheres abaixo do peso, o ganho pode chegar a 20 kg.

Depois do nascimento do bebê, se a mãe engordou dentro do esperado, a amamentação ajuda na recuperação da boa forma, uma vez que há um grande gasto calórico. Mesmo que o diabetes tenha sumido, as especialistas recomendam continuar com uma dieta balanceada e a prática regular de atividade física.

Sobre o risco de a criança ter diabetes, Karina diz que isso não é regra. Segundo ela, “a criança pode ter a doença se herdada geneticamente”. Mesmo assim, o endócrino-pediatra Luis Eduardo Calliari, da Santa Casa de São Paulo, reforça que “o consumo de açúcar não deve ser estimulado, independentemente de a criança ter ou não diabetes”.

— Alimentação saudável é a regra número um para qualquer criança.