Saúde Na busca por vida saudável, feiras e clubes de descontos facilitam acesso a alimentos orgânicos

Na busca por vida saudável, feiras e clubes de descontos facilitam acesso a alimentos orgânicos

Consumidores ainda esbarram em altos preços e falta de informação, dizem especialistas

  • Saúde | Ana Luísa Vieira, do R7

Pesquisa mostra que apenas 15% da população urbana no País compra orgânicos regularmente

Pesquisa mostra que apenas 15% da população urbana no País compra orgânicos regularmente

Getty Images

Os benefícios do consumo de orgânicos à saúde ou mesmo para o meio ambiente já são conhecidos por muitos. Cultivados sem fertilizantes, pesticidas ou produtos químicos, esses alimentos tiveram seu mercado regulamentado no Brasil em 2011, porém, boa parte dos brasileiros ainda esbarra em preços altos e falta de informação na hora de adquiri-los, conforme explica Carlos Armênio Khatounian, professor no departamento de Agroecologia e Agricultura Orgânica da Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), da Universidade de São Paulo.

— Primeiro, os orgânicos são procurados em uma escala maior do que aquela em que eles são produzidos. Só isso já explica o sobrepreço, é a lei da oferta e da demanda. Fora isso, há uma diferença grande no preço desses alimentos segundo a forma como eles são comercializados. Normalmente, nos supermercados, por questões de transporte e distribuição, os preços dos orgânicos são muito mais elevados do que as hortaliças e outros produtos convencionais.

De acordo com a pesquisa recente divulgada pela Organis (Conselho Brasileiro de Produção Orgânica e Sustentável), apenas 15% da população urbana no País compra orgânicos regularmente. A estudante paulista Debora Romanini, de 21 anos, consome alimentos de origem orgânica sempre que pode, mas reluta diante de valores salgados.

— No caso dos vegetais, como eu moro sozinha e compro em pequenas quantidades, não faz muita diferença. Mas quando preciso levar um suco ou um chá, por exemplo, acabo repensando, porque a diferença dos preços é realmente discrepante.

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O jeito mais fácil para driblar o problema, segundo o professor da USP, é comprar os produtos orgânicos em feiras especializadas, que colocam o consumidor em contato direto com os produtores: “São comércios locais onde o preço dos orgânicos pode ser igual ou até mais barato que o dos alimentos convencionais encontrados nos supermercados”. Dados da Organis apontam que já existem 600 feiras do tipo em todo o Brasil — que contribuíram para o crescimento do mercado em 20% no ano de 2016.

Crescimento irreversível

Foi pensando na aproximação entre vendedores e compradores, aliás, que Anderson Vitor e Luís Arsenio fundaram o Clube Greens — plataforma online que garante descontos a quem estiver interessado no consumo consciente. No site, os internautas têm acesso a uma lista de empresas ligadas a sustentabilidade e hábitos saudáveis, onde se pode obter abatimentos que variam entre 5% e 30%, aponta Vitor.

— O que o Clube Greens faz é diminuir o preço para aumentar a demanda. Aumentando a demanda, os produtores teriam condições de aumentar as ofertas. Consequentemente, as empresas vão investir em tecnologias para a produção de alimentos orgânicos.

A popularização do consumo de produtos orgânicos é crescente e irreversível, dizem especialistas

A popularização do consumo de produtos orgânicos é crescente e irreversível, dizem especialistas

Maurilio Cheli/Fotos Públicas

A popularização do consumo desses produtos, para o fundador do Clube Greens, é crescente e irreversível: “É um movimento semelhante ao do computador. Quando ninguém acreditava que era possível ter um computador doméstico, nos anos 70, o Steve Jobs já dizia que era provável que a maioria das casas contasse com um equipamento do tipo até o início dos anos 2000. Naquela época, a produção de um computador envolvia um custo exorbitante. Aí, conforme aumentou a demanda, a oferta começou a ser maior e o preço diminuiu, garantindo fácil acesso às pessoas”, aposta.

Conscientização e meio ambiente

A nível nacional, especialistas ouvidos pelo R7 afirmam que faltam ainda medidas de educação a respeito das vantagens do consumo de alimentos orgânicos para o meio ambiente. "Um solo afetado por um nível padrão de agrotóxicos utilizados hoje só vai voltar a ser orgânico daqui a 60 ou 70 anos. O impacto é gigante", alerta Anderson Vitor. Ming Liu, diretor executivo da Organis, também reforça que toda produção orgânica respeita o ciclo natural da terra, da água e da natureza.

— Até por conta dessa cadeia produtiva o preço fica um pouco alto. Não dá pra corrigir uma praga na plantação, por exemplo, com defensor agrícola. Aí o produtor precisa combater o problema e reestabelecer o equilíbrio daquele espaço naturalmente, sem interferência química no meio ambiente. A questão é que poucas pessoas têm consciência desses benefícios, então o consumidor, no País, acredita que os orgânicos são produtos de elite. Nós não fizemos, ainda, campanhas de divulgação e sensibilização para que a população realmente conheça o setor.

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Carlos Armênio Khatounian, professor de agroecologia na USP, tem a mesma opnião: “Educação é o que podemos tirar de lição de países como Suíça e Dinamarca, onde o consumo de orgânicos per capita é alto. A demanda por alimentos produzidos em sistemas melhores e isentos de substâncias químicas crescerá à medida que a população esteja melhor informada. Com isso, não precisaremos esperar que todos sejamos mais ricos para satisfazer com qualidade a mais elementar das nossas necessidades, que é comer”.

Ming Liu ainda reforça que o setor só tem a crescer — especialmente no Brasil, um país com uma rica diversidade de biomas e condições ecológicas. 

— Além das verduras e hortaliças, em que se baseia quase todo o mercado dos Estados Unidos, por exemplo, nós temos uma grande diversidade de castanhas — que podem ser bastante exploradas nessa busca atual por produtos mais saudáveis. Aqui, a questão dos orgânicos vai muito além da agricultura convencional, porque o Brasil conta com essas opções de origem extrativista. Outro exemplo é o guaraná, ou mesmo o açaí. Eles podem ser melhor aproveitados, porque são alimentos ligados à nossa cultura, e hoje o consumidor no mundo todo opta cada vez mais pela aquisição de produtos com história, com passado. 

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