Novo coronavírus: idosos convivem com medo, ansiedade e solidão 

Isolamento social, recomendado pelas autoridades em meio a pandemia, pode trazer consequências psicológicas a pessoas com mais de 60 anos

Isolamento social deve trazer consequências psicológicos aos idosos

Isolamento social deve trazer consequências psicológicos aos idosos

Alexandros Avramidis / Reuters - 26.2.2020

Uma das principais recomendações das autoridades durante a pandemia do novo coronavírus é o isolamento social. O objetivo da medida, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), é minimizar a velocidade de transmissão do vírus, que causa a doença covid-19, e, assim, evitar que os serviços de atendimento médico fiquem sobrecarregados.  

Diante disso, a população com mais de 60 anos (considerada grupo de risco e sujeita a apresentar complicações graves) se viu obrigada nos últimos dias a abrir mão temporariamente de situações de convívio social, que em condições normais seriam indicadas por médicos, para diminuir os risco de contaminação. No entanto, essa nova realidade inevitavelmente trará consequências físicas e psicológicas específicas para os idosos. 

“Em situações normais, a gente até orienta o contrário. Que as pessoas saiam de casa, façam alguma atividade física, mas neste momento não é a orientação. É um momento específico”, explica Elisangela Neto Ribeiro Chaves, geriatra e supervisora médica da Home Doctor, de Campinas, interior de São Paulo. “Para muitos idosos é difícil mudar a rotina. Agora eles têm que entender que é um momento de pensar na segurança de todos.”

Mais de 245 mil pessoas já foram infectadas e outras 10.031 morreram em todo o mundo, desde o início da epidemia, de acordo com dados da Universidade Johns Hopkins divulgados na sexta-feira (20). 

Consequências do isolamento social

Vídeo de idosa chorando ao ver prateleiras vazias viralizou nas redes sociais

Vídeo de idosa chorando ao ver prateleiras vazias viralizou nas redes sociais

Reprodução/ Twitter

De acordo com publicação da revista científica The Lancet, na quinta-feira (19), o isolamento — independentemente da pandemia — pode estar associado ao aumento do risco de “problemas cardiovasculares, autoimunes, neurocognitivos e de saúde mental.” A geriatra alerta, no entanto, que em um primeiro momentos essa população pode vir apresentar um quadro depressivo.

“Os idosos estão sendo forçados agora, mas a expectativa é que seja algo que acabe se estendendo um pouco, então é natural que essas pessoas fiquem um pouco mais depressivas, se sintam desmotivadas com a vida. Muitos deles já têm idade avançada e se sentem naturalmente desesperançosos”, diz a médica.

"Embora a aproximação física não seja recomendada neste momento, isso não deve representar o isolamento total dessas pessoas"
Marilene Kehdi, psicóloga

Pertencer ao chamado grupo de risco, composto também por portadores de doenças crônicas e imunossuprimidos, é uma das maiores preocupações dessa parcela da sociedade.

Marilene Kehdi, psicóloga especialista em Geriatria e Gerontologia Social, afirma que “o medo da rejeição e solidão é maior. Eles se sentem rejeitados, principalmente aqueles que já foram diagnosticados com a doença. Por serem do grupo de risco e a idade avançada, alguns podem se sentir como se não tivessem muita chance de vida, o que não é verdade.”

Denivaldo Soares, de 67 anos, professor de boxe, se viu obrigado a passar o último aniversário sozinho. Ele, que oferece aulas gratuitas para crianças de baixa renda — incluindo um reforço na alimentação desses alunos —, usou as redes sociais para falar sobre as dificuldades em ter que interromper as atividades por conta do alto risco de infecção.

O professor conversou com a reportagem do R7 sobre a repercussão do vídeo e, ainda, o que tem feito para lidar com a fase. “É muito triste. Eu ando aqui em casa, desço, subo, ando, dou uma volta. É difícil. Eu moro com a minha esposa, filha e genro. Eles foram dispensados do trabalho e hoje estão aqui em casa. É triste. Dá até medo. Saí para ir à farmácia e as pessoas não estão conversando no transporte público.”

Como minimizar os efeitos?

Especialistas dizem que redes sociais podem ser aliadas nessa fase de isolamento

Especialistas dizem que redes sociais podem ser aliadas nessa fase de isolamento

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A criativa é uma das palavras-chave para o enfrentamento da fase. A geriatra Marilene recomenda, se possível, que os idoso aproveitem o espaço em que vivem para a realização de atividades físicas como, por exemplo, “alongamentos. Até mesmo caminhadas dentro de casa, ou quintal, para quem vive em casa. É possível fazer isso dentro de casa.”

Embora a aproximação física não seja recomendada neste momento, isso não deve representar o isolamento dessas pessoas. A internet e as redes sociais, por exemplo, podem contribuir para minimizar o sentimento de solidão. “A aproximação virtual é uma alternativa. Colocar séries em dia. O contato virtual, por meio das mídias sociais, ligações telefônicas com familiares e amigos. Tudo isso contribui para diminuição dos níveis de estresse, medo e ansiedade”, complementa a psicóloga Marilene.

O professor de boxe, Denivaldo, tem aproveitado o momento para intensificar algumas dessas atividade no próprio ambiente familiar. “Eu tenho uma mesa de bilhar, que eu fico jogando sozinho. Na academia, na parte de baixo de casa, faço exercícios e pulo corda”.

A pandemia do novo coronavírus tem imposto uma série de restrições e novas configurações sociais, principalmente para o grupo de risco. Entretanto, as famílias e pessoas próximas têm papel fundamental nas ações de apoio que visam diminuir os impactos aos idoso. Há um consenso claro entre os especialistas: “É preciso oferecer apoio aos idosos”.

Arte/R7