Saúde Novo remédio de Alzheimer: como funciona e quando chega ao país

Novo remédio de Alzheimer: como funciona e quando chega ao país

Aduhelm age no mecanismo que leva à perda cognitiva progressiva; tratamento anual custa em torno de R$ 282 mil

  • Saúde | Lucas Pimentel, do R7*

Apesar de aprovação nos Estados Unidos, remédio ainda não tem data para chegar ao Brasil

Apesar de aprovação nos Estados Unidos, remédio ainda não tem data para chegar ao Brasil

pixabay

Depois de 18 anos sem um novo remédio para a doença de Alzheimer, o FDA (Food and Drug Administration), órgão que regulamenta medicamentos nos Estados Unidos, aprovou o Aducanumab, que será comercializado com o nome de Aduhelm. Desenvolvido pelo laboratório Biogen, ele interfere no processo de perda cognitiva em casos iniciais da doença.

O Alzheimer é uma doença progressiva, sem cura, que se desenvolve de forma insidiosa, com perda da memória e piora do desempenho das funções do dia-a-dia, conforme descreve o neurologista Gustavo Melo. 

“A doença de Alzheimer é uma doença que gera uma incapacidade enorme para o indivíduo, familiares e para a sociedade em geral. É uma condição que limita não só o paciente, mas também uma rede de pessoas que estão ligadas ao cuidado dele", afirma.

Ele ressalta que a tendência é que a prevalência da doença aumente muito nos próximos anos com o envelhecimento da população. O Brasil possui cerca de 1 milhão de pessoas com Alzheimer, de acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). "Não só os pacientes e familiares, mas toda a comunidade científica e médica anseia por um tratamento que interfira no curso da doença, tornando-a mais lento ou, na melhor das hipóteses, interrompendo a progressão dos sintomas", diz.

Um dos fatores que leva ao declínio cognitivo progressivo do Alzheimer é o depósito da proteína B amilóide no cérebro, de acordo com o Manual Merck de Medicina. Melo explica que esse novo medicamento age contra o acúmulo dessa proteína.

"Já se sabe que a doença de Alzheimer possui diversos mecanismos patológicos, no entanto um deles parece ter um papel relevante na apresentação da doença. Esse mecanismo patológico que estou falando é o acúmulo de placas B amiloides no cérebro. Um anticorpo que atue contra os emaranhados de proteína B amilóide, teoricamente, age evitando o depósito e a 'intoxicação' do cérebro por estas placas", explica.

O médico afirma que o remédio é indicado para casos iniciais do problema porque foi testado nesse estágio. “A doença é considerada um continuum, ou seja, ao longo dos anos ela vai apresentando estágios. Podemos resumir da seguinte forma: existe uma fase pré-clínica em que o paciente tem a patologia instalada no cérebro, mas ainda não apresenta sintomas. Isso pode acontecer de 10 a 15 anos antes do início dos sintomas. A outra, seria a fase clínica, em que o paciente começa a apresentar sintoma. De uma maneira geral, na demência pela doença de Alzheimer, os sintomas iniciam-se com queixas sutis relacionadas à memória, como pequenos esquecimentos na rotina", esclarece.

O neurologista diz que ainda não há previsão de o medicamento chegar ao Brasil. O remédio deve ser avaliado e aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). O tratamento anual custa em torno de US$ 56 mil (equivalente R$ 282 mil), segundo publicado pelo jornal norte-americano The New York Times.

A última aprovação de um remédio para a doença no Brasil data de 2003. "É uma doença complexa em que os mecanismos fisiopatológicos que provocam o adoecimento são diversos e consequentemente dificultam a ação terapêutica por uma só via", explica Melo.

Embora aprovado nos Estados Unidos, o medicamento foi alvo de polêmica. Durante os estudos, o remédio não apresentou efeito o que levou à interrupção dos ensaios clínicos. O fabricante retomou a pesquisa e apresentou resultados positivos.

“Acredito que a polêmica na aprovação existe devido ao fato de ter acontecido uma reanálise dos dados do estudo, o que foi muito questionado e também pelo fato de tratar-se de uma aprovação acelerada que exige ainda uma observância detalhada e séria de como serão os desfechos clínicos nas próximas pesquisas. Inclusive, o FDA sugere uma fase 4 dos ensaios clínicos que permitam observar estes resultados”, finaliza o médico.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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