Saúde bucal
Saúde ONG oferece tratamento dentário gratuito a populações carentes

ONG oferece tratamento dentário gratuito a populações carentes

Voluntários viajam a diversas localidades levando equipamentos e mão de obra para atender quem não teria condições de pagar para ir ao dentista

ONG leva tratamento completo para onde não há serviço de saúde bucal

Ação da ONG "Por1sorriso" no Xingu

Ação da ONG "Por1sorriso" no Xingu

Reprodução/ Por1Sorriso

Cerca de 20 milhões de brasileiros nunca foram ao dentista, segundo estimativas do Conselho Federal de Odontologia. Dentre os principais motivos estão a falta de dinheiro. Com a meta de superar esse obstáculo e oferecer tratamento odontológico gratuito, a ONG (organização não governamental) Por1Sorriso atende populações carentes dentro e fora do Brasil. 

“O objetivo é fazer atendimento no nível de consultório odontológico em comunidades que não têm acesso a esse serviço”, afirma o dentista Felipe Rossi, fundador e presidente da organização.

“A gente cuida da boca inteira do paciente de acordo com o que ele precisa, com atendimento gratuito”, completa. Fundada em 2016, ONG já percorreu do Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, à Ocupação 9 de Julho, no centro de São Paulo.

As ações vão além das fronteiras nacionais e também acontecem em dois países do leste da África: Quênia e Moçambique. Foi durante uma missão neste último país que Felipe teve a ideia de criar a Por1Sorriso, junto com a dentista Marina Melo.

“Começamos nós dois e alguns voluntários”, lembra. Eles tinham apenas uma cadeira odontológica, hoje a ONG tem 20 delas.

No banco de dados da organização existem mais de 4.000 voluntários cadastrados, mas na prática a realidade é outra: “Existem custos com os quais as pessoas têm que arcar e, com isso, muita gente acaba desistindo de ir na ação. É sempre muito difícil fechar a equipe”, explica Felipe.

A última ação, realizada em Nova Olinda, no Ceará, contou com uma equipe de 35 pessoas – entre dentistas, médicos, ajudantes gerais e fotógrafo.

A ONG se responsabiliza por toda a estrutura necessária para realizar a assistência odontológica. “Levamos por volta de 2 toneladas de equipamento, que é enviado via carreta”, diz Felipe.

O tratamento é completo. São feitos exames para identificar os problemas de cada paciente e determinar quais os procedimentos necessários. “Fazemos tudo: canal, restauração, dentadura”, exemplifica o dentista.

Para ele, este é o diferencial em relação a outros projetos. “É diferente de um projeto social que vai só para entregar escova de dente ou fazer orientação de higiene. Não que isso seja ruim, é necessário, mas a gente quer levar atendimento de ponta para essas pessoas”, afirma.

Os pacientes que estão com dor e precisam de dentaduras são prioridade. “Recebemos todo mundo, não temos vínculo com nenhum governo ou igreja”, ressalta.

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As atividades acontecem em locais cedidos pelos parceiros da organização ou pela prefeitura do município. O mais comum é que ocorram em escolas públicas, mas a ONG se adapta aos ambientes disponíveis. “No Xingu a gente fez atendimento numa oca. A última ação foi feita em um teatro”, conta Felipe.

A ONG se faz presente onde a assistência odontológica está ausente. Projetos parceiros identificam a necessidade de ajuda e, muitas vezes, é feita uma pesquisa com a secretaria de saúde do município.

Cada ação no Brasil dura cinco dias, ao custo médio de R$ 20 mil. Felipe diz que nesse intervalo, a equipe consegue realizar cerca de 1.500 procedimentos odontológicos.

O patrocínio vem de duas empresas que pertencem a amigos pessoais de Felipe e, mais recentemente, da Colgate. Pessoas físicas podem doar por meio do “Sorriso Solidário”, no qual é possível escolher uma quantia mensal que varia de R$ 10 a R$ 200 ou fazer um depósito bancário de qualquer valor.

Além disso, são realizados eventos para arrecadar recursos. “Mas a verba ainda é muito aquém do que a gente precisa para fechar a conta no final do mês”, diz o presidente da organização.

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Operação Sorriso

Ana Clara, uma das crianças atendidas pela Operação Sorriso

Ana Clara, uma das crianças atendidas pela Operação Sorriso

Reproodução/ Operação Sorriso

No Brasil, uma a cada 650 crianças que nascem vivas têm algum tipo de fissura no lábio ou no céu da boca, segundo informações do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais (HRAC/Centrinho) da USP (Universidade de São Paulo).

Foi para ajudar essas pessoas que nasceu a Operação Sorriso, uma ONG que reúne médicos de 60 países e atua no país desde 1997. Desde então já foram realizadas mais de 5.000 cirurgias em 12 estados brasileiros de forma gratuita.

“Nós vamos para locais onde não haja atendimento. Nas regiões Norte e Nordeste, a carência de hospitais e centros que realizam a cirurgia para correção de lábio leporino e fenda palatina [no céu da boca] é maior”, afirma Charles Rosenburst, diretor-executivo da organização.

Em 2019, foram realizadas missões cirúrgicas em Porto Velho (RO), Santarém (PA) e Mossoró (RN). A ONG conta com uma rede de parceiros locais, inclusive hospitais que cedem seus centros cirúrgicos para a realização das operações.

O apoio financeiro vem de empresas e cidadãos, que encontram no site da instituição diversas opções para ajudar. Cada missão custa cerca de R$ 600 mil, de acordo com Charles.

Pessoas de qualquer idade são operadas durante as missões, mas a prioridade é para crianças a partir dos seis meses, idade a partir da qual a cirurgia para correção da abertura no lábio já pode ser feita.

O atendimento segue padrões estabelecidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Para realizar a cirurgia, a pessoa precisa estar em boas condição de saúde, que é avaliada pela equipe de triagem.

Após a operação, a pessoa ainda passar por três consultas com os profissionais da organização – no intervalos de uma semana, seis meses e um ano após o procedimento.

Nos casos em que a pessoa tem fendas no lábio e no céu da boca, a prioridade é a restauração labial.

“Acreditamos que ao operar o lábio estamos dando o mínimo de segurança para a pessoa, porque a região fica muito aparente”, afirma Ana Leme, coordenadora de comunicação da ONG. Ela acrescenta que o paciente continua em acompanhamento para passar por todas as cirurgias necessárias, até uma restauração completa.

O dentista Carlos Freitas Bezerra de Menezes é voluntário na Operação Sorriso desde 2006. Ele destaca a importância do trabalho realizado pela instituição:

“Nosso rosto e sorriso é a porta de entrada para conseguir interagir com outras pessoas. Então, se você tem algo que é considerado um defeito na região da face, as pessoas dão muita importância”, pondera.

O profissional acrescenta que as próprias crianças se percebem como diferentes e criam barreiras para evitar outras pessoas. “Tem famílias que querem proteger os filhos do preconceito e os deixam reclusos dentro de casa”, acrescenta.

Em sua tese de mestrado, Bezerra estudou as alterações dentárias em indivíduos com fissura labial ou palatina com base em pacientes do Hospital Menino Jesus, em São Paulo.

Ele identificou que mais de 85% dos pacientes fissurados apresentam pelo menos um tipo de alteração dentária. A mais comum foi a falta de alguns dentes específicos. “Isso prejudica a mastigação, a deglutição e até mesmo a fala”, explica.

O dentista diz que crianças com fissuras devem fazer acompanhamento médico desde cedo com dentistas e fonoaudiólogos.