Pacote do governo pode elitizar ainda mais a carreira de médico, afirma especialista

Programa Mais Médicos provoca revolta em médicos e estudantes

Programa pode tornar mais difícil a formação dos médicos

Programa pode tornar mais difícil a formação dos médicos

Luciano Freire/Futura Press/EstadãoConteúdo

As mudanças trazidas no programa Mais Médicos, anunciadas nesta segunda-feira (7), podem tornar a medicina em uma carreira para poucos. Os longos períodos de estudo para admissão na faculdade, o alongamento do período do curso e a obrigatoriedade da prestação de serviço no SUS podem afastar os jovens da profissão.

A partir de 2015, a duração do curso de medicina deve passar de seis para oito anos e os recém-formados serão obrigados a trabalhar por dois anos no SUS (Sistema Único de Saúde). Adicionando o período de especialização, a formação de um médico pode atingir 12 anos.

Professor da unidade de Endocrinologia Pediátrica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), Durval Damiani concorda que a mudança pode elitizar a carreira e ainda ressalta a dificuldade para entrar no curso.

— Em média, um aluno fica quatro anos tentado o vestibular para entrar no curso de medicina, depois são mais oito anos dentro do curso — agora, os dois últimos anos sendo jogados fora — depois a residência, com que idade ele vai se formar? Não há motivação nenhuma!

Conselho Federal de Medicina diz que programa é uma “enganação”

Ministro pede que debate com médicos ocorra com respeito

Diferente da residência, período em que o médico se especializa em uma área, os anos de trabalho obrigatório no SUS devem dar uma formação mais generalista aos profissionais. O trabalho será remunerado, mas o valor ainda não foi definido pelo governo. Há a possibilidade de que a bolsa fique entre o valor pago para residência (R$ 2.976,26) e a bolsa do Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab) que pretende atrair médicos para regiões carentes do País (R$ 8 mil).

Professor do Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Cornelis Van Stralen é a favor dos dois anos de experiência no Sistema Único de Saúde para melhorar a formação dos recém-formados e comenta que a importação de estrangeiros pode ajudar as regiões mais necessitadas do Brasil:

— As associações médicas são contra a vinda dos médicos estrangeiros até por uma questão de reserva de mercado. Existe um problema real com 10% de municípios sem médicos. Não vejo problemas em trazer médicos de outros países. Dizer que o médico não pode fazer nada nesses lugares é invenção. Lógico que, para funcionar bem, infraestrutura ajuda bastante. É frustrante para o médico constatar que o paciente precisa de mais do que ele pode oferecer, mas um profissional nessas regiões afastadas, mesmo sem a infraestrutura ideal, já é capaz de fazer algo.

Especialista em política, planejamento e gestão em saúde, Van Stralen afirma que mais médicos, entretanto, não vão resolver os problemas do SUS.

— O SUS sofre com falta de recursos humanos e infraestrutura. Uma pessoa que fica do lado de fora de um posto de saúde esperando atendimento, em pé, na chuva, é a prova de que a deficiência não é só de equipamentos, mas também de postos de saúde. O sistema público de saúde precisa ser acolhedor e humanitário.

Perfil da carreira

Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Educação Médica, em 2011, aponta o perfil socioeconômico dos estudantes de medicina do Brasil: grande parte dos futuros médicos é solteira (83%), está entre 23 e 25 anos (65%), mora com a família (71%) em imóvel próprio (69%).

A pesquisa obteve respostas de 1.004 estudantes, sendo 159 de escolas privadas e 845 de instituições públicas. Os estudantes analisados pertenciam a 13 cursos da área médica em seis estados do País, em cinco diferentes regiões.

Leia mais notícias de Saúde

Além disso, o estudo ainda revelou que apenas 17% dos estudantes pesquisados exerce alguma atividade profissional, contra 83% de estudantes dedicados unicamente ao curso.

“Tem que querer muito”

No último ano, a relação candidato/vaga no vestibular do curso de medicina da USP foi de 56,43 candidatos para cada uma das 275 vagas. Já na Unesp (Universidade Estadual Paulista), por exemplo, a relação foi de 185,3 candidatos por vaga. Se a concorrência em universidades públicas é grande, o preço das universidades privadas é mais um desafio aos estudantes que sonham com a profissão. A mensalidade da faculdade custa no Brasil entre R$ 2.325 e R$ 6.836.

A estudante Bruna Belarmino, de 20 anos, faz cursinho há três anos e afirma que a nova MP desanima os candidatos a futuros médicos.

— Já demora muito para conseguir entrar, depois ainda precisa fazer residência. Desanima um pouco. Quem quer fazer medicina tem que querer muito. Já vi muita gente desistir no começo. O curso é muito caro, mesmo nas universidades privadas há poucas vagas e é difícil de entrar, não basta ter dinheiro.

Brasileiros buscam curso de medicina na Rússia

Atualmente, Bruna conta que não trabalha e dedica todo seu tempo ao estudo.

— Realmente é a carreira que eu quero. Quero cuidar das pessoas, trabalhar com medicina. Conheço muita gente que não podia pagar um cursinho, como há poucas vagas e o governo não ajuda, vai juntando tudo isso e as pessoas acabam desistindo. Não tem como trabalhar, para passar você precisa estudar o dia todo.

* Colaborou Jéssica Rodrigues, estagiária do R7