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Saúde Pandemia pode ser oportunidade para parar de fumar, diz médico

Pandemia pode ser oportunidade para parar de fumar, diz médico

Neste sábado (29), Dia Nacional de Combate ao Fumo, oncologista explica como cigarro eleva a chance de covid grave; mindfulness ajuda a largar o vício

  • Saúde | Aline Chalet, do R7*

Tabagismo é fator de risco para diversas doenças, incluindo covid-19

Tabagismo é fator de risco para diversas doenças, incluindo covid-19

Pixabay

Neste sábado (29) é comemorado o Dia Nacional de Combate ao Fumo, que tem o objetivo de conscientizar sobre os danos causados pelo cigarro. O oncologista Luís Henrique de Carvalho afirma que diante dessa pandemia o combate ao tabagismo é ainda mais importante.

“O tabagista tem todo o trato respiratório acometido, além de uma inflamação crônica no organismo. É um paciente mais frágil para infecções, ainda mais a covid-19 que tem uma atuação importante no sistema respiratório e causa um quadro inflamatório generalizado que ainda não conhecemos muito bem o mecanismo.”

As chances de agravamento da covid-19 são 14 vezes maiores para pessoas com histórico de tabagismo, mostrou uma pesquisa chinesa divulgada no Brasil pelo Inca (Instituto Nacional de Câncer).

Segundo Carvalho, o baixo nível de oxigênio no sangue e a exposição a outras toxinas do tabaco levam à disfunção da camada que reveste o interior dos vasos sanguíneos e linfáticos, o que pode levar a um processo inflamatório generalizado.

“A nicotina e todas as substâncias que estão presentes no cigarro causam muitas interações moleculares que prejudicam o sistema respiratório.”

Além disso, fumar aumenta o risco para doenças cardíacas, pulmonares, vasculares e diversos tipos de câncer, como a leucemia, câncer de bexiga, de pâncreas, de pulmão, laringe, esôfago, entre outros. Condições também consideradas fatores de risco para a covid-19.

O médico explica que a interação da nicotina e outras substâncias modificam o processo celular do corpo e pode desencadear o surgimento de tumores.

“Os órgãos como laringe, esôfago e o próprio pulmão são expostos diretamente à fumaça, é um processo direto. Além disso, parte dessas substâncias pode se acumular na parede gástrica. Agora, o câncer de bexiga, parte do que circula no sangue é processado via rins e excretado pela urina, então também existe essa exposição.”

Carvalho afirma que pesquisas mostram que o risco de pessoas fumantes desenvolverem câncer é 30% maior que as que não fumam. “O que vemos no dia a dia é um número ainda maior que este. O tabagismo é responsável por até 90% da mortalidade dos pacientes com câncer de pulmão, ou seja, é uma taxa extremamente alta.”

Como parar de fumar?

“O cigarro é feito para que a pessoa não consiga parar de fumar e crie dependência química. É extremamente prejudicial”, afirma o oncologista.
Segundo ele, o processo bioquímico que acontece no cérebro no ato de fumar é muito intenso e gera um alívio da ansiedade.

O médico Marcelo Demarzo, especializado em mindfulness explica que “o cérebro possui um sistema de aprendizado baseado em recompensa, ou seja, fazer algo que faça nos sentirmos bem acaba reforçando o comportamento, estimulando para que façamos a mesma coisa mais vezes.”

Ao fumar, a nicotina é fornecida ao cérebro, que se liga em receptores e desencadeiam uma onda de dopamina, um neurotransmissor que provoca bem-estar imediato.

O tratamento é feito com uma equipe multidisciplinar, mas depende muito da iniciativa do paciente. “O paciente precisa de muita persistência, buscar o entendimento que pode ser algo difícil e prolongado”, afirma Carvalho.

O primeiro passo é buscar ajuda profissional. O oncologista informa que, para as pessoas que não puderem buscar clínicas particulares, os CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) possuem grupos e procedimentos muito eficazes.

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“A gente sabe de algumas pessoas que param sozinhas, dependendo do grau, mas quem fuma com mais frequência é recomendado que ela tenha um apoio nesse momento”, afirma Demarzo.

Segundo ele, uma das estratégias que podem ser utilizadas com bons resultados é a prática de mindfulness ou atenção plena. “Ela é usada na fase de manutenção normalmente, que é o momento em que existe grande risco de recaída. Algumas pesquisas indicam que o mindfulness diminui até 70% a chance de recaída.”

A prática consiste em um treinamento de atenção, em que a pessoa procura ficar mais presente nas atividades do dia a dia, isso diminui o estresse e ajuda a tomar decisões mais conscientes.

“Muitas vezes o que acontece é que a pessoa já está há dois meses sem fumar e aí fuma uma vez em uma festa, por exemplo, isso gera culpa e uma autocrítica muito grande, que faz com que ela se sinta mal e aí volte a fumar. O mindfulness faz você ter uma noção de autocuidado e autocompaixão maior, evitando isso.”

O médico acrescenta que o treinamento amplia a percepção dos efeitos imediatos do cigarro, fazendo com que a pessoa preste mais atenção ao ato de fumar e perceba, por exemplo, a sensação de queimação enquanto inala a fumaça, ou se atente ao gosto e ao cheiro desagradável.

A quarentena, por aumentar o estresse e ansiedade, pode piorar o tratamento de tabagismo nesse momento, afirma Carvalho. Segundo Demarzo, o mindfulness também pode ajudar nesse processo.

“A gente sabe que é importante que tenhamos ferramentas para lidar com o estresse desse período e o mindfulness é uma delas. Muita gente que já conhecia voltou a praticar. Além disso, as pessoas estão revendo seus hábitos e seus valores, muita gente pode fazer essa escolha. Se for uma escolha consciente e não forçada e ela estiver com a motivação, então pode ser o momento sim.”

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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