Coronavírus

Saúde Para pesquisadores, não dá para saber destino de doses vencidas 

Para pesquisadores, não dá para saber destino de doses vencidas 

Membros do Observatório Covid-19 BR afirmam que problema é debilidade na base de dados; há possibilidade de erro de digitação

  • Saúde | Do R7

Os lotes supostamente vencidos seriam das vacinas AstraZeneca vindas da Índia

Os lotes supostamente vencidos seriam das vacinas AstraZeneca vindas da Índia

REUTERS/Yves Herman-18/03/2021

A estrutura de dados no país não permite verificar se vacinas vencidas foram aplicadas, segundo um relatório divulgado no sábado (3) pelo Observatório Covid-19 BR, iniciativa independente formada por 85 pesquisadores associados a 25 instituições, com o objetivo de disseminar informações sobre a pandemia apoiadas em metodologias científicas. 

"A atual estrutura de dados e forma de disponibilização não permitem sequer verificar qual é e se foram aplicadas doses de vacina dentro dos limites de validade, isso não exclui o trabalho feito em todos os níveis do sistema de Saúde, para se evitar erros, e problemas na aplicação", apontam os pesquisadores. 

Cerca 26 mil doses de vacinas contra covid-19 da AstraZeneca podem ter sido aplicadas em 1.532 municípios após o vencimento do prazo de validade, conforme uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, publicada na sexta-feira (2), feita com base em cruzamento de dados disponibilizados em duas bases de informações diferentes do Ministério da Saúde.

"O que os jornalistas identificaram foram inconsistências, infelizmente corriqueiras, que podem estar associadas a eventuais falhas vacinais por aplicação de doses vencidas, mas que muito provavelmente se devem apenas a incongruências entre bancos, problemas de digitação, exportação e inserção de dados, bem como de disponibilização das informações", afirmam os pesquisadores, no relatório.

Eles explicam que, assim como a reportagem da Folha de S.Paulo, eles checaram as informações a partir de uma amostragem na base de dados. Segundo essa análise, os dados encontrados sugerem erros de digitação, e não vacinas vencidas. "Em toda a amostra analisada, o que foi encontrado sugere fortemente que se tratam de erros de digitação nas bases de dados ou erros a partir da alimentação dos dados no sistema nacional (SI-PNI) a partir de sistemas próprios dos estados e município", descrevem. 

O relatório dispobiliza um gráfico no qual é possível verificar aplicações registradas após o vencimento das vacinas. "A falta de continuidade das aplicações nos municípios é um indício forte de problema de preenchimento", afirma o documento. 

Eles ressaltam que a debilidade dessas bases já são conhecidas por pesquisadores e têm sido destacadas pela mídia. "É importante lembrar que o processo de registro de cada dose aplicada passa por uma série de etapas, por exemplo: anotação manual dos dados do indivíduo, da dose aplicada, e data de aplicação em ficha de papel no local de aplicação; digitação dos dados em sistema informatizado local e, finalmente, transferência dos dados inseridos nos sistemas locais para o sistema nacional".

Os pesquisadores explicam que essa dinâmica varia entre os estados e municípios, e até mesmo entre locais de vacinação dentro de um mesmo município. Cada uma dessas etapas está sujeita a erros, que vão desde anotação equivocada na ficha de papel até erros no processo de migração dos dados entre sistemas, "como ilustrado ainda no dia 2 de julho com dados de Maringá, extraídos do dado público do SI-PNI", apontam. Maringá, no Paraná, foi a cidade com o maior número de aplicações de doses vencidas, 3.536 pessoas, segundo a reportagem da Folha de S.Paulo.

"O dado é exatamente o mesmo, porém: não se trata de terem encontrado aproximadamente 26 mil doses aplicadas fora do prazo de validade, mas sim 26 mil inconsistências nos campos associados, que merecem investigação para o acompanhamento adequado e, se necessário, convocar os indivíduos vacinados, caso seja constatado que de fato tenha ocorrido vacinação fora do prazo", conclui o relatório.

Os pesquisadores chamam a atenção sobre o possível impacto da reportagem da Folha de S.Paulo sobre a população, esclarecendo que as 26 mil doses que teriam sido aplicadas após o vencimento, segundo a matéria, correspondem a apenas a 0,7% do total de 3,9 milhões de vacinas já aplicadas da AstraZeneca no país.

"Esse número frente ao total de doses de todas as vacinas aplicadas no país é ainda menor, 0,0026%, segundo nota conjunta Conass [Conselho Nacional de Secretários de Saúde] e Conasems [Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde]. Trata-se de um valor compatível para erros de digitação e outras inconsistências em banco de dados, em linha com o que já foi encontrado em pesquisas sobre frequências de erro em bases de dados em saúde. A matéria, porém, sequer se vale de tal possibilidade explanatória das inconsistências", afirmam.

De acordo com os pesquisadores, a aplicação de vacinas pelo SUS (Sistema Único de Saúde) é submetida a tripla checagem para datas de validade. "Apesar de todo o subfinanciamento e tentativas de desmonte, o SUS segue como referência mundial para campanhas de vacinação", frisam no relatório.

"Isso não significa que não possa ter havido vacina aplicada fora da data de vencimento, mas urge cautela antes de se declarar a origem dos problemas enfaticamente, em especial com tal potencial de repercussão e impacto sob a vacinação", finalizam.

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