Peru: nos hospitais, angústia e desespero para famílias 

Sem poder fazer visitas, nem se comunicar diretamente com os pacientes, familiares ficam no aguardo de relatórios médicos

O Peru é o segundo país da América Latina com mais casos confirmados de covid-19

O Peru é o segundo país da América Latina com mais casos confirmados de covid-19

Juan Ponce Valenzuela/ EFE - 22.05.2020

O Peru, segundo país da América Latina com mais casos confirmados de infecção pelo novo coronavírus, tem tido dias de angústia e desespero na porta dos hospitais, onde familiares dos doentes aguardam as notícias de parentes, enquanto assistem a circulação de ambulâncias e carros funerários.

Sem poder fazer visitas, nem se comunicar diretamente com os pacientes na maioria dos casos, as pessoas ficam a espera para receber um relatório médico, o que se torna angustiante e insuficiente para acabar com as incertezas sobre o reencontro com as pessoas próximas.

É o que acontece diariamente no Hospital de Emergência Ate-Vitarte, na periferia de Lima. É um centro moderno, recentemente inaugurado, que o governo designou como o principal hospital para casos graves de covid-19 na capital.

Sob isolamento absoluto, bombeiros, enfermeiras e até crianças lutam para vencer a doença. No local, existem pelo menos 50 leitos de UTIs (unidades de terapia intensiva), reservados como último recurso para os casos mais graves, cujas chances de recuperação são, ás vezes, mínimas.

Os parentes se reúnem todos os dias em frente ao arco vermelho da porta da frente da unidade de saúde para tentar ter alguma novidade, embora vários cartazes indiquem que as informações são fornecidas apenas por telefone.

"Agora, eles ligam pelo menos uma vez por dia, mas antes ligavam a cada dois ou três dias", disse Wendy Echenique.

A entrevistada pela Agência Efe espera na porta do hospital com uma sacola de produtos de higiene pessoal, que os médicos pediram para sua cunhada, que está conectada a um ventilador em terapia intensiva há um mês.

"É terrível ficar tanto tempo sem saber nada sobre alguém da sua família, sem saber se ele ainda está vivo ou morto. É triste", disse Echenique.

Como muitas outras pessoas, ela escreveu na bolsa o nome, a idade e o número de cadastro no hospital, para garantir que os produtos cheguem ao destino correto, em meio a escassez dentro do hospital.

Informações incompletas

"O diagnóstico é de pneumonia grave. Eles não dizem mais nada, apenas esperam que seu corpo reaja", acrescentou a cunhada da paciente, cujo irmão morreu há alguns dias no mesmo hospital.

O marido de Miriam Leguía, por sua vez, está em observação e mantém contato graças a um telefone que ela enviou, algo excepcional entre os pacientes. Foi assim que ela descobriu que o marido é diabético, um fator de risco para a covid-19.

"Na segunda-feira, eles me disseram que ele ainda estava em triagem e não me deram mais informações. Desde aquele dia estão aplicando insulina, e sei porque ele me disse, não foi o médico que avisou", disse a entrevista.

Santiago Valdez, um jovem médico também espera, carregando uma caixa para um colega que está em terapia intensiva depois de ser infectado em Iquitos, capital da região amazônica de Loreto, que apresenta um dos cenários mais devastadores da pandemia no país.

"Sei que você está recebendo todos os medicamentos de que precisa. Em algum momento, quis trazer fraldas e outras coisas necessárias em terapia intensiva, mas fui informado de que o diretor e outras pessoas do hospital se organizaram para poder fornecer a todos os pacientes os itens necessários", contou.

Como médico, Valdez disse entender as preocupações dos familiares, mas acha difícil aceitar a insistência de alguns em entrar no hospital. "Você nem deveria pensar isso. O risco de contágio é muito alto", lembrou.

Dor, sofrimento e tragédia

A equipe da Agência Efe acompanhou a chegada de um carro de polícia à unidade de saúde, como se fosse uma ambulância improvisada, deixando um homem quase inerte, que os familiares mal conseguem carregar em uma cadeira de rodas. Minutos depois, ele teve a morte declarada.

Nancy Rincón, que observa um caminhão sair com tanques de oxigênio e um carro fúnebre recolher o corpo, dá ao segurança do hospital uma Bíblia e um telefone celular. Eles pertenciam à mãe dela, que morreu dois dias antes.

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Com os olhos vidrados, a entrevistada contou que a notificaram da morte da mãe 18 horas depois do óbito. Ela morreu às 19h05 de 19 de maio, mas a ligação para informar à família só foi feita no início da tarde do dia seguinte.

A jornalista Milagros Salazar, algumas semanas atrás, perdeu o pai no mesmo hospital, sem ter tido a oportunidade de se despedir ou, pelo menos, de assistir a cremação do corpo.

Lima concentra dois terços dos mais de 108 mil casos registrados no Peru, e um terço das mais de 3 mil mortes confirmadas até agora por covid-19. Além disso, a rede pública de saúde já dá sinais de saturação, segundo as informações do governo local.