Por que pode ser arriscado passar fluidos vaginais em bebês nascidos em cesáreas

Bebês nascidos de cesáreas têm mais risco de ter doenças imunológicas

Artigo científico afirma que ainda não há provas de que a técnica seja benéfica para os bebês
Artigo científico afirma que ainda não há provas de que a técnica seja benéfica para os bebês BBC BRASIL

As mães não deveriam abraçar a nova moda de cobrir com flora vaginal os corpos dos bebês nascidos em cesáreas, advertem especialistas.

A técnica expõe as crianças a bactérias que poderiam ter coberto seus corpos caso tivessem nascido por parto normal.
A ideia é que as bactérias que se encontram na flora vaginal da mãe treinariam o sistema imunológico dos bebês e reduziriam os riscos de eles desenvolverem asma e alergias.

Estudos apontam que bebês nascidos de cesáreas têm um risco maior de desenvolver doenças relacionadas ao sistema imunológico. Mas pesquisadores da Dinamarca e do Reino Unido garantem que há pouca evidência de que seja eficaz expô-los às bactérias vaginais após o nascimento - e alertam que isso pode ser mais prejudicial que benéfico.

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Risco de infecção

A técnica é conhecida por "seeding", em inglês - semeadura, em português. Consiste de deixar um algodão ou gaze absorvendo os fluidos da vagina e depois esfregá-lo na pele, no rosto e nos olhos do recém-nascido.

Uma prova de que a prática está virando tendência está no informe publicado pela revista de obstetrícia e ginecologia BJOG em 22 de agosto, afirmando que mais de 90% dos obstetras dinamarqueses já foram questionados por seus pacientes sobre esse método.

Esse mesmo artigo diz que não há provas de que a técnica beneficie o recém-nascido, assinalando que há apenas um único estudo sobre esse método, realizado com somente quatro bebês.

E alerta para claros riscos para o bebê, incluindo infecções por bactérias estreptococos do grupo B, E. coli e uma série de doenças sexualmente transmissíveis.

"Sabemos que está aumentando o número de mulheres que procuram seus médicos para saber sobre a semeadura com bactérias vaginais", afirmou a pesquisadora Tine Clausen, autora do artigo e membro do Hospital de Nordsjaellands, da Dinamarca.

"Eu compreendo, é fascinante pensar que seja possível imitar a natureza com essa técnica, mas ela está baseada em teorias que não têm provas que a sustentem", disse à BBC.

A recomendação dos médicos é não usar a técnica até que sejam feitas mais pesquisas sobre o assunto
A recomendação dos médicos é não usar a técnica até que sejam feitas mais pesquisas sobre o assunto Getty Images

Clausen assinalou que provavelmente o algodão não vai conter as mesmas bactérias que seriam transferidas no parto normal, pois estas estariam diluídas em sangue, líquido amniótico e no próprio fluido produzido durante o trabalho de parto.

Seu conselho para as mulheres é "evitar as cesáreas desnecessárias, tentar amamentar o bebê ao menos até os seis meses e iniciar o contato pele-a-pele o quanto antes".

Cada uma dessas práticas traz benefícios para o microbioma do bebê, sem riscos.

Cesáreas desnecessárias

Na América Latina, as cesárias são muito numerosas. No Brasil, México e Argentina mais da metade dos partos são cesáreas. A recomendação da Organização Mundial de Saúde é de um percentual entre 10% e 15% apenas.

O médico Patrick O'Brien, do Colégio Real de Obstetras e Ginecologistas do Reino Unido, afirmou que "não há uma prova forte de que a semeadura vaginal traga algum benefício".

"Nós não recomendamos essa técnica até que pesquisas mais detalhadas mostrem que ela não é perigosa e que pode de fato melhorar o sistema imunológico da criança."

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