Presença do coronavírus não gera internação obrigatória em hospital

Médicos afirmam que não se pode colocar em unidades hospitalares pessoas que apresentam apenas quadro gripal leve

São Paulo apresentou primeiro caso confirmado do Covid-19 no Brasil

São Paulo apresentou primeiro caso confirmado do Covid-19 no Brasil

FÁBIO VIEIRA/FOTORUA/ESTADÃO CONTEÚDO

O coordenador do centro de contingência criado em São Paulo para monitorar o coronavírus, o infectologista David Uip, descartou a possibilidade de internar pacientes com covid-19 (doença causada pelo novo coronavírus SARS-CoV2). 

"Hospital é para doente grave", afirmou em entrevista nesta sexta-feira (28). Ele e outros representantes do governo respondiam a questões sobre o primeiro caso da doença no país, de um homem de 61 anos que retornou da Itália e testou positivo para SARS-CoV2

O paciente está em isolamento domiciliar, já que não apresenta sintomas graves, como falta de ar, por exemplo. 

"Paciente com poucos sintomas, tem que ficar em casa, não tem que procurar serviço de saúde. Tossiu, espirrou, teve febrinha, fica em casa. Quando ele deve procurar o serviço de saúde? Quando ele tiver um desconforto maior, a febre voltou, se prolongou mais de 48 horas, ele deve procurar porque talvez tenha um processo bacteriano", disse Uip.

O secretário estadual da Saúde de São Paulo, José Henrique Germann, reafirmou que a opção de internar leva em conta outros fatores. 

"O que coloca a pessoa em um tratamento intra-hospitalar ou num atendimento intra-hospitalar não é a presença do vírus, é a condição clínica que ele está passando naquele momento".

Isto não significa que não se deve buscar atendimento. Segundo Germann, "se a pessoa tiver necessidade, ele deve procurar o serviço de saúde e, se for o caso, ela vai ser internada. Agora, mantê-lo internado, porque ele não tem onde ficar é uma questão social, não é uma questão de saúde. Então, não vamos seguir esta política".

Helena Sato, diretora do Centro de Vigilância Epidemiológica da secretaria reforçou que a internação de pessoas infectadas pelo coronavírus deve ocorrer apenas para aqueles que apresentarem complicações:

"Os outros comunicantes serão acompanhados em seus domicílios, por telefone. Dependendo do município, se for menor e o número de casos for menor, a equipe do município vai ao seu domicílio e vai avaliar diariamente por 14 dias cada um destes comunicantes".

David Uip ressaltou que pessoas que podem apresentar complicações devem ser monitoradas de perto. 

"Atenção especial para os grupos mais vulneráveis, as pessoas com mais de 60 anos, especialmente com mais de 80 anos, e aqueles pacientes com comorbidades: cardíaco crônico, pulmonar, nefropata, diabético e paciente em tratamento oncológico. Estes precisam ser mais cuidadosos e buscar o serviço de saúde se entenderem que há o agravamento dessa infecção inicial."

Assim como o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, fez ontem, Uip também criticou a postura da China, de internar pessoas com quadros leves da doença. 

"Esta hierarquização de atendimento é absolutamente fundamental. A China fez um hospital. Todos ficaram maravilhados. Internalizaram os doentes e o sistema de saúde ruiu."

Na quinta-feira (28), Mandetta apontou como falha a iniciativa chinesa, de isolar todos os pacientes com diferentes graus da doença em hospitais. 

"A China iniciou dessa maneira [internando todos], teve que fazer aquele hospital, que alguns acharam que aquilo era uma demonstração de muita potência. Aquilo foi uma demonstração de uma medida equivocada, que levou a um colapso do sistema hospitalar, porque você não coloca pessoas com síndromes respiratórias leves dentro de hospital. Eu fico imaginando as outras pessoas, com as outras doenças, que precisam do leito hospitalar."

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