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Saúde Qual seria o impacto da gripe espanhola hoje? Médicos explicam

Qual seria o impacto da gripe espanhola hoje? Médicos explicam

Contato entre os soldados na Primeira Guerra foi uma das causas de disseminação da pandemia, que causou muito mais mortes do que a covid-19

  • Saúde | Eugenio Goussinsky, do R7

Gripe espanhola contagiou milhões em 1918

Gripe espanhola contagiou milhões em 1918

Reuters

Comparar diferentes doenças em épocas distintas tem uma serventia. Evidencia, de um lado, a evolução humana e, de outro, o quanto ainda falta para o ser humano evoluir. Isso significa dizer que a gripe espanhola e a covid-19 podem ter o mesmo potencial destruidor, mas algumas situações mudaram. E outras ainda não.

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Medicina tinha poucos recursos na época

Medicina tinha poucos recursos na época

Reuters

"As duas doenças são causadas por vírus diferentes. A covid-19 é causada pelo vírus da família coronavírus, que provoca quadros leves respiratórios até quadros graves de insuficiência respiratória. A gripe espanhola é um tipo de vírus Influenza, causador de quadros gripais também leves, moderados ou graves. Em épocas diferentes em que ocorreram, as duas são potencialmente graves", diz Silvia Regina Julian, infectologista da Prefeitura de São Paulo, do ambulatório de HIV e Hepatites Virais.

A gripe espanhola, no entanto, seria muitíssimo menos letal hoje do que foi em 1918. E a covid-19, mesmo diante da ausência de uma vacina, tem similar potencial mortífero, mas tem causado um número menor de mortes (em comparação com a gripe espanhola), devido à evolução de alguns aspectos da Medicina.

Naqueles anos 10 do século passado, os recursos da Medicina eram menores, mal se conhecia a estrutura de um vírus e, além de a destruição e miséria prevalecerem em vários pontos da Europa, a doença se disseminou também por causa do contato entre os soldados no front da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

E aos cerca de 20 milhões de mortos nos combates, possivelmente se somaram posteriormente entre 40 milhões e 50 milhões vítimas da gripe espanhola, número que representava 5% da população mundial da época.

A covid-19, por sua vez, já atingiu cerca de 3,5 milhões de pessoas, das quais em torno de 250 mil, menos de 1%, morreram.

Tratamentos possíveis

O infectologista Renato Kfouri, ex-presidente e atual primeiro-secretário da Sociedade Brasileira de Imunizações, explica por que hoje em dia a gripe espanhola já seria controlada com muito mais facilidade e certamente causaria muito menos danos do que a covid-19 e do que ela mesma em 1918.

"A gripe espanhola foi causada pelo vírus Influenza, contra o qual hoje temos vacina e tratamento. Temos uma droga antiviral específica para o Influenza que é o Oseltamivir (Tamiflu) o Zanamivir e outros mais novos que estão chegando. Então muito provavelmente uma epidemia de Influenza nos dias de hoje, mesmo que seja uma variante nova, como foi a pandemia de H1N1, em meses a gente já disporia de vacinas, produzidas em uma quantidade grande, profiláticas, com efetividade. Neste cenário com vacina e tratamento antiviral, a situação da gripe espanhola certamente seria bem melhor hoje", diz.

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Isso mostra que a covid-19, apesar de seu potencial perigoso, tem causado mortes, mas não no mesmo número da gripe espanhola, mesmo com uma disseminação ainda mais intensa por causa do atual contexto de globalização, no qual as viagens e os intercâmbios populacionais são muito maiores.

"O tratamento naquela época era empírico, pautado em experiência e intuição pessoal dos médicos, poucos recursos, arsenal terapêutico mínimo, baseado por exemplo em chás, compressas quentes e repouso absoluto, não podiam contar com recursos de pesquisa cientifica para auxiliar no tratamento", afirma Silvia.

Para a infectologista, neste sentido, por mais que a Medicina esteja neste momento impotente para impedir a propagação da doença, alguns tratamentos possibilitam a menor ocorrência de óbitos, em relação à gripe espanhola.

"Quanto à covid-19, as possibilidades terapêuticas estão sendo estudadas e trabalhadas, temos propostas de tratamento medicamentoso e de suporte intensivo para os casos mais graves. Os protocolos de pesquisa no campo de tratamento estão sendo desenvolvidos simultaneamente em vários centros, acredito que brevemente teremos respostas mais consistentes na terapêutica e prevenção dessa doença", completa.

Comparações subjetivas

Na época da gripe espanhola, os sistemas de saúde pública estavam apenas no início, havia muita descrença e desconhecimento da população e tudo isso permitia que o número de mortes causadas por consequências da doença fosse grande, conforme explica Kfouri. Ele só diferencia o tipo de enfermidade decorrente.

"Na época de Influenza havia muita complicação por pneumonia bacteriana, uma complicação que não estamos vendo no coronavírus", afirma.

Vale lembrar que a penicilina, antibiótico descoberto em 1928, ainda não existia. Kfouri, no entanto, faz questão de ressaltar que, no geral, é difícil traçar paralelos entre ambas as doenças.

"São realidades completamente diferentes, doenças completamente diferentes, vírus completamente diferentes, épocas completamente diferentes, em termos de vacina, em termos de tratamento com drogas, em termos de deslocamento populacional", diz.

Comparações são mesmo subjetivas. Mas, em um exercício da imaginação, como seria o impacto da covid-19 na época da gripe espanhola? Silvia tem uma convicção. Que é também um retrato do desenvolvimento da Medicina ao longo do tempo. 

"Pela cultura da época, as crenças, as condições sanitárias, a Medicina sem nenhum conhecimento da estrutura do vírus, nenhum conhecimento de biologia molecular, e muito menos de tratamento intensivo, (não existiam respiradores, UTIs, técnicas fisioterápicas), imagino que teria um impacto devastador na população do planeta."

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