Quarentena de cidades seria viável para frear coronavírus no Brasil?

Isolamento de grandes centros urbanos foi adotado na Itália e na China, mas novo vírus continua a se espalhar por todos os continentes

Mulher usa máscara contra o coronavírus em frente à Ponte de Londres, na Inglaterra

Mulher usa máscara contra o coronavírus em frente à Ponte de Londres, na Inglaterra

Henry Nicholls / Reuters - 3.3.2020

Para tentar conter a disseminação do novo coronavírus, a China mantém isoladas mais de 26 milhões de pessoas em ao menos dez cidades da província de Hubei desde o dia 23 de janeiro.

Na última terça (10), entrou em vigor o decreto de quarentena em todo o território da Itália – a medida vale até 3 de abril.

Em pronunciamento, o primeiro-ministro Giuseppe Conte resumiu o decreto com uma frase: “Eu ficarei em casa”.

“Isso significa que as pessoas evitarão circular pelo território do país, a não ser por três circunstâncias específicas: motivos importantes de trabalho, emergências ou questões de saúde”, declarou.

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, tem dito reiteradas vezes que não há qualquer plano de isolar cidades que eventualmente apresentem um aumento considerável do número de casos de coronavírus.

No entanto, nesta quarta-feira (11), ele disse que o cancelamento de alguns eventos públicos que reúnam grande número de pessoas pode ser adotado no futuro. 

O infectologista Ivan França, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que a quarentena é uma medida preventiva adotada para conter alguma doença.

“Você afasta a pessoa que teve contato com doentes durante o período de incubação [tempo decorrido entre a exposição ao vírus e o aparecimento de sintomas]. O número de dias varia por conta disso. No caso do coronavírus, 14 dias seria o período máximo de incubação”.

O especialista diz que existe a possibilidade de o Brasil adotar a quarentena como medida restritiva para frear o coronavírus, mas enfatiza que somente o Ministério da Saúde pode determinar isso.

O Ministério da Saúde publica nesta quinta-feira (12) uma portaria com regras para realizar o isolamento e a quarentena de pessoas infectadas com o novo coronavírus.

Por enquanto, as pessoas que foram diagnosticadas com o vírus ficam em isolamento hospitalar ou domiciliar.

“O isolamento hospitalar serve apenas para casos graves ou quando, na chegada ao pronto-socorro, há sinais de que a doença pode evoluir para um estado grave”, esclarece França.

Ao contrário, o isolamento domiciliar é adotado para quem apresenta um quadro leve de infecção.

“Serve para a pessoa que teve exame positivo, mas está bem, não apresenta risco de piorar a situação. Além disso, não há remédio para tomar em casa, é só repousar e cuidar da alimentação”, destaca.

Segundo França, não dá para dizer se a adoção da quarentena na China e na Itália foi uma medida certa ou errada.

“Mas as pessoas circulam menos na rua, então, teoricamente, a transmissão vai ser menor. É uma medida válida ao menos para retardar a propagação da doença”, observa.

O isolamento da cidade de Wuhan, no entanto, foi apontado em um estudo como apenas um fator de atraso na propagação da epidemia, concluíram pesquisadores da China e dos Estados Unidos. 

A BBC mostrou que um estudo publicado pela revista científica The Lancet concluiu que os efeitos psicológicos negativos do isolamento incluem estresse pós-traumático, confusão e raiva, além de ansiedade.

Nesta quarta-feira, a OMS (Organização Mundial da Saúde) passou a considerar o coronavírus uma pandemia. O termo é usado para descrever uma situação em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas ao redor do mundo simultaneamente.

"A descrição da situação como uma pandemia não altera a avaliação da OMS em relação à ameaça representada por este vírus. Não muda o que a OMS está fazendo, nem o que os países devem fazer”, declarou o diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Ivan França afirma que essa mudança de perspectiva não fará com que as medidas de contenção e isolamento sejam descartadas.

“A OMS declarou a pandemia, mas disse que as medidas de contenção devem continuar. É precoce eu falar o que vai mudar, cada país talvez tome uma direção nesse momento. Em outras pandemias, por exemplo de H1N1, as diretrizes mudavam pouco”, pondera.

Ao redor do mundo, o novo coronavírus (nomeado SARS-CoV2) já foi registrado em 114 países. O número de infectados chega a 118,3 mil, com 4.292 mortes (taxa de letalidade de 3,62%).

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