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Saúde Quarentena não causa demência, mas convívio pode evidenciá-la

Quarentena não causa demência, mas convívio pode evidenciá-la

Estresse provocado pelo isolamento social da pandemia não desencadeia a doença, mas é fator de risco; Alzheimer pode ser confundido com depressão

  • Saúde | Aline Chalet, do R7*

Pessoas mais velhas possuem chance maior de desenvolver quadros demenciais

Pessoas mais velhas possuem chance maior de desenvolver quadros demenciais

Pixabay

A exposição ao estresse é um dos fatores de risco para o desenvolvimento da demência, explica o geriatra Carlos André Uehara, presidente da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia). Segundo ele, a pandemia pode ser um fator estressante que contribuiria para o surgimento de quadros demênciais, porém a maior convivência com idosos nesse período de quarentena pode facilitar o diagnóstico.

“Pode parecer que o que causou a demência foi a pandemia. Um idoso, por exemplo, que não tinha dificuldade em executar as tarefas do dia a dia e vivia sozinho, agora, com os filhos em casa, eles podem começar a perceber pequenos sinais que não percebiam antes por falta de convivência.”

O geriatra explica que a demência engloba um conjunto de doenças caracterizadas por uma síndrome cognitiva e gradativa, ou seja, progride com o passar do tempo.

Segundo ele, a pandemia não pode ser considerada um fator desencadeante da demência de maneira aguda, pois o surgimento da doença depende de uma combinação de fatores genéticos e ambientais como alimentação, estresse, práticas ou não de exercícios e bem-estar.

“De qualquer forma, a demência está entre as doenças mentais e algo que já se sabe é que, após a pandemia, teremos um aumento significativo nos casos de estresse pós-traumáticos, então, pode ser que, a longo prazo, a gente verifique um aumento do número de quadros demenciais também, mas não tem como ter certeza agora.”

O Alzheimer é o tipo mais comum de demência - cerca de 50% dos quadros da doença são Alzheimer. Ela é uma doença caracterizada pela perda de memória, principalmente de fatos recentes. Uehara explica que ela é muito confundida com depressão, que pode ter um aumento nesse período de pandemia.

“O quadro depressivo faz com que a pessoa tenha um certo déficit de atenção, ela capta menos informações, presta menos atenção no mundo por conta do desânimo em relação às coisas. Isso pode ser confundido com uma perda de memória, não é que a pessoa esqueceu o que você acabou de falar, por exemplo, ela nem fixou essa informação.”

Outra questão apontada pelo médico é que quadros de ansiedade, que também estão aumentando durante a pandemia, estão relacionados a infartos e derrames, que podem acarretar demência vascular.

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“Esse tipo decorre de pequenos derrames que vão acontecendo e faz partes do cérebro perderem a função. Os sintomas vão depender muito de qual parte do cérebro foi afetada. Pode ter perda de memória, mudança de comportamento, várias características.”

Segundo o geriatra, caso aconteça um aumento de consumo de bebida alcoólica, também por conta do contexto global, pode haver no futuro um aumento de demência causada pelo alcoolismo.

O médico ressalta que o Brasil é o país mais ansioso do mundo, com 9% da população apresentando o quadro. A depressão também é muito comum, cerca de 5,8% da população possui a doença.

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“O grande problema é a falta de diagnóstico. Existe o preconceito de que o idoso é triste mesmo, é por isso que temos altas taxas de suicídio entre idosos. Além disso, a doença é um pouco diferente nos idosos, eles continuam fazendo as atividades do dia a dia, vão ao mercado, têm seus relacionamentos, diferentemente dos jovens, que ficam mais paralisados.”

A incidência de quadros demenciais aumenta conforme a idade, que é um importante fator de risco para a doença. Entre pessoas acima de 60 anos, aproximadamente 1% possui demência. Já para pessoas acima de 80 esse número aumenta para 30% a 45%.

*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini

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