Novo Coronavírus

Saúde 'Quem critica vacina da China usa tecnologia chinesa', diz pesquisador

'Quem critica vacina da China usa tecnologia chinesa', diz pesquisador

Ricardo Palacios está à frente de pesquisa de imunização contra coronavírus, em parceria entre Instituto Butantan e laboratório chinês Sinovac Biotech

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Sinovac começou pesquisa de vacina contra outro coronavírus em 2004

Sinovac começou pesquisa de vacina contra outro coronavírus em 2004

Xinhua/Zhang Yuwei

A notícia de que o Brasil participaria dos testes finais de uma das vacinas mais avançadas do mundo contra o novo coronavírus, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech, trouxe otimismo, mas também provocou uma série de comentários com dúvidas e até preconceituosos em relação à pesquisa.

"Made in China. Estou fora dessa", escreveu um seguidor da página do R7 no Facebook, ao comentar uma publicação sobre o início dos testes em humanos. "Tem chineses envolvidos, melhor deixar esse povo de lado", acrescentou outro.

As percepções equivocadas levantam ainda teorias da conspiração sobre a rapidez com que a China chegou a um potencial imunizante contra o SARS-CoV-2 (nome oficial do novo coronavírus).

Em entrevista ao R7, o diretor médico de Pesquisas Clínicas do Instituto Butantan, Ricardo Palacios, responsável pela fase 3 das pesquisas com a vacina da Sinovac, aqui no Brasil, afirma que esse tipo de comentário é fruto de falta de conhecimento.

Ele explica, por exemplo, que os chineses já estavam à frente de uma pesquisa contra o coronavírus porque tiveram uma epidemia do que hoje é chamado SARS-CoV-1, em 2002.

"As vacinas que estão saindo mais à frente estão fundamentadas basicamente em tecnologias de outras vacinas para outros coronavírus. Por exemplo, a Sinovac chegou a fazer ensaios clínicos em humanos em 2004, para o SARS-CoV-1. Então, eles já conheciam essa tecnologia há 16 anos", revela.

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Aos que levantam dúvidas sobre os interesses da China em fechar uma parceria com o governo de São Paulo para os testes da vacina, o médico diz que o Brasil é um dos locais promissores para este tipo de pesquisa, já que o vírus está em grande circulação, algo que não ocorre mais em muitos países onde a pandemia já atingiu o pico.

Ele acrescenta que a desconfiança em relação à tecnologia chinesa não tem fundamento.

"As pessoas que falam sobre a desconfiança da tecnologia que procede da China são as mesmas que utilizam um telefone que, seguramente, a maior parte dos componentes foi feita na Chima, que utilizam televisores feitos na China. Uma série de tecnologias, como antenas de celulares, hoje vem da China", diz.

Palacios reforça que é remota a chance de haver uma vacinação em massa contra o coronavírus no Brasil e, por isso, a população precisa entender a necessidade do "novo normal", que nos obrigará a viver momentos de mais afrouxamento e de mais endurecimento das medidas restritivas.

Leia a seguir a íntegra da entrevista:

Palacios (foto) chefia pesquisas clínicas no Butantan

Palacios (foto) chefia pesquisas clínicas no Butantan

Divulgação/Instituto Butantan

O Instituto Butantan deve iniciar no dia 20 a aplicação das doses da vacina experimental nos primeiros dos 9.000 voluntários. Quanto tempo deve durar essa fase do estudo?

Os voluntários são acompanhados por 12 meses, embora a gente acredite que, se as condições epidemiológicas do país se mantiverem mais ou menos dentro da previsões, existe uma chance razoável de que podemos fazer uma certa análise preliminar de dados antes de terminar o ano. Mas isso vai depender muito de condições epidemiológicas. Não dá para colocar isso com absoluta certeza.

Significa dizer que o Brasil tem um cenário mais propício para testes de vacinas do que outros países da Ásia e Europa, por exemplo? O que levou à escolha de SP, RJ, DF, MG, PR e RS como centros para o teste dessa vacina específica?

Para investigar a eficácia da vacina, verificar a proteção, é preciso que as pessoas tenham algum grau de exposição. Se essa exposição for muito alta, a resposta vai ser também mais rápida. Se a exposição for menor, a resposta vai ser mais devagar. Aqui no Brasil, a gente avaliou mais ou menos como estavam as curvas de projeções epidemiológicas.

Encontramos locais onde a epidemia tende a se estabilizar e onde está em curva ascendente. No Norte e Nordeste, já começamos a ver um declínio [de novos casos]. Talvez, não seja o melhor lugar para testar [a vacina].

O comportamento da epidemia de acordo com a região pode servir também como critério na hora de iniciar a imunização em massa das pessoas?

Com certeza. A gente tem visto e aprendido, analisamos muitos dados epidemiológicos sobre a estratégia de vacinação no futuro. Temos feito, de forma paralela, análises que consigam dar um subsídio científico de como seria a melhor forma de implementar uma vacina.

Por que somente profissionais da saúde farão parte dessa fase de estudos, já que idosos estão mais suscetíveis a desenvolver quadros graves de covid-19? Não seria interessante testar a eficácia da vacina neles também?

Já há um estudo de idosos [com a mesma vacina] sendo feito na China. A gente está esperando alguns resultados preliminares em relação a essa população. A partir de informações que existem na China, vemos se podemos dar um passo à frente. A Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] recebe a informação completa [ao final do estudo], apresentamos de forma conjunta.

Desde o anúncio do governador de São Paulo, João Doria, da parceria do Instituto Butantan com a Sinovac para esses testes no Brasil, há muitas pessoas sugerindo diversas teorias conspiratórias em relação à China. Como o senhor avalia esses comentários?

A primeira coisa é que o vírus não conhece ideologias, preferências... Seres humanos têm o receptor [para este vírus], não importa se você acredita ou não. O vírus não é racista, não é xenófobo, ele não diferencia se você é de um país ou de outro.

Se a humanidade tem um problema em comum, que é o vírus, então deveríamos nos juntar para solucionar este problema. Mas tem pessoas que insistem em procurar divisões.

Outra coisa que também me chama muito atenção que as pessoas que falam sobre a desconfiança da tecnologia que procede da China são as mesmas que utilizam um telefone em que, seguramente, a maior parte dos componentes foi feita na China, que utilizam televisores feitos na China. Uma série de tecnologias, como antenas de celulares, hoje, vem da China.

A velocidade com que surgiram vacinas em estágio avançado também é objeto de polêmica. O que explica o fato de já haver possíveis antígenos contra o SARS-CoV-2 menos de um ano após o surgimento dele?

Esse é um ponto muito interessante, porque as vacinas que estão saindo mais à frente estão fundamentadas basicamente em tecnologias de outras vacinas para outros coronavírus. Por exemplo, a Sinovac chegou a fazer ensaios clínicos em humanos em 2004, para o SARS-CoV-1. Então, eles já conheciam essa tecnologia há 16 anos.

E também não houve hesitação em investir dinheiro, em fazer todas as coisas desde o primeiro momento. Vamos fazer tudo ao mesmo tempo, todo mundo trabalhando ao mesmo tempo. Por isso que está indo tão rápido.

Vacina de Oxford também é testada no Brasil

Vacina de Oxford também é testada no Brasil

Amanda Perobelli/Reuters

No caso de Oxford [Reino Unido] ou da Moderna [EUA], por exemplo, eles tinham desenvolvimento de vacina para o coronavírus da Síndrome Respiratória do Oriente Médio, o MERS-CoV [que surgiu em 2012], e eles trocaram. Ficou muito mais fácil.

Eram projetos, em particular, que estavam mais avançados do que os outros. Eles chegaram a fazer testes em seres humanos em 2018.

É mais ou menos o mesmo estágio em que chegou a Sinovac em 2004. A vantagem é que eles se engataram mais rápido, porque tinham tudo mais fresco, por isso Oxford ganhou uma frente.

Butantan poderá produzir vacina em larga escala

Butantan poderá produzir vacina em larga escala

Marcello Zambrana/AGIF/Folhapress

Quando se fala em vacinas em estágio avançado, como estas três que o senhor citou, estamos tratando de quanto tempo até que haja uma vacinação em massa contra a covid-19 no mundo e, consequentemente, no Brasil? Existe alguma perspectiva de que isso ocorra ainda neste ano ou no começo de 2021?

Acho que este ano é um pouco mais difícil de ter uma vacinação em massa. [...] Eu não acredito que alguma vacina tenha dados suficientes para obter uma autorização regulatória este ano. Talvez, com um pouco de sorte, nas últimas semanas do ano a gente consiga algo. É mais razoável que pensemos nisto para o começo do próximo ano.

Natal em família, viagem de fim de ano... são eventos que vão ter que ser adaptados ou até cancelados?

Essa questão que se tem falado sobre o novo normal tem a ver um pouco com isso, que ainda não vamos conseguir normalizar as coisas, como também não vamos sair iguais. As pessoas vão ter que aprender a lidar com essas circunstâncias.

Vai ter momentos em que vamos soltar, vamos ter que apertar, vamos ter que ir neste trabalho. Muito difícil predizer como isso vai funcionar ao longo dos meses vendo um país como o Brasil. Há uma diferença regional importantíssima que pode trazer também consequências — o que pode valer para um estado pode não valer para outro.

Neste meio tempo, a população tem que ficar ciente de que ainda não há uma normalização, que temos que nos cuidar tanto individualmente como coletivamente para poder nos dar a esperança de poder receber essa vacina no futuro. Queremos dar uma voz de ânimo, de que estamos trabalhando duro para ter uma resposta no futuro, esperamos em breve dar essa resposta para vocês.

O Instituto Butantan está investindo na adaptação de uma fábrica com capacidade para produção de 100 milhões de doses por ano da vacina que será testada. Além de apostar no sucesso dessa vacina, isso é um sinal de que teremos o vírus sazonalmente?

A forma como o Butantan está encarando essa projeção... Uma fábrica que seja multipropósito, para que a gente possa trabalhar nessa mesma fábrica diferentes vírus, não somente o SARS-CoV-2, ou até mesmo o SARS-CoV-2 com diferentes tecnologias de produção, caso seja encontrada uma mais eficiente do que temos hoje disponível. É um investimento que tem um risco mais limitado porque tem muitas vacinas que poderiam se trabalhar em uma fábrica como essas.

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