Quem são os profissionais que não podem parar a rotina na pandemia

Sepultadores, coletores de lixo, gasistas e operadores de pedágio seguem suas atividades em uma mistura de preocupação, medo e muito trabalho

Coronavírus muda a rotina de profissionais que não podem parar

Coronavírus muda a rotina de profissionais que não podem parar

Divulgação

Eles não trabalham nos hospitais, mas estão na linha de frente de contato com a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Profissionais de serviços essenciais como os sepultadores, coletores de lixo, gasistas e operadores de pedágio não param suas atividades mesmo durante uma pandemia.

Todos concordam que a vida mudou. Uma mistura de preocupação, medo, distanciamento e muito trabalho.

“Estamos trabalhando dobrado nesse período, em tese, deveríamos trabalhar das 7h às 18h, mas têm gente saindo depois das 20 horas”, conta Manoel Norberto, agente sepultador do cemitério da Cachoeirinha e diretor do Sindsep (Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo). “Além da preocupação com o aumento de casos da doença.”

Manoel Norberto: trabalho

Manoel Norberto: trabalho

Arquivo Pessoal

A prefeitura de São Paulo anunciou na última semana que o Cemitério da Vila Formosa, na zona leste da capital, considerado o maior da América Latina, vai receber corpos de mortos pela covid-19. Foram abertas 13 mil novas valas na cidade e capacidade de sepultamento passou para 400 por dia. A prefeitura também comprou novas câmeras refrigeradas para abrigar até mil corpos por dia.

Além do excesso de trabalho e do medo, os sepultadores têm de lidar com a desconfiança das pessoas. “Tomamos todas as medidas de higiene, usamos máscaras, macacão, luvas, mantemos distância, mesmo assim sentimos a tensão no ar”, conta Manoel.

Para dar um suporte aos trabalhadores nesse momento, psicólogas do serviço social se voluntariam para ajudar. “Estamos atravessando um momento de forte pressão, que atinge o emocional, nós só somos lembrados na morte e em uma pandemia”, desabafa o agente sepultador.

A mudança de comportamento por causa do distanciamento exigido para o combate ao coronavírus também atingiu os coletores. “Antes da pandemia, muitos idosos vinham entregar o lixo pra gente, perguntavam como estávamos, outros entregavam lanches, água, agora todos estão distantes, mas é para o nosso bem, né?” avalia o coletor Geison Paulino da Silva.

Geison Paulino da Silva: cuidado

Geison Paulino da Silva: cuidado

Arquivo Pessoal

Raí, como é conhecido entre os amigos de futebol, conta que a rotina pessoal também mudou. “Vou a pé para casa, evito pegar ônibus, ao chegar, tiro o sapato, coloco a roupa na máquina e vou para o chuveiro, mesmo tendo tomado banho no vestiário antes de sair.”

Os coletores usam máscaras, luvas durante o trabalho e os caminhões foram equipados com álcool em gel e água com sabão. “As cabines passam por desinfecção, tomamos cuidado por nós e por nossos familiares também, essa tempestade vai passar”, diz Raí.

A arrecadadora de pedágio Sara Xavier ainda não se acostumou ao uso da máscara. “Já usávamos uma série de equipamento de proteção individual, mas a máscara atrapalha, muitos motoristas não conseguem entender ou ouvir o que falamos”, diz.

Sara Xavier: adaptação

Sara Xavier: adaptação

Arquivo Pessoal

“Alguns motoristas cumprimentavam com aperto de mão, agora isso não pode acontecer, até olham de maneira desconfiada quando pegam o dinheiro”, conta. “Mas se tem algo que aprendemos com tudo isso é a importância dos hábitos de higiene e cuidados como lavar as mãos quando chegamos em casa.”

“Usamos máscaras, avental, uma proteção para os pés, andamos com água e sabão, álcool em gel e quando entramos na casa das pessoas, pedimos para que mantenham a distância, não cumprimentamos com aperto de mãos, alguns estranham, mas é uma mudança de comportamento necessária”, conta o gasista da Comgás, Guilherme Cassiano.

Cassiano vive com os pais, dois irmãos e dois sobrinhos e é o único a sair de casa para trabalhar.

Guilherme Cassiano: lições de vida

Guilherme Cassiano: lições de vida

Arquivo Pessoal

“Claro que todos ficam preocupados, estamos na linha de frente e mais sujeitos à contaminação”, diz, mas mantém o otimismo. “É um momento histórico, estamos fisicamente distantes, mas próximos das pessoas que importam, nos preocupamos e vamos dar muito valor a elas quando tudo isso passar.”