Segunda onda de covid? As cidades e regiões do Brasil que puxam o aumento da doença

De acordo com a Fiocruz, os 15 Estados com tendência moderada ou forte de alta de casos são: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo

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Paciente internado na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo

Paciente internado na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo

Nelson Almeida/AFP via Getty Images /BBC NEWS BRASIL

Enquanto cresce o debate sobre se o que ocorre no Brasil é uma segunda onda de covid-19 ou repiques de uma primeira onda que nunca acabou, o número de pacientes internados com doenças respiratórias graves cresce em regiões de 15 Estados brasileiros, incluindo 10 capitais.

Esses dados (de 8 a 14 de novembro) constam em levantamento semanal feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde, a partir de registros oficiais de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), incluindo a covid-19.

Esse indicador é um dos mais precisos para tentar entender situação da doença no país porque trata de pacientes graves hospitalizados e porque sofre menos distorção da falta de testes para detectar a covid-19.

Neste ano, o país já registrou 371 mil casos de doenças respiratórias graves que tinham a febre entre os sintomas. Dos casos entre eles analisados em laboratório, 98% eram covid-19 — média anual de casos gira em torno de 40 mil.

Há relatos e dados oficiais de hospitais públicos e privados lotados em diversas regiões do país, a exemplo de São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro e São Luís.

Além disso, pesquisadores apontam que a taxa de contágio da covid-19 está acima de 1 em pelo menos 20 Estados do país. Isso significa que no Ceará, por exemplo, onde a taxa é estimada em 1,26, um grupo de 100 pessoas infectadas transmite em média a doença para 126, e estas passam o vírus adiante na mesma proporção.

Onde a covid-19 avança?

Segundo a Fiocruz, os 15 Estados com tendência moderada ou forte de alta de casos são: Acre, Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.

Mas é importante entender que há diversos níveis de espalhamento da doença. Por isso, a Fiocruz divide essas tendências em basicamente quatro grupos: curto prazo, longo prazo, moderada e forte.

Primeiro exemplo: uma tendência moderada de crescimento de curto prazo significa que a localidade registrou aumento de casos nas três semanas anteriores e a probabilidade dessa situação continuar assim vai de 75% a 95%. É o caso do noroeste de São Paulo, do nordeste de Goiás e do norte do Piauí, por exemplo.

Segundo exemplo: uma tendência forte de longo prazo significa que houve aumento em seis semanas anteriores e a probabilidade de a situação continuar assim passa de 95%. É o caso do Acre e de Santa Catarina praticamente inteiros, além da região do Jequitinhonha em Minas Gerais e do oeste do Rio Grande do Norte, entre outros.

Cada um desses 15 Estados tem pelo menos uma macrorregião com aumento de notificações de doenças respiratórias (e por extensão, de covid-19). Em Minas Gerais, há alta em 7 das 14 áreas do Estado. Em São Paulo, em 10 das 17. Em Santa Catarina, em 5 das 7. Na Bahia, em 1 das 9, mas esta é a mais populosa do Estado por incluir a capital Salvador.

As dez capitais com tendência de alta são: Belo Horizonte, Florianópolis, Goiânia, João Pessoa, Natal, Palmas, Rio Branco, São Luís, Vitória e região central do Distrito Federal.

É importante destacar que esses dados levam em conta a situação de 8 a 14 de novembro, e o espalhamento de uma doença tão contagiosa como essa pode mudar rapidamente.

E que esses dados mostram apenas um pedaço do retrato do que está acontecendo, não inclui as pessoas que não chegam a ser internadas, e a falta de informações confiáveis torna muito difícil entender a situação atual do país.

Um exemplo é a taxa de ocupação dos leitos que aparece em sites de governos estaduais. Alguns divulgam apenas os dados diários, então não é possível saber se aumentou ou diminuiu. Outros aumentam ou diminuem constantemente a oferta de leitos, então a taxa pode permanecer "baixa" enquanto a situação está piorando.

Por isso, a taxa mais "confiável" para entender o que está acontecendo de fato é o número de mortes por doenças respiratórias, mas há um descompasso porque geralmente leva quase um mês, em média, para alguém morrer de covid-19.

Então, se hoje é difícil enxergar o impacto da nova onda de covid-19 nas estatísticas de morte, é uma questão de tempo até isso começar a acontecer.

Até agora, o Ministério da Saúde registrou a morte de 167 mil pessoas por covid-19.

Mas especialistas da Fiocruz apontam que morreram neste ano ao menos 220 mil pessoas de doenças respiratórias graves (basicamente por covid-19). No ano passado, foram 5.324.

O que vem pela frente?

A avaliação de especialistas sobre a ocorrência de uma segunda onda de coronavírus no país, a exemplo do que acontece na Europa e nos Estados Unidos, se baseia na evolução da taxa de reprodução (Rt) do coronavírus no país, que indica que a pandemia voltou a crescer por aqui.

Essa taxa de contágio é calculada com base no aumento de novos casos e permite saber quantas pessoas são contaminadas por alguém que já está infectado.

Coronavírus matou ao menos 167 mil pessoas no Brasil em 2020

Coronavírus matou ao menos 167 mil pessoas no Brasil em 2020

Getty Images /BBC NEWS BRASIL

Se o índice fica acima de 1, isso indica que a pandemia está se expandindo. Quando está abaixo, é um sinal de que a pandemia está perdendo intensidade.

De acordo com o Observatório de Síndromes Respiratórias da Universidade Federal da Paraíba, o Rt estava acima de 1 em 20 Estados (Acre, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins) e no Distrito Federal.

A situação estava mais crítica no Paraná, onde a taxa era de 1,62. Já em Santa Catarina a Rt está acima de 1 há mais tempo: desde 14 de outubro.

Enquanto esse número não cair para menos de 1, a doença não vai dar folga.

E como é possível reduzir essa taxa de contágio?

Sem vacinas disponíveis ainda, centenas de especialistas afirmam que isso envolve uma série de estratégias de combate à doença, como distanciamento social, uso de máscaras e rastreamento de pessoas que tiveram contato com alguém infectado.

Mas nenhuma dessas medidas sozinha é perfeita, e algumas são de responsabilidade de cada pessoas e outras são dos governantes ou da sociedade como um todo.

BBC

Por isso, o virologista Ian M. Mackay, da Nova Zelândia, encontrou uma ótima analogia para ajudar as pessoas a se protegerem contra a covid-19: o queijo suíço.

"Nenhuma medida isolada de prevenção que tentamos implementar para combater a covid funciona 100%", mas, quando "começamos a juntar diferentes camadas (medidas), criamos uma barreira efetiva", disse o cientista à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.