Novo Coronavírus

Saúde Sobrinho de Kennedy questiona vacinas com dados inverídicos

Sobrinho de Kennedy questiona vacinas com dados inverídicos

Em vídeo, Robert F. Kennedy Jr., um famoso ativista antivacina nos EUA, cria teorias para dizer que imunizantes contra covid são inseguros

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Robert F. Kennedy Jr. é advogado e um dos entusiastas do movimento antivacina

Robert F. Kennedy Jr. é advogado e um dos entusiastas do movimento antivacina

Wikimedia Commons

Um trecho de uma entrevista de Robert F. Kennedy Jr. em que ele fala sobre vacinas, incluindo as contra o coronavírus causador da covid-19, a um pequeno canal de TV dos EUA passou a circular com frequência nas redes sociais recentemente.

No vídeo, de maio deste ano, o sobrinho do ex-presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy, faz diversas ilações a respeito de problemas que imunizantes teriam enfrentado durante a fase de desenvolvimento e posterior uso.

Robert F. Kennedy Jr. é advogado e um dos mais prolixos ativistas "anti-vaxxers" dos Estados Unidos.

O nome é dado a um movimento que ganha cada vez mais força no país, composto por pessoas que acreditam que vacinas trazem doenças.

Coronavírus criado em laboratório

Na entrevista ao Joni Table Talk, Kennedy Jr. cita informações sem respaldo da comunidade científica sobre a origem dos coronavírus que causaram epidemias recentes.

"A partir de 2002, houve três surtos de coronavírus, nós os chamamos de SARS e MERS. E a primeira SARS foi uma doença natural. Ele saltou de morcego para seres humanos. Os dois segundos foram criados em laboratório e que escaparam e infectaram seres humanos", disse.

A primeira epidemia de SARS (síndrome respiratória aguda grave), causada por um coronavírus muito semelhante ao causador da covid-19, ocorreu entre 2002 e 2003 e ficou restrita, principalmente à China.

Pesquisadores descobriram que o vírus tinha origem no morcego, mas não foi diretamente a partir dele que humanos se infectaram, mas pelo contato com a civeta, um mamífero vendido em mercados de animais silvestres.

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Estudos robustos mostram que é remota a possibilidade de que o coronavírus — presente em morcegos sem que os faça mal — passe sem intermediários para humanos, uma vez que não temos convivência frequente com eles.

O segundo surto de um tipo de coronavírus emergente ocorreu em 2012, na península arábica. Foi chamado de MERS (síndrome respiratória do Oriente Médio).

Investigações posteriores mostraram que o vírus dos morcegos infectou dromedários, que transmitiram para humanos.

Não há, nem mesmo por parte de órgãos de inteligência dos Estados Unidos e outros países ocidentais, qualquer prova de coronavírus produzidos em laboratório.

Muito pelo contrário, estes são micro-organismos encontrados no meio selvagem, assim como outros vírus que apareceram recentemente, como ebola e HIV.

Outros quatro tipos de coronavírus circulam sazonalmente entre humanos e são responsáveis por resfriados comuns. São eles: HCoV-229, HCoV-OC43, HCoV-NL63 e HCoV-HKU1.

A covid-19, causada pelo SARS-CoV-2, é a terceira variante recente do coronavírus.

"Uma coisa que a gente tem que aprender é que nós vamos conviver com a emergência de vírus novos a todo momento. Você tem patógenos que circulam na espécie humana e na espécie animal. O que a gente viu é que cada vez mais o progresso tecnológico faz com que a gente possa detectar rápido e conseguir difundir as informações de forma muito rápida", disse ao R7, em fevereiro, a infectologista e virologista Nancy Bellei, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

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Desenvolvimento das vacinas

Vacinas contra covid usam tecnologia nova

Vacinas contra covid usam tecnologia nova

Owen Humphreys/POOl EFE/EPA - 08.12.2020

O entrevistado diz também que quatro vacinas em desenvolvimento contra o coronavírus testadas em animais desde a primeira epidemia de SARS falharam porque furões imunizados adoeceram e morreram.

"Os furões tiveram uma resposta de anticorpos brilhante, robusta e durável, mas então algo horrível aconteceu. Quando esses furões foram desafiados, quando foram expostos ao vírus selvagem, ficaram terrivelmente doentes. Eles tiveram inflamação por todo o corpo e morreram."

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Os testes de vacinas em animais são feitos justamente para identificar problemas que podem impedir o avanço daquele produto. 

A reportagem não encontrou na literatura qualquer referência ao episódio citado pelo advogado.

No entanto, para embasar seu argumento, o ativista antivacina lembra de um caso que aconteceu na década de 1960, no desenvolvimento de um imunizante contra o VSR (vírus sincicial respiratório), muito frequente em bebês e crianças.

"Agora os cientistas se lembraram de que algo muito semelhante havia acontecido na década de 1960, quando desenvolveram uma vacina contra o VSR, que é muito semelhante ao coronavírus. É uma doença de infecção respiratória superior. Eles pularam os animais e os deram diretamente para 35 crianças. E as crianças, novamente, desenvolveram uma resposta de anticorpos muito robusta, mas quando essas crianças foram expostas ao vírus selvagem, elas ficaram muito, muito doentes, muito mais doentes do que as crianças não vacinadas. E duas dessas crianças morreram. Foi um escândalo."

O que aconteceu em 1966 é explicado em um artigo da revista científica Nature. Na fase de testes, que ocorre após as pesquisas em animais, crianças foram, de fato, imunizadas.

Foi um estudo desastroso, com bebês vacinados que pegaram VSR, foram hospitalizados, e duas crianças morreram.

Porém, tudo apontou para uma vacina maldesenvolvida, que apresentou problemas logo nos primeiros testes em humanos. O imunizante não chegou a ser usado em larga escala.

Segundo a publicação,  a falha "poderia ter sido evitada se adjuvantes — produtos químicos que estimulam o sistema imunológico — tivessem sido adicionados à vacina".

Estudos complementares demonstraram que a formalina — usada para inativar o vírus durante a produção de vacinas — deformou o vírus naquele caso. Com isso, o imunizante desencadeado a criação de anticorpos "mal-elaborados".

Diferente da vacina contra o VSR, as principais vacinas contra o coronavírus conhecidas hoje prosseguiram para fases finais de testes  sem intercorrências graves.

Ademais, a maior parte delas utiliza tecnologias que não existiam na década de 1960.

Os profiláticos da Pfizer/BioNTech e da Moderna, por exemplo, nem sequer requerem vírus, pois são feitos a partir de fragmentos genéticos desenvolvidos em laboratório (RNA mensageiro).

Vacina da dengue

Para desacreditar as vacinas contra a covid, Kennedy Jr. também cita um escândalo envolvendo o imunizante Dengvaxia, contra a dengue, nas Filipinas, que resultou na morte de mais de cem crianças que haviam recebido pelo menos uma dose.

Vale destacar que o vírus da dengue é muito mais complexo do que o coronavírus, o que consiste em vacinas diferentes.

A dengue tem quatro sorotipos. Uma pessoa pode ser infectada quatro vezes, sendo que a segunda pode ser mais grave, por causa do que é chamado de realce dependente de anticorpos — a resposta imune ao primeiro vírus amplifica o efeito do segundo tipo.

O caso da Dengvaxia, desenvolvida pelo laboratório francês Sanofi Pasteur, foi um misto de negligência regulatória com ausência de estudos mais robustos.

Dentre outras pessoas, a justiça filipina acusa Rose Capeding, ex-chefe do Departamento de Dengue do Instituto de Pesquisa em Medicina Tropical por ser uma das responsáveis pela introdução prematura da vacina no país.

A Dengvaxia consiste em uma vacina de vírus atenuado da febre amarela que expressa genes de cada um dos quatro tipos de vírus da dengue.

No entanto, houve questionamentos naquela ocasião por cientistas que alertavam sobre o uso do imunizante em crianças que nunca haviam contraído dengue.

Em 2017, a Sanofi Pasteur admitiu que sua vacina poderia agravar casos de dengue em crianças nunca antes infectadas.

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