Coronavírus

Saúde Transplantados vivem preocupação, mesmo após vacina

Transplantados vivem preocupação, mesmo após vacina

Incerteza sobre desenvolvimento de imunidade é uma constante na vida de quem recebeu um órgão

AFP
  • Saúde | por AFP

Andrea López Robles (foto) passou por transplante de fígado e tomou vacina contra covid-19

Andrea López Robles (foto) passou por transplante de fígado e tomou vacina contra covid-19

OSCAR DEL POZO/AFP

Com as defesas imunológicas baixas devido aos medicamentos que protegem seus novos órgãos, as pessoas transplantadas não respondem às vacinas como o resto da população: para elas, o fim da pandemia ainda é um horizonte distante.

"Até estarmos todos vacinados, não vou dizer 'adeus a todos os cuidados'", diz Andrea López Robles, que fez um transplante de fígado quando tinha dois anos.

Agora, com 25 anos, mantém a postura de alguém que esteve perto da morte.

"Muito orgulhosa", não hesita em usar camisas curtas que mostram a sua cicatriz: "tenho que cuidar do meu fígado todos os dias e tenho consciência de que estou viva graças ao transplante".

Shows, sessões de cinema, restaurantes fechados, trens ou aviões não são atividades que ela pode arriscar por enquanto.

Com um frasco de álcool em gel no bolso, só puxa para baixo a máscara PFF2 para tomar um gole de suco.

"Eu estive perto de morrer, mas agora estou bem e não vou bancar a boba por nada", explica.

Andrea é espanhola e no país os transplantes são um orgulho nacional: a Espanha é campeã mundial em doação de órgãos, título que detém há mais de 30 anos, com mais de 116 mil transplantes (e mais de 50 mil doadores) desde 1989.

Em 2019, o país registrou um recorde histórico de 48,9 doadores por milhão de habitantes. Mesmo no pior momento da crise de saúde, a Espanha apresentou resultados melhores do que outros países no período pré-pandêmico (37,4 doadores em 2020 por milhão de habitantes, em comparação com 29,4 na França em 2019 ou 36,1 nos Estados Unidos).

Usar máscara, manter distância social ou não cumprimentar com beijos: muito antes da primavera de 2020 e do surgimento da covid-19, essa já era a rotina de Magdalena Moskal.

Com a respiração ofegante, a mulher de 36 anos, que sofre de fibrose cística e recebeu um transplante de ambos os pulmões em 2008, conta que sempre viveu em uma bolha, onde qualquer elemento estranho é uma ameaça: "Uma realidade que eu vivo, agora é vivida por todo o mundo".

Vacinada desde maio, Magdalena não sabe se seu corpo desenvolveu defesas contra o vírus. Na rua, ela usa máscara PFF3 e desinfeta até o copo e a colher que o garçom coloca na sua frente.

"Estou viva porque sempre me cuidei. Se não tomar cuidado, posso acabar mal", afirma. "Vamos ficar mais tranquilos qando toda a população estiver vacinada", acrescenta.

O "vamos" se refere aos transplantados, um grupo à parte, obrigados a tomar remédios a vida inteira para lutar contra a rejeição do novo órgão, mas cujos efeitos também podem bloquear a ação da vacina.

De acordo com um estudo publicado no início de maio pelo Journal of the American Medical Association, de uma amostra de 658 pessoas transplantadas e vacinadas contra a covid, apenas 54% tinham "anticorpos detectáveis". 

Os medicamentos que os pacientes transplantados tomam tentam "evitar que o órgão seja rejeitado, mas também retardam qualquer resposta imunológica, inclusive aquela de que precisamos para nos defender de bactérias ou vírus", confirma Estela Paz Artal, chefe do serviço de imunologia do hospital 12 de Octubre de Madri.

"Uma porcentagem significativa de pacientes transplantados não desenvolve absolutamente nenhum anticorpo ou qualquer célula defensiva após serem vacinados com a vacina contra o coronavírus", acrescenta. 

Mas, para a médica, "a mensagem que deve prevalecer é que se vacinar e ter uma resposta é melhor, muito melhor do que não ter nenhuma", enfatiza.

Mensagem também repetida por Beatriz Domínguez-Gil, diretora da Organização Nacional de Transplantes, que destaca que "a taxa de mortalidade por covid é de 21% para a população transplantada na Espanha", muito superior à da população em geral, de 2% .

Poucos são tão sensíveis aos riscos quanto os transplantados.

Os cem comprimidos que Rafael García toma todos os dias há cinco anos, quando recebeu seus novos pulmões, lembram-lhe que deve cuidar "todos os dias, a qualquer hora, do seu presente".

Este homem leva com a esposa uma "vida monástica", como se não estivesse vacinado, em que faz compras online e muda de calçada para não esbarrar em ninguém, apesar de usar uma máscara PFF2. 

As autoridades de saúde, que colocaram os transplantados entre o público prioritário da campanha de vacinação, já estão considerando injeções complementares para eles. 

"Teremos que estudar formas de melhorar a eficácia da vacina nesse grupo de pacientes", estima Domínguez-Gil.

"No momento, eles têm que manter medidas de autoproteção. Na verdade, como toda a população, mas eles em particular", acrescenta.

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