Uso de máscara caseira é um ato de educação, mas protege pouco

Ministro da Saúde pediu para os brasileiros evitarem a compra dos produtos cirúrgicos e fazerem seus próprios itens de segurança

Máscaras caseiras só ajudam as outras pessoas

Máscaras caseiras só ajudam as outras pessoas

Pixabay

Apesar de o Ministério da Saúde ter passado a estimular a produção de máscaras caseiras pela população, elas continuam sendo um meio bastante limitado para evitar a propagação da covid-19.

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Os médicos entrevistados pelo R7 fazem várias ressalvas às máscaras caseiras, ainda que vejam nelas alguma utilidade na guerra contra o coronavírus. 

O pneumologista do Hospital Oswaldo Cruz, Elie Fiss, explica que qualquer proteção na frente da boca e do nariz pode ajudar a conter a dispersão dos vírus se alguém que estiver contaminado usá-la. 

Arte/R7

Fiss observa que esse tipo de máscara tem eficácia quase zero para evitar contágios. "Todo material funciona como barreira, mas, por ser permeável, não evita a entrada do vírus."

Em suma, usar a máscara é um ato educado para reduzir os riscos de contaminação dos outros, não o seu, principalmente sabendo-se que a covid-19 é assintomática na maior parte das pessoas e você pode estar infectando muita gente por aí sem perceber.

Não mudou nada com a orientação do Ministério da Saúde, reafirmada quarta-feira (1º) pelo titular da pasta, Luiz Henrique Mandetta. "Desde o começo a gente vem falando que a máscara cirúrgica tem que ser usada por quem está doente, e não por todo mundo. Sabíamos que com o decorrer do tempo, com mais e mais contaminados, elas não seriam mais suficientes. Por isso é salutar o estímulo, desde que fique claro que elas estão muito longe de uma proteção definitiva."

O médico infectologista Cláudio Gonsalez, do Hospital Emílio Ribas, acrescenta que não se pode passar de forma alguma a ideia de que as máscaras caseiras deixam a pessoa livre do coronavírus.

"Não se pode trazer a falsa impressão de que a máscara está protegendo essa pessoa e de que ela pode deixar a quarentena." 

Gonsalez alerta também que o Ministério da Saúde prometeu divulgar a forma como as máscaras podem ser feitas e como devem ser usadas. "Prometeram um novo protocolo, mas antes de ele sair, as pessoas estão se antecipando."

Para os médicos, o material utilizado na confecção do item de segurança importa pouco, o que intessa é que exista uma mínima barreira, que jamais será completamente eficaz, como foi dito.

Para o professor de infectologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Celso Granato, a orientação mudou por causa dos novos conhecimentos sobre a doença.

O especialista destaca que em função de esse ser um vírus mais transmissível do que se imaginava no começo, é possível que o contágio não ocorra apenas por gotículas, mas também por partículas que ficariam "boiando" no ar por uns 20 minutos. Por isso, diz Granato, a máscara poderia ter algum benefício.

"Ainda que não seja uma proteção maravilhosa, se a máscara proteger 30%, será melhor do que nada", diz Granato.

Façam as suas, diz ministro

Na quarta-feira, o ministro Mandetta pediu à população parar de comprar máscaras descartáveis e fazer a própria peça de proteção, com pano e elástico.

Ele fez essa solicitação diante da escassez dos chamados Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), que incluem máscaras, luvas e álcool em gel, por exemplo além da falta de sopradores mecânicos. "Hoje nós estamos muito preocupados com a regularização de estoque desses equipamentos", disse.

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O ministro admitiu que o governo brasileiro está tendo dificuldade para garantir o estoque de máscaras a todos os brasileiros.

"Acho que máscaras de pano para os comunitários (população) funcionam muito bem como barreira. Não é caro de fazer, faz você mesmo e lava com água sanitária", disse o ministro. "Tenha quatro ou cinco máscaras dessas, lave com água sanitária. Agora, é lutar com as armas que a gente tem. Não adianta agora ficar lamentando que a China não está produzindo. Nós vamos ter de criar as nossas armas e serão aquelas que nós tivermos."

O uso de máscaras de TNT pela população em geral para reduzir o contágio do novo coronavírus ganha força entre países da Europa e nos Estados Unidos. Reportagem publicada no início desta semana no jornal americano The Washington Post diz que funcionários do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) consideram alterar as orientações oficiais para incentivar as pessoas a tomarem medidas para cobrir o rosto.

Apesar de não haver estudos científicos que comprovem a correlação entre o uso de máscaras e o menor ritmo de espalhamento da doença, essa atitude pode ter feito a diferença.

Artigos recentes de especialistas publicados nos jornais The New York Times e no The Washington Post dizem que apesar de a OMS não recomendar o uso universal de máscaras, países que adotaram essa conduta por conta própria tiveram redução da disseminação. Uma das evidências apontadas é que Hong Kong, Mongólia, Coreia do Sul e Taiwan, onde a população já tem o costume de usar máscara nas ruas, estão com o surto sob controle.

Como fazer uma

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, o professor do Instituto de Química da USP Henrique Eisi Toma ensinou como se faz uma máscara caseira.

Materiais necessários:

1 filtro de café descartável (material filtrante); 

1 saquinho plástico do tipo de geladeira (suporte);

Barbante; e

Tesoura.

Como fazer:

Partimos de um filtro de café e de um saquinho de geladeira (daqueles que são usados para guardar alimentos e que costumam ter um fecho de ‘colagem’ em cima).    

Com um estilete, cortamos o saquinho, de modo a preservar seu fundo intacto e deixá-lo com aproximadamente 11 cm de altura.  A parte que devemos retirar é a ‘boca’ do saquinho.  


Então, sobrepomos o filtro de café ao saquinho, com a parte mais larga do filtro rente à abertura. Cortamos as partes do filtro que ficarem ‘para fora’, para que ele caiba dentro do saquinho. É importante também aparar os lados e a parte de baixo do filtro de café, para que possamos utilizar apenas uma superfície dele, em vez da superfície dupla que temos quando o filtro está dobrado.                 

Precisamos fazer furinhos nas laterais do saquinho, por onde passará o elástico que prende a máscara ao rosto. Para isso, dobramos ligeiramente as laterais do saquinho e fazemos um pequeno corte em formato de V perto de cada extremidade. 

Finalmente, precisamos fazer aberturas no centro do saquinho, pelas quais passará o ar que vamos respirar. A maneira mais fácil de fazer isso é dobrando o saquinho ao meio e fazendo dois cortes generosos em formato de V no meio.

Inserimos o filtro no interior do saquinho. Então, passamos fios de barbante nos furinhos laterais do saquinho, que servirão como suporte da máscara no rosto. E pronto! A máscara caseira já pode ser usada.

Na YouTube, há vários vídeos disponíveis em que artesãos e médicos ensinam a fazer máscaras caseiras. Veja alguns: