Coronavírus

Saúde Vacinação: 41,9 milhões de adultos no Brasil ainda precisam da 1ª dose

Vacinação: 41,9 milhões de adultos no Brasil ainda precisam da 1ª dose

Número representa cerca de 26,5% da população acima de 18 anos; promessa do ministério é vacinar grupo até fim de setembro

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Para concluir 1ª dose até setembro, são necessárias 903 mil aplicações por dia, em média

Para concluir 1ª dose até setembro, são necessárias 903 mil aplicações por dia, em média

RENATO S. CERQUEIRA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO - 12.8.2021

O avanço da vacinação contra a covid-19 no Brasil traz a esperança de dias melhores ainda neste ano, mas dados atualizados até sexta-feira (13) do Ministério da Saúde mostram que 41,9 milhões de brasileiros acima de 18 anos ainda não tinham tomado uma dose sequer.

Este número representa 26,5% dos adultos no país. Vale destacar que ainda não há recomendação do Ministério da Saúde para vacinar adolescentes, embora algumas cidades estejam fazendo por conta própria.

De 1º a 11 de agosto, foram aplicadas, em média, 903 mil primeiras doses por dia. Mantido este ritmo, o país concluiria a primeira dose dos adultos no dia 27 de setembro.

Esta é a promessa que o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, tem feito: todos os brasileiros acima de 18 anos com ao menos uma dose até o fim de setembro.

Mas o presidente do Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde), Wilames Freire, prefere não fazer previsões muito otimistas.

"Eu acho que setembro está muito curto o prazo. Acredito que até o final do ano teremos toda a população de 18 anos acima pelo menos com a primeira dose. Não trabalho muito com essa projeção do final de setembro, até porque o que observamos ao longo deste ano é que todas as projeções que foram feitas sempre foram alteradas para baixo", diz.

Para Freire, há distorções entre cidades no Brasil, algumas avançaram mais do que outras por características demográficas.

Por exemplo, locais com mais idosos, indígenas ou quilombolas vão ter uma cobertura vacinal maior, porque foram os primeiros grupos prioritários.

Mesmo assim, o secretário destaca que a falta de informações populacionais atualizadas do Brasil também um fator que dificulta.

"Como nós temos um censo do IBGE que não reflete a realidade de hoje do país, vamos ter muitos problemas referentes à questão de falta de vacinas em alguns locais", acrescenta, ao ressaltar que o último censo foi em 2010.

Os municípios estão trabalhando com estados e com o Ministério da Saúde em "algumas medidas para equilibrar nacionalmente a distribuição de vacinas", ressalta Freire.

De qualquer forma, a conclusão da vacinação da população acima de 18 anos vai ocorrer em momentos diferentes em cada localidade.

Algumas cidades, inclusive, já terminaram, como é o caso de Manaus (AM) e São Luís (MA), que abriram a imunização para adolescentes de 12 a 17 anos. Os dois municípios receberam adicionais de vacinas por causa das variantes Gama e Delta, respectivamente. 

Outras capitais estão mais atrasadas, a exemplo de Belo Horizonte (MG), onde estão sendo vacinadas pessoas com 30 anos. São Paulo vai vacinar neste fim de semana moradores de 18 a 21 anos.

No Rio de Janeiro, a aplicação da primeira dose chegou a ser suspensa nesta semana, quando seriam vacinados indivíduos na faixa de 24 anos.

"Cada local tem uma performance um pouco diferente, não sei se é pela rede mais organizada, pela logística. Se tivesse falta de vacinas, alguns estados não teriam um percentual mais alto [de vacinados]. Esse descompasso chama atenção. A distribuição das vacinas é para ser pactuada entre estados e municípios. Teoricamente, era para funcionar exatamente o que é definido lá", afirma Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações).

Segunda dose

Ao mesmo tempo em que têm o desafio de cobrir a parcela da população sem a primeira dose, municípios também também precisam se organizar para a aplicação da segunda dose.

Na sexta-feira, mais de 70% dos postos de vacinação na maior cidade do país, São Paulo, estavam sem imunizantes da AstraZeneca para a segunda dose. 

Os dados do LocalizaSUS mostram que 67,9 milhões de pessoas ainda precisam tomar a segunda injeção — a grande maioria aguarda o intervalo entre as injeções, que é de três meses para os imunizantes da Pfizer e da AstraZeneca.

Outros 48,1 milhões já concluíram o esquema vacinal com duas doses ou dose única. Queiroga, falou na última terça-feira (10) que, deste total que ainda precisa da segunda dose, cerca de 7 milhões estão em atraso.

A previsão da chegada de 64,9 milhões de vacinas em agosto e outros 66,5 milhões em setembro é um alento para gestores municipais, mas desde que se cumpra.

Contratempos, como a retenção de quase 7 milhões de doses em um galpão do Ministério da Saúde em Guarulhos (SP) nesta semana, podem levar a atrasos, já que não há estoque de vacinas nos estados e municípios.

O presidente do Conasems destaca que há cerca de 100 mil locais de vacinação contra covid-19 em todo o país com capacidade para aplicar até 2 milhões de doses por dia.

"Temos uma capacidade instalada bem grande e disponível para atender o sistema, mas dependemos da logística, da aquisição pelo Ministério da Saúde e entrega pelas secretarias estaduais. [...] O que eu entendo é que neste mês de agosto teremos condições de avançar muito mais na vacinação, porque há uma prospecção por parte do Ministério da Saúde de repassar mais de 60 milhões de doses. Será o mês em que nós tivemos mais doses disponíveis no Programa Nacional de Imunizações."

Para o presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), a segunda dose é sempre um componente difícil em campanhas de vacinação.

"Esse esforço tem que ser permanente porque nós sabemos já — com experiência de outras vacinas que têm mais de uma dose — que sempre tem uma quebra da segunda vacina por motivos diversos. A busca ativa tem que ser colocada em prática porque muitas vezes, em especial os idosos, as pessoas esquecem. [...] Os agentes comunitários são fundamentais nisso, eles conhecem as comunidades, sabem onde procurar, quem procurar. A equipe de saúde já faz isso no seu dia a dia."

Dados do LocalizaSUS compilados pelo R7 mostram que 8,21% dos idosos acima de 80 anos não tomaram a segunda dose.

Vacinação de adolescentes

Ao encerrar a imunização de pessoas acima de 18 anos, algumas cidades já começaram a aplicar a vacina da Pfizer — a única com autorização — em adolescentes de 12 a 18 anos com ou sem comorbidades.

Trata-se de uma decisão arriscada, na avaliação do presidente do Conasems, uma vez que não há indicação da Comissão Intergestores Tripartite do SUS (formada por Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de saúde).

"Se der certo, tudo bem. Mas se der errado, o gestor vai ter que responder judicialmente, vai ter que cumprir com a responsabilidade por esta decisão [de vacinar adolescentes]. Quando tivermos a orientação técnica, é claro que nós vamos orientar os municípios. Essa decisão fragiliza bastante o gestor porque ele fica sem a proteção da orientação técnica do Ministério da Saúde, da nossa tripartite, da ciência. Se algo acontecer de forma equivocada, de alguma reação que não esteja dentro do esperado, o gestor irá responder de forma judicial. Isto não é bom para ninguém", adiciona Freire.

Ele pontua ainda que a Comissão Intergestores Tripartite "irá se pronunciar de forma orientativa" em relação às diretrizes para imunização de adolescentes.

O uso de vacinas da Pfizer para adolescentes, que são grupos com menor risco de adoecimento por covid-19, divide opiniões de especialistas.

Há quem diga que as doses deveriam ser usadas para encurtar o intervalo de três meses para o período de 21 dias entre as doses, como indicado em bula.

Um estudo no Reino Unido já demonstrou que a variante Delta do coronavírus é a que mais escapa à vacinação com apenas uma dose da Pfizer ou da AstraZeneca.

O avanço da Delta no Brasil justificaria essa mudança. Mas o ministro da Saúde disse que ela só será decidida quando a vacinação de todos os adultos for concluída, segundo ele, em setembro.

O presidente da SBIm entende que as decisões podem ter de ser calibradas conforme forem colocadas em prática.

"A epidemiologia também vai nos guiar muito nisso. Sempre falamos que tanto as crianças quanto os adolescentes são grupos que têm um menor impacto da doença, mas ao mesmo tempo serão fundamentais para a gente atingir coberturas vacinais para imunidade coletiva", finaliza.

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