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Saúde Verão acende alerta para picadas de escorpião em crianças

Verão acende alerta para picadas de escorpião em crianças

Pacientes pediátricos têm entre seis e oito vezes mais chances de morte em acidentes com estes artrópodes do que adultos

  • Saúde | Fernando Mellis, do R7

Escorpião amarelo é o mais venenoso da América do Sul

Escorpião amarelo é o mais venenoso da América do Sul

José Roberto Peruca/Flickr

A chegada do verão também é a época em que o Brasil mais registra acidentes com escorpiões. As principais vítimas são as crianças, que representaram boa parte das mortes.

Somente no estado de São Paulo, em 2020, 36 mil crianças foram picadas por escorpiões, das quais sete morreram – seis delas abaixo de dez anos.

"Nós vemos, epidemiologicamente, a maior parte dos acidentes acontece na primavera e no verão. Acontece no ano inteiro, mas há uma preponderância nesta época. Há várias explicações. Uma delas é a chuvarada. A chuva desloca o bicho do lugar dele", explica o gerente médico do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica) do Instituto da Criança do HCFMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP), Carlos Roberto de Medeiros.

Ele ressalta que entre 2009 e 2018 mais do que triplicou o número de registros de picadas de escorpiões, que têm notificação compulsória — de 50 mil para 156 mil. Em 2020, foram 143,9 mil casos em todo o país, com 178 óbitos.

"O escorpião também causa mortes em adultos, mas a proporcionalidade de mortes entre crianças é muito maior, de seis a oito vezes mais alta [em relação aos adultos]. Por isso a nossa preocupação", acrescenta Medeiros, que também atua na Vigilância de Acidentes por Animais Peçonhentos no município de São Paulo.

O principal envolvido nesses episódios é o Tityus serrulatus, popularmente conhecido como escorpião amarelo.

Estes animais medem cerca de 7 cm de comprimento quando adultos e são considerados os escorpiões mais venenosos da América do Sul. Nas regiões urbanas, ele não tem predadores naturais.

Além disso, as fêmeas do Tityus serrulatus se reproduzem sem a necessidade de acasalamento, podendo gerar de 20 a 25 filhotes por vez (até duas vezes em um ano). Os escorpiões também conseguem escapar de inseticidas.

Nas áreas urbanas, estes animais são predadores de baratas. Ou seja, onde elas estiverem, há risco de atraírem escorpiões.

Os perigos

A picada de um escorpião provoca sintomas que podem ser leves (entre 80% e 85% dos casos, na média), moderados ou graves.

"O problema é que você não sabe qual criança vai evoluir para isso [quadro greve] ou não – e a evolução é rápida. [...] O veneno do escorpião, assim como o de outros animais peçonhentos, tem uma série de toxinas. Mas a principal ação no escorpianismo grave é o que nós chamamos de neurotoxinas que bloqueiam canais de sódio e de potássio presentes em fibras excitáveis, principalmente no sistema nervoso. Isso causa uma liberação de neurohormônios e age no corpo inteiro", alerta o médico.

A Covisa (Coordenaria de Vigilância em Saúde) da Prefeitura de São Paulo acrescenta que "as lesões por escorpionismo não possuem características típicas que as discriminem de lesões causadas por outros artrópodes, dificultando o diagnóstico, especialmente nos casos que não apresentam sinais sistêmicos. Este fato contribui para uma demora no atendimento adequado e retarda a soroterapia".

Os sintomas em quadros mais leves incluem:

• Dor local (em quase 100% dos pacientes) de forte intensidade com irradiação para locais próximos da picada
• Vermelhidão local

A marca da picada pode nem sempre ser vista, segundo Medeiros.

Nestes casos, o paciente também precisa ser levado a uma unidade de saúde para ficar em observação por pelo menos seis horas. Este é o período em que os médicos vão avaliar se há ou não necessidade de soro antiescorpiônico em um eventual agravamento do quadro.

Casos de escorpianismo moderado podem apresentar, além da dor local:

• Sudorese
• Náuseas
• Vômitos
• Hipertensão arterial
• Aumento dos batimentos cardíacos
• Agitação

Já os quadros graves envolvem todos os sintomas acima com muito mais intensidade e também:

• Sensação de frio e hipotermia
• Arrepios
• Palidez
• Agitação intercalada por períodos de sonolência
• Aumento ou diminuição da frequência cardíaca
• Aumento ou diminuição da pressão arterial
• Dispneia (dificuldade para respirar)
• Tremores
• Espasmos musculares
• Convulsões
• Arritmias cardíacas
• Insuficiência cardíaca
• Edema pulmonar
• Choque cardiogênico

Estes dois últimos problemas costumam ser os que levam os pacientes a óbito.

O que fazer

O gerente médico do Ceatox sublinha que é importante suspeitar da picada de escorpião sempre que a criança se queixar de uma dor intensa, especialmente em locais onda haja a presença destes animais.

"O que nós queremos é que a criança seja atendida o mais rápido possível. [...] Mesmo que não tenha o soro lá, ela vai ser transferida o mais rápido possível para uma unidade de referência. Mas se a criança já está em um hospital que tem recursos de UTI, aí é o contrário, é o soro que vai até ela."

Soro está disponível em hospitais de referência

Soro está disponível em hospitais de referência

Divulgação/Instituto Butantan

Em São Paulo, as unidades de referência que oferecem soro antiescorpiônico são cinco: Hospital Vital Brasil (Butantã), Hospital do Campo Limpo, Hospital Geral do Grajaú, Hospital Municipal do Tatuapé e Hospital Geral de Taipas.

Futuramente, também estará disponível no Hospital Municipal de Ermelino Matarazzo.

"Criança que é picada por escorpião e chega vomitando no pronto-socorro, arrume vaga de UTI, porque já é grave", alerta o especialista.

O tratamento para quadros moderados é feito com três ampolas do soro. Casos graves requerem seis ampolas.

Em ambas as situações, é necessário que o paciente permaneça em observação pois as toxinas ainda ficam no organismo por algum tempo.

O médico acrescenta que levar uma foto do animal "ajuda", mas não é imprescindível. Ele orienta a priorizar o atendimento à criança e não ficar procurando o escorpião.

Como evitar

Os escorpiões são animais de hábitos noturnos, gostam de locais úmidos e escuros, com a presença de baratas – galerias de esgoto e de águas fluviais e depósitos de lixo.

Estes animais são mais comuns em casas, mas podem também aparecer em prédios se forem carregados em caixas, por exemplo.

As principais recomendações do gerente médico do Ceatox para evitar que estes invasores entrem na sua casa são:

• Tapar buracos nas paredes
• Usar proteção nas soleiras das portas
• Usar telas protetoras nos ralos do chão e das pias
• Não deixar louça suja acumulada de um dia para o outro
• Acondicionar o lixo adequadamente
• Não manter entulho em casa
• Cortar o mato em volta da residência
• Afastar o berço dos bebês da parede
• Chacoalhar sempre pela manhã roupas e sapatos antes de vestir

Por fim, Medeiros orienta a procurar o Centro de Controle de Zoonoses da sua região caso haja relatos de escorpiões.

Em São Paulo, os telefones são o 156 (escolher opção 2 e, em seguida, opção 3) e o 2974-8000. O e-mail é o zoonoses@prefeitura.sp.gov.br

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