Coronavírus

Saúde Vida volta quase ao normal, mesmo com patamar de mortes ainda alto

Vida volta quase ao normal, mesmo com patamar de mortes ainda alto

Especialistas pedem cautela devido ao baixo índice de pessoas completamente vacinadas e dos casos da variante Delta no país

  • Saúde | Carla Canteras, do R7

Resumindo a Notícia

  • Brasil tem diminuição de casos e mortes por covid, mas óbitos superam mil por dia
  • Relaxamento tem de seguir dados epidemiológicos e ações devem ser responsáveis
  • "Não estamos no momento de vale-tudo", alerta o infectologista Renato Kfouri
  • Transmissão no país é 0,95: a cada 100 pessoas doentes, 95 saudáveis são infectadas
Avenida Paulista, em São Paulo, fica cheia na reabertura após mais de um ano fechada

Avenida Paulista, em São Paulo, fica cheia na reabertura após mais de um ano fechada

Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo - 18.7.2021

Quem olha a movimentação nas grandes cidades brasileiras, a volta de público em jogos de futebol, como aconteceu na última quarta-feira (21) na partida entre Flamengo e Defensa y Justicia, pela Copa Libertadores, em Brasília, pode pensar que a pandemia, enfim, está controlada, com taxa de transmissão baixa e números de óbito próximo a zero.

De fato, a evolução da vacinação fez com no país atingisse o menor nível de mortes desde fevereiro, com média inferior a 1.200 perdas por dia. Mas os médicos pedem cautela na euforia, uma vez que a porcentagem de brasileiros totalmente imunizados é cerca de 18% e a média de novos casos em torno de 40 mil, além de ao menos 135 casos confirmados da variante Delta no país.

O infectologista, Renato Kfouri, diretor da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), explica que a situação atual permite o relaxamento das medidas de distanciamento social, mas com responsabilidade.

"Há algumas semanas estamos registrando menos casos, o que nos permite falar em relaxamento de medidas. Mas, o processo deve ser lento, progressivo, de olho nos dados epidemiológicos, e com responsabilidade. Temos poucas pessoas com a imunização completa e uma variante forte na nossa sombra, querendo se impor no Brasil. Não estamos no momento de vale-tudo" afirma o médico.

Temos poucas pessoas com a imunização completa e uma variante forte na nossa sombra, querendo se impor no Brasil. Não estamos no momento de vale-tudo

Renato Kfouri, infectologista

A epidemiologista Gulnar Azevedo e Silva, professora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e presidente da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva), acrescenta que o número de mortes ainda é alto e a luz de alerta precisa seguir ligada. 

"A pandemia não está controlada. A média móvel de mortos ainda está acima de mil por dia. Ainda não chegamos à situação ideal e o risco de recrudescimento dessa pandemia é alto. Temos só 17% da população vacinada e a variante Delta é muito mais transmissível que as anteriores, é um risco potencial muito alto. Tudo precisa ser feito agora, acendeu o alerta, precisamos ter uma vigilância dos casos suspeitos da nova cepa e, se confirmados, essas pessoas e os contatos dela precisam ser isoladas", acrescenta a especialista.

De acordo com dados da Imperial College London, no Reino Unido, a taxa de transmissão da covid-19 aumentou na última semana no Brasil. A taxa foi de 0,88 para 0,95, o que significa que a cada 100 pessoas doentes, outras 95 saudáveis são infectadas. No período de 12 a 18 de julho, cada 100 pessoas transmitiam para outras 88. Quando o número está abaixo de 1 indica controle da pandemia.

Os médicos apontam que o principal desafio do PNI (Programa Nacional de Imunizações) é conseguir completar o esquema vacinal dos brasileiros. De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 4 milhões de brasileiros estão atrasados com a aplicação da segunda dose. 

"Precisamos agilizar a imunização dos adultos, mas a completa, não só da primeira dose. A eficácia melhora muito quando temos as duas doses. As vacinas têm de chegar a todos os pontos do Brasil. A distribuição e registro têm de ser rápidos. O mais importante nesse momento é a vacinação. Assim garantimos o que estamos falando, para chegar à imunidade coletiva", diz Gulnar. 

Precisamos agilizar a imunização dos adultos, mas a completa, não só da primeira dose.

Gulnar Azevedo e Silva, epidemiologista

Para Kfouri, a preocupação não pode ser de atingir uma porcentagem da população vacinada e sim aplicar o maior número de doses possível. "Não tem número mágico e não acho que temos de buscar 60, 70%. Temos de usar a estratégia de buscar o maior número de esquemas vacinais completos possível. Esse é o maior desafio, precisamos imunizar o mais rápido possível, o maior número pessoas com esquema completo. Isso sim vai trazer o benefício do programa como estratégia", acrescenta o infectologista. 

A taxa de abandono é comum em campanhas de imunização com mais de uma aplicação. Porém, a comunicação correta e a busca-ativa dos atrasados por parte das secretarias municipais e estaduais de saúde é fundamental.

"As pessoas esquecem, se sentem protegidas ou tiveram reação na primeira e têm medo de voltar pra segunda dose. Aqui, ainda tem o fato de que algumas pessoas voltaram e não encontraram o imunizante para a segunda dose. Tem de fortalecer a busca pelos faltosos, porque é importante completar o esquema. Já que é uma vacinação diferente das que fizemos até hoje", ressalta Kfouri. 

As expectativas são positivas, uma vez que o Ministério da Saúde tem previsão de receber em agosto e setembro 130.536.211 doses, e no quarto bimentre, a previsão é de 291.119.500 doses. Imunizantes suficientes para aplicar em toda população vacinável, de 158.095.094. 

A médio e longo prazos, a epidemiologista acredita que a solução para o controle permanente da covid é a autossificência na produção de vacinas. 

"Esse vírus é muito imprevisível, variantes novas podem surgir. Então, o Brasil precisa ser autossuficiente na produção de vacinas para não dependermos de ninguém. Temos duas instituições muito boas, Fiocruz e Butantan, que produzem vacinas e precisam ser fortalecidas, financiadas e valorizadas. É difícil prever o fim da pandemia, mas a experiência que temos dos outros países que têm 50% de pessoas vacinadas, a queda de mortes e internações é vertiginosa", completa Gulnar. 

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