Vírus achado na China pode virar pandemia por mutações genéticas

Capacidade de se adaptar aos organismos de animais até chegar nos humanos deixa depopulação desprotegida de infecção 

Nova cepa
 do H1N1 circula em porcos e tem potencial para infectar humanos

Nova cepa do H1N1 circula em porcos e tem potencial para infectar humanos

Zhong Min/EFE/EPA - 21.02.2020

O influenza, popularmente conhecido como vírus da gripe, pode provocar pandemias por conta da capacidade de rearranjo genético, explica a infectologista Rosana Ritchmann, do Hospital Emílio Ribas. Ou seja, como o vírus é mutante, cada vez que ele modifica a sua forma, deixa a população desprotegida, sem anticorpos. É o caso do novo vírus encontrado em porcos, na China. 

“Ele infecta um animal e consegue pegar um pouquinho do material genético de algum outro vírus que estava lá. Ele pega da ave, do vírus do porco, do vírus do humano e vai se adaptando. São inúmeras combinações possíveis”, explica a médica. 

Segundo ela, outros vírus possuem menos potencial de mutação. “O zika vírus, por exemplo, causou problemas, mas agora que a população está protegida não se ouve mais falar nele”, destaca.

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A gripe espanhola, que aconteceu em 1918, foi causada por uma versão do H1N1. “A pandemia de 2009 foi causada por um vírus descendente da gripe espanhola.”

A nova cepa identificada na China também é do H1N1. “O influenza é sempre uma caixinha de surpresas. O que sabemos desse [descoberto agora] é que os porcos estavam transmitindo [o vírus] entre eles. Um em cada 10 dos trabalhadores que tiveram contato com os porcos tinham anticorpos para essa nova cepa”, destaca a infectologista.

O pediatra Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações), explica que, antes da pandemia de 2009, já existia vacina para o H1N1. Mas o vírus sofreu uma grande mutação, deixando as pessoas sem imunidade.

Segundo Cunha, todos os anos são necessárias pequenas alterações nas vacinas contra gripe, pois os vírus sofrem pequenas mutações. “Hoje, nossa vacina protege contra dois tipos de influenza: o A (H1N1 e H3N2), e dois do tipo B.”

O caminho da infecção 

A transmissão entre animais começa de forma respiratória, geralmente nas granjas. Com o tempo, o vírus entra em contato com as pessoas que trabalham nas fazendas. E vai se adaptando ao organismo, até conseguir ser transmitido de humano para humano. "Não é usual que a transmissão aconteça por meio da alimentação”, explica Cunha.

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Rosana Ritchmann completa que a maior parte das mutações de vírus acontecem através dos animais. “Normalmente as aves no início, os porcos como hospedeiro intermediário e depois passa para o homem.”

Por isso, os especialistas alertam para a importência da vigilância de zoonoses para se antecipar ao vírus. Isso, muitas vezes, pode significar o sacrifício de um rebanho inteiro. “Não é necessário alarde. É um alerta. Mostra a importância de os órgãos sanitários fazerem a vigilância na agroindústria", destaca a infectologista do Hospital Emílio Ribas.

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*Estagiária do R7 sob supervisão de Deborah Giannini