Entenda por que é importante sequenciar genoma do coronavírus

Estudo liderado por pesquisadoras brasileiras ajudará na criação de vacinas, remédios e na compreensão de como funcionam as mutação do vírus 

Cientistas explicam importância de sequenciar genoma do coronavírus

Jaqueline Goes de Jesus, uma das responsáveis pelo sequenciamento

Jaqueline Goes de Jesus, uma das responsáveis pelo sequenciamento

Karla Dunder/R7 - 06.03.202

Cientistas brasileiras deram uma importante contribuição para conter a propagação do coronavírus pelo mundo. Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda na USP, coordenaram a pesquisa que sequenciou o genoma do coronavírus (COVID-19) do primeiro caso da doença confirmado no Brasil.

Foram apenas 48 horas utilizando um sequenciador portátil, conseguido em parceria com a Universidade de Berlim, na Alemanha, para analisar o genoma do vírus que preocupa autoridades no mundo todo.

Outros países realizaram o mesmo procedimento, mas levaram, em média, 15 dias até a divulgação do resultado. A Itália, que concentra o maior número de casos confirmados na Europa, ainda não divulgou o sequenciamento genético do vírus encontrado em suas fronteiras.

“Quando chegou o caso já estávamos preparados para o coronavírus. Então, quando recebemos a amostra, aplicamos o protocolo junto com o instituto Adolfo Lutz e com a universidade de Oxford, no Reino Unido. Fomos analisando e enviando em tempo real para lá e eles. O trabalho em conjunto ajudou a fazer esse processo de forma tão rápida”, diz a biomédica doutoranda da USP Ingra Morales Claro, que participou da pesquisa.

Sequenciador portátil utilizado pelas pesquisadoras brasileiras na USP

Sequenciador portátil utilizado pelas pesquisadoras brasileiras na USP

Karla Dunder/R7 - 06.03.202

A equipe da USP trabalha com o sequenciamento de vírus desde 2016 e ajudou a sequenciar outros surtos virais de importância pública no Brasil, como chicungunha, zika e febre amarela.

O que é o genoma

Para a professora da USP Jaqueline Goes, o sequenciamento é o primeiro passo ao identificar um vírus.

“Todo ser vivo vem com as informações do genoma. No caso do vírus, ele é redondo e tem algumas espículas, que são as proteínas de superfície. Toda essa estrutura existe por causa das informações do genoma”, explica a professora.

O genoma define as características do vírus, como age e em quais regiões ele afeta como patógeno. Comparando suas características é possível traçar os pontos iniciais de contágio e de qual região ele veio.

“Com o conhecimento do vírus que está circulando no local é possível trabalhar na produção de medicamentos e vacinas específicas”, continua Jaqueline.

Ester, pós-doutoranda da USP que estuda virologia há 10 anos

Ester, pós-doutoranda da USP que estuda virologia há 10 anos

Karla Dunder/R7 - 06.03.202

Só é possível criar vacinas quando temos o sequenciamento, não apenas de um, mas de vários casos de coronavírus.

"O genoma serve para diagnóstico, análise de sequenciamento para produção de remédios. São diversas utilidades, por isso é tão importante”, explica Ingrid.

Como fazer a vacina

A professora cita que para conseguir criar vacinas contra vírus como o COVID-19 é necessário um largo estudo para entender quais as possíveis mutações e, assim, tentar criar uma fórmula que abranja a maior parte das mutações, sempre levando em conta quais as áreas os patógenos podem atingir daqui para a frente.

“O vírus normalmente muta isso é normal, inclusive o coronavírus têm uma taxa de mutação baixa comparada com o vírus da gripe por exemplo, que todo ano precisa de uma vacina diferente. A dificuldade de curar o HIV é essa, ele muda em uma taxa muito alta" afirma a professora Jaqueline. 

Ingrid no laboratório onde foi feito o sequenciamento genético do vírus do COVID-19

Ingrid no laboratório onde foi feito o sequenciamento genético do vírus do COVID-19

Karla Dunder/R7 - 06.03.202

A palavra mutação preocupa a maioria das pessoas por parecer algo grave, mas na ciência é uma informação importante para monitorar de maneira mais precisa a propagação da doença pelo mundo.

“Sequenciar o vírus é o primeiro passo para entender o que está acontecendo na transmissão da doença e, principalmente, quais mutações estão acontecendo e em quais regiões”, conclui Jaqueline.

*Estagiário R7, sob supervisão de Pablo Marques

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