Tecnologia e Ciência Pesquisadores da USP descobrem caso mais antigo de sífilis em criança na América do Sul

Pesquisadores da USP descobrem caso mais antigo de sífilis em criança na América do Sul

Ossada achada em 2008 no sítio arqueológico Lapa do Santo, no centro de Minas Gerais, foi enterrada há 9.400 anos

Dentes de esqueleto de quase 10 mil anos ajudaram cientistas a chegar à descoberta

Dentes de esqueleto de quase 10 mil anos ajudaram cientistas a chegar à descoberta

Reprodução/Jornal da USP

Um grupo de cinco cientistas de diferentes áreas da USP (Universidade de São Paulo) descobriu o registro mais antigo de um caso de sífilis congênita, doença encontrada em crianças infectadas ainda na barriga da mãe, na América do Sul. As evidências foram coletadas de um esqueleto de uma criança de cerca de 4 anos de idade, que foi enterrada há 9.400 anos.

De acordo com o jornal da USP, a ossada foi achada em 2008 no sítio arqueológico Lapa do Santo, uma caverna localizada no município de Matozinhos no centro de Minas Gerais. Identificado como B20, o sepultamento continha restos mortais de uma criança que viveu em um agrupamento de humanos.

A conclusão dos pesquisadores ocorreu depois de avaliações de ossos e dentes, por meio de várias metodologias diferentes. Depois, houve uma comparação com resultados de outras pesquisas sobre paleopatologia, um ramo da arqueologia voltado para compreender as doenças de outras épocas.

Depois disso, a descoberta foi publicada em um artigo em inglês intitulado Um caso de sífilis congênita no Holoceno Inferior na América do Sul (An Early Holocene case of congenital syphilis in South America).

Em entrevista ao jornal da USP, o pesquisador colaborador do grupo e um dos principais autores do trabalho Rodrigo Elias de Oliveira falou explicou a pesquisa. “Junto com outras pessoas que trabalham no grupo, estudamos os dentes de diversas ossadas escavadas em Lapa do Santo de maneira sistemática. Durante essa busca, o B20 chamou a atenção pelo excesso de cáries e outros detalhes. Anotei essa informação e voltei a estudá-lo posteriormente”, disse.

Logo depois, o grupo tentou comprovar que as evidências seriam uma consequência da sífilis congênita. “Havia lesões características nos ossos do crânio, da ulna e do fêmur [...] e os dentes tinham falta de esmalte, além de estarem quase todos em péssimo estado, com alterações na estrutura. O conjunto dos dados apontava para sífilis congênita como a causa provável das lesões”, detalhou.

Sífilis congênita

Os cientistas admitem que a descoberta é rara, já que há poucos casos similares descritos na literatura científica por conta da singularidade, que dependem de circunstâncias específicas.

Os esqueletos infantis são mais frágeis que o esqueleto dos adultos, o que significa que estão menos preservados em sítios arqueológicos.

A contaminação pela sífilis de mãe para filho acontece em 33% das gestações e a maior parte destas crianças pode ser assintomática durante a infância.

A sífilis é provocada por uma bactéria e foi uma das primeiras doenças a serem tratadas com a descoberta da penicilina em 1943. Porém, o diagnóstico da sífilis ainda desafia médicos até hoje por conta das diferentes manifestações.

Após a contaminação por contato sexual, a bactéria pode fazer com que surjam os sintomas imediatamente, tais como feridas pequenas no órgãos genitais, gânglios aumentados e íngua.

Depois de um tempo, estes sintomas podem desaparecer e a doença se torna latente, ressurgindo após meses – ou mesmo anos – de maneira mais intensa, com manchas vermelhas, febre e dores de cabeça.

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