Incêndio Museu Nacional

Tecnologia e Ciência Pesquisadores vão trabalhar na reconstituição do crânio de Luzia

Pesquisadores vão trabalhar na reconstituição do crânio de Luzia

Fóssil mais antigo das Américas foi localizado entre escombros do Museu Nacional, atingido por um incêndio no começo de setembro

Crânio estava em local que foi preservado

Crânio estava em local que foi preservado

Fabio Motta/Estadão Conteúdo - 5.4.2018

Desaparecido desde o incêndio que consumiu o Museu Nacional, o crânio de Luzia — o mais antigo fóssil das Américas, com 12 mil anos — foi localizado em meio aos escombros.

"O crânio foi encontrado fragmentado e vamos trabalhar na reconstituição. Pelo menos 80% dos fragmentos foram identificados e podemos aumentar esse número", disse o diretor do museu, Alexander Kellner. "Luzia está viva", comemorou.

De acordo com os especialistas, foram achados partes da testa e do nariz, uma parte lateral e o fragmento de um fêmur que também pertencia ao fóssil e estava guardado. O fóssil é uma das mais importantes peças do acervo do museu.

"Hoje é um dia feliz, conseguimos recuperar o crânio da Luzia e o dano foi menor do que esperávamos. Os pedaços sofreram alterações, danos, mas estamos otimistas com o achado e tudo o que ele representa. O crânio estava em um local preservado, estratégico. Ficava dentro de uma caixa de metal, dentro de um armário", disse a arqueóloga Claudia Rodrigues, responsável pela equipe de escavação.

O crânio será reconstruído, mas esse trabalho ainda não começou porque depende de repasse de verbas. "Precisamos fazer uma restauração e de uma casa para ela", explicou Kellner. "Estamos lutando no Congresso pelo orçamento. É um trabalho de tempo e de recursos."

O trabalho de arqueologia nos escombros não começou oficialmente. Segundo Kellner, a fase ainda é de escoramento das paredes internas do Palácio São Cristóvão justamente para que não haja desabamento.

Raro

Achado em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974, o fóssil é de uma mulher que morreu entre os 20 e os 25 anos de idade e foi uma das primeiras habitantes do Brasil. O crânio de Luzia e a reconstituição de sua face, que revelou traços semelhantes aos de negros africanos e aborígines australianos, estavam em exibição no museu.

A descoberta mudou as principais teorias sobre o povoamento das Américas. Com o estudo do fóssil, o arqueólogo Walter Neves, da Universidade de São Paulo (USP), postulou o modelo dos dois componentes biológicos, segundo o qual o continente americano foi colonizado por duas levas distintas de Homo sapiens, vindas da Ásia.

A primeira onda migratória teria ocorrido há pelo menos 14 mil anos e foi composta de indivíduos parecidos com Luzia, com traços semelhantes aos dos atuais negros africanos e aborígines australianos. Esse grupo, no entanto, não teria deixado descendentes. Uma segunda leva teria chegado há 13 mil anos e seus integrantes apresentavam um tipo físico característico dos asiáticos, dos quais descendem os índios atuais.

O Ministério do Planejamento anunciou nesta semana que vai ceder um terreno de 49,3 mil metros quadrados para abrigar laboratórios e centros de pesquisa do museu. O custo total de recuperação de todo o prédio atingido pelo fogo no dia 2 de setembro é de R$ 300 milhões.

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