Tendências e desejos pós-coronavírus

O que aprendemos com a pandemia e o que podemos utilizar para reconstruir nossa sociedade

O que aprendemos com a pandemia e o que podemos utilizar para reconstruir nossa sociedade

Imagem: Pixabay

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Programa Inova 360

Por Marcio Bueno

Eu só quero que as coisas voltem ao normal!

Esse era um pedido recorrente nas conversas virtuais e nos grupos de WhatsApp.

Estava há dias lendo mensagens de amigos e familiares dizendo que não aguentavam mais ficar em casa, que queriam sair e encontrar os amigos.

Tem o grupo de pessoas que apoia o governo, tem o grupo de pessoas que critica o governo, tem um terceiro que acha que ambos lados estão certos, como se este momento devesse ou pudesse existir lados…

Eu estou produzindo como um louco, lancei um espetáculo teatral, o converti em digital pelo momento que estamos vivendo destinando parte da arrecadação para uma casa de assistência a idosos, uma plataforma de cursos online, um livro, e estou trabalhando em um programa de TV.

Tudo isso enquanto as atividades presenciais não podem ser retomadas.

Portanto não entendia muito bem como as pessoas tinham tempo para reclamar do confinamento, quando eu estava tendo uma reunião, virtual, atrás da outra.

Sentia uma certa frustração ao ver que, os mesmos que estão preocupados com o futuro da economia e da crise avassaladora que virá, inevitavelmente, são os mesmos que não produzem nenhum novo projeto e não colaboram com os projetos alheios.

Frustrado com aqueles que criticam as medidas adotadas, sejam elas quais forem, mas não propõe medidas melhores.

Frustrado com aqueles que pedem que tudo volte ao normal, mas não fazem nada que isso aconteça.

E eu estava cansado, física e mentalmente, e precisava dormir um pouco. Com todos os projetos em andamento, subi para o meu quarto, tomei um bom banho e dormi.

Não sei quanto tempo passou, mas hoje eu acordei e me disseram que era o 1º dia pós-coronavírus.

Que a humanidade havia vencido a pandemia e que o desejo dos que pediam a volta à normalidade, se faria realidade.

Os jornais e a internet anunciavam a todo momento, que a partir de hoje, tudo volta ao normal.

Me sentei na cama, e antes mesmo de pôr os pés no chão, me vieram duas perguntas à cabeça:

A primeira, mais metafísica.

“O que significa “voltar ao normal? ”

E a segunda muito mais pessoal e terrena é:

“Será que eu quero que as coisas voltem a ser como antes? ”

Banho, café e decidi sair para ver como estava o mundo pós-coronavírus.

Para começar, quando abri a porta de casa, o meu vizinho da frente, atravessou a rua e veio me cumprimentar, com um bom aperto de mãos e um abraço.

Eu o via cada manhã e o saudava de longe com um leve aceno.

Fui para o trabalho em transporte público, e vi as pessoas se protegendo ao tossir e espirrar, tomando medidas de higiene e normas de convivência, ao chegar no escritório as pessoas estavam sorridentes, felizes em se ver e em voltar ao trabalho.

Ué, aqui pelas manhãs sempre havia um clima fúnebre e muitas reclamações e hoje as pessoas estão falando de futuro, do que pode ser feito.

Dois torcedores fanáticos de times rivais, que não podiam conversar sobre futebol sem acabar discutindo, combinando para ir assistir juntos o jogo entre seus times.

Outro grupo dizendo que decidiram manter a ação social que criaram durante o período de confinamento, porque se apegaram e tinham carinho pela causa que ajudaram.

Recebi uma mensagem no celular de um amigo que nunca gostou de estudar: “Marcio, estamos criando um grupo de estudos virtual com diversos especialistas e gostaríamos de te convidar a participar. ”

Eu olhava a minha volta e via um mundo diferente, e o melhor de tudo, eu gostava muito do que estava vendo.

De repente me dizem, vamos, temos reunião.

Eu nem sabia do que se tratava a reunião, passei muito tempo dormindo e havia perdido o fio da meada…

Quando já estávamos todos sentados, ligaram a TV e apareceu uma pessoa, que eu havia visto nunca, e diz:

“Vocês gostaram do que estão vendo? ”

O ser humano entendeu a necessidade de cuidarem de sua saúde mental.

De cuidar da saúde física, da higiene e de respeitar o espaço de cada um.

Que para vencer uma situação adversa é necessário união.

Para criar prosperidade é preciso colaboração.

Que único não significa ser individualista.

Que o coletivo sempre tem prioridade sobre o individual.

A solidariedade não é uma opção e sim uma escolha.

Não se iludam, isso vai passar.

É só uma reação provocada pelo período difícil que vocês viveram.

Se nada for feito, realmente as coisas vão voltar a ser como antes.

O individualismo será mais importante que a individualidade.

O fim justificará os meios.

O resultado prima sobre o esforço.

O destino será mais importante que a jornada.

A quantidade terá mais peso que a qualidade.

Vocês voltarão a ter a ilusão de que o amor se mede pelo ter e não pelo ser.

Que a relevância se mede por número de seguidores.

Que é mais importante falar do que ouvir, impor do que entender, ganhar do que ser feliz.

Por certo, como vocês pediram que tudo voltasse como antes, em breve a felicidade se medirá por likes novamente.

Em breve saberei se vocês aprenderam alguma coisa, se o sofrimento foi suficiente ou se eu precisarei voltar.

Neste momento, meu celular tocou.

São cinco da manhã, e eu me levantei correndo, desci para o escritório, abri o notebook e vi que o número de mortes continua aumentando e que o término da pandemia havia sido um sonho.

Por cinco segundos, senti uma tristeza enorme, mas de repente me veio uma força enorme e a resposta da segunda pergunta veio à minha cabeça claramente.

“Será que eu quero que as coisas voltem a ser como antes? ”

Não, não quero!

Precisamos construir um mundo melhor do que tínhamos antes do COVID-19.

Marcio Bueno assina a coluna “Tecno-Humanização”, no Inova360, parceiro do portal R7. É Tecno-Humanista, fundador da BE&SK (www.bensk.net) e criador do conceito de Tecno-Humanização.

marciobueno@bensk.net

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