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Tecnologia e Ciência Relatório aponta que 1 milhão de espécies correm risco de extinção

Relatório aponta que 1 milhão de espécies correm risco de extinção

Estudo, o primeiro intergovernamental nesta escala, descarta o cumprimento das metas mundiais de biodiversidade estipuladas para o período 2011-2020

espécies em extinção 1 milhão

Número recorde de 1 milhão de espécies em risco de extinção

Número recorde de 1 milhão de espécies em risco de extinção

REUTERS/David Gray

Um milhão de espécies de animais e vegetais correm o risco de extinção, muitas nas próximas décadas, a menos que haja uma mudança radical nos métodos de produção e consumo, é o que mostra uma análise da Plataforma Intergovernamental em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) apresentada nesta segunda-feira (06) na Unesco.

O relatório ressalta a responsabilidade humana nesta situação limite porque as mudanças no uso da terra e do mar e na exploração direta de certos organismos são os principais culpados.

A mudança climática, a poluição e as espécies exóticas invasoras completam essa combinação, o que faz com que a taxa de extinção atual seja "entre dezenas e centenas de vezes mais alta do que a média dos últimos 10 milhões de anos".

Especialistas de 50 países trabalharam durante três anos nessa radiografia do planeta nas últimas cinco décadas e agora ofereceram um diagnóstico sombrio sobre o impacto do desenvolvimento econômico na natureza e nas cerca de 8 milhões de espécies que vivem na Terra.

A deterioração alcançou níveis inéditos na história humana e a vida no planeta tal como conhecemos se aproxima perigosamente de um ponto de inflexão, destacou à Agência Efe a argentina Sandra Díaz, coautora do estudo.

Pelo menos 680 espécies de vertebrados desapareceram desde o século 16 e estão em perigo mais de 40% das espécies de anfíbios, 33% dos recifes de coral e mais de um terço dos mamíferos marítimos. Uma estimativa provisória considera que 10% do total de espécies de insetos estão ameaçadas.

Além disso, entre 1980 e 2000 foram perdidos 100 milhões de hectares de floresta tropical, principalmente para dedicar essa área à criação de gado na América Latina e às plantações no sudeste asiático, a maioria delas de palma para produção de óleo.

Tendemos a pensar que os seres humanos estão à margem dos efeitos, mas tudo está interconectado: a natureza contribui para regular o clima e a qualidade do ar e nos oferece comida e energia, por isso, as mudanças têm impacto direto na vida humana e no desenvolvimento econômico no mundo.

Como exemplo, essa tendência negativa afetará o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável estabelecidos pela ONU para 2030 em 80% dos casos analisados, em matéria de pobreza ou crise de fome, entre outros, o que faz com que o declínio seja tanto uma questão ambiental como social.

O estudo, o primeiro intergovernamental nesta escala, descarta o cumprimento das metas mundiais de biodiversidade estipuladas para o período 2011-2020, mas os autores acreditam que servirá como base para o roteiro que marcará a convenção sobre biodiversidade que a ONU realizará na China no ano que vem.

Não é tarde demais para mudar o rumo, mas somente se começarmos logo e em todos os níveis, apontou a IPBES, uma organização independente impulsionada em 2012 por várias agências da ONU e integrada por mais de 130 governos.

Estabelecer cotas efetivas de pesca e áreas marinhas protegidas, promover práticas que reduzam a erosão do solo e uma agricultura sustentável, aproveitar o conhecimento ambiental das comunidades indígenas e modificar políticas de subsídios nefastas para a biodiversidade são alguns conselhos.

Conter o aumento da temperatura global abaixo de dois graus centígrados também é crucial: o percentual de espécies em risco de extinção por razões climáticas está em 5% com um aquecimento de dois graus, e sobe para 16% se houver um aumento de 4,3 graus.

A informação apresentada nesta segunda-feira (06) é apenas uma das principais conclusões de um relatório de mais de 1.500 páginas que será publicado por completo ainda este ano, mas a especialista argentina é taxativa: "Quantas evidências mais precisamos para percebermos que não podemos seguir assim?".