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Do R7

“A gente só sai daqui num balaio ou num saco”. A afirmação é de quem conhece bem como funciona a disputa pelo direito à terra em Anapu, cidade de 25 mil habitantes, nas imediações da rodovia Transamazônica no Pará. Silvério Albano Fernandes, de 56 anos, é um mineiro de voz mansa que chegou com a família na região sudeste do estado no final dos anos 1970.

Em busca de terras baratas, a família largou a propriedade que tinha em Minas Gerais, de cerca de 500 hectares, e seguiu para o Norte. Lá, no meio da floresta amazônica, os negócios prosperaram. Especializados na pecuária de corte, os Fernandes são hoje donos de 15 mil hectares de terra, área equivalente a 15 mil campos de futebol.

Não é só pela imensidão de pastagens, no entanto, que o município é conhecido.

Anapu virou notícia no mundo todo após o assassinato da missionária Dorothy Stang, em 2005, executada por fazendeiros devido a seu trabalho com movimentos de trabalhadores sem-terra. Passados mais de 15 anos do crime, outras 22 pessoas foram mortas devido a disputas nas áreas rurais de Anapu, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT). No meio desse conflito, um dos nomes que mais costumam aparecer é o de Silvério.

Representante dos grandes proprietários, já foi chamado por um padre da cidade como integrante do “consórcio da morte”, grupo de fazendeiros envolvidos no caso da missionária.

Silvério não se mostra incomodado com a alcunha dada por movimentos sociais. “Meu acerto de contas é com Deus."

Na época das investigações, um dos irmãos de Silvério, Laudelino Décio Fernandes, chegou a ser apontado por facilitação da fuga de Vitalmiro Bastos de Moura, mandante do assassinato da irmã Dorothy. Ele confirmou que Vitalmiro esteve em sua fazenda após o crime para fazer um telefonema, mas acabou inocentado.

Já Silvério nega qualquer envolvimento no caso. Aponta a morte da missionária como responsabilidade dela mesma. “Com certeza ela buscou isso. Missionária qual é a missão? Pregar o evangelho e não mexer com terra”, diz. 

Silvério é calmo e fala pausadamente. Apenas duas coisas o desequilibram. Uma é falar da execução de um outro irmão. Em 2018, Luciano Fernandes foi morto na varanda de casa com dois tiros à queima roupa. Os criminosos eram integrantes de uma ocupação dentro da fazenda de Luciano e estariam negociando ilegalmente madeira da propriedade. Após diversos desentendimentos, Luciano foi executado.

Silvério chora ao lembrar do crime. “Acordei com ele gritando com um tiro no pescoço e um outro atravessando o tórax. Confesso que até hoje tenho sequelas disso. Passei a não dormir mais bem”, conta. Dos seis acusados, quatro morreram. “Até disso já me acusaram”, comenta. Outros dois respondem em liberdade.

O pecuarista é investigado por outros dois assassinatos recentes em Anapu. Um deles foi o do ex-vereador e conselheiro tutelar Paulo Anacleto, executado a tiros em frente ao filho de 5 anos, em dezembro do ano passado. Foi ele quem organizou um cortejo, quatro dias antes, pela morte do mototaxista Márcio Reis.

Não se sabe ainda qual seria o motivo exato do crime. Reis havia sido preso duas vezes por posse ilegal de arma e invasão de propriedade. Era um dos integrantes de um grupo que invadiu a fazenda de Silvério em 2016. O celular de Silvério foi alvo de busca e apreensão durante a investigação. O inquérito até hoje não foi concluído.

Além de integrante de ocupações, Reis também era a principal testemunha de defesa de um padre da cidade, o mesmo que chama Silvério de integrante do "consórcio da morte", José Amaro Lopes de Souza. O religioso é apontado por Silvério como o organizador e principal articulador de invasões a propriedades em Anapu. O mototaxista era próximo ao padre e iria depor em um processo em que o pároco responde por invasão, associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Segundo pessoas próximas, Reis poderia livrar o padre de diversas acusações e contaria que o religioso não tinha ligação com as invasões. Estas mesmas denúncias fizeram com que que o padre ficasse preso por três meses em 2018 e fosse solto apenas após uma liminar no Superior Tribunal de Justiça. A reportagem procurou José Amaro Lopes de Souza para falar das acusações, mas ele não quis se manifestar.

A CPT defende o padre, inclusive de acusações de assédio sexual, que acabaram arquivadas. Para a pastoral, o padre é alvo das denúncias pela disputa de terras na região.

Um dos pontos de discórdia é a Gleba 44, onde fica a fazenda Santa Maria, que teria sido comprada pela família de Silvério Albano Fernandes no final dos anos 1970. Ele diz que a propriedade pertencia a uma pessoa que adquiriu o imóvel rural da União em uma licitação durante a abertura da Transamazônica.

Para o Ministério Público Federal e para o Incra, a terra pertence ao governo. Os órgãos alegam que os termos do contrato feito com o antigo proprietário nunca foram cumpridos e a escritura de Silvério não tem validade. A disputa foi parar na Justiça e a família do ruralista perdeu o direito aos 3 mil hectares na primeira instância. O processo aguarda recurso no TRF-1.

O ruralista mostra tranquilidade quanto ao desfecho da ação judicial. "Temos a posse, vamos tentar nos manter até o último instante aqui.” Enquanto a guerra do campo tem batalhas na Justiça, uma outra coisa desconcerta Silvério, para além da morte do irmão: as invasões.

“Nada contra quem precisa de terra. Tem mais de 150 mil lotes no estado. Mas eles querem o que está perto da estrada para vender e pular de lote.  O que aconteceu aqui é a indústria da invasão. A pessoa invade e vende, invade e vende. A gente ouve comentário de pessoas na 15ª, 16ª invasão. Virou um negócio”, afirma.

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Transamazônica A estrada sem Fim 50 anos


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