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Do R7

Tucuruí virou sinônimo de usina. Às margens do rio Tocantins, a cidade de mais de 100 mil habitantes não passava de um povoado com cinco mil pessoas quando as obras começaram, nos anos 1970. Só que o crescimento econômico trazido pela hidrelétrica não é uma história com final feliz para todos que viviam na região quando uma das maiores obras do país se instalou.

No meio do caminho, ou melhor, no meio do rio existe um lago. Um lago que se espalha por quase três mil quilômetros quadrados e só existe para abastecer as 23 turbinas da hidrelétrica, que nasceu para dar energia ao Projeto Grande Carajás.

Quem conta um pouco dessa história é dona Ercília Soares Noleto, de 79 anos. A audição e a locomoção já não são mais as mesmas de quando ela chegou com a família do Maranhão, na década de 1960. Mas os braços que cortam a lenha no quintal da casa ainda chamam a atenção pelo vigor.

Vivendo agora no município de Breu Branco, a cerca de 15 quilômetros de Tucuruí, passou grande parte da vida no trabalho duro na roça, até deixar tudo pra trás quando sua terra foi inundada com a construção do lago da usina. “Não gosto nem de lembrar. Tinha minhas ‘vaquinha’, meus ‘porco’, minhas castanhas. Sinto falta da fartura”, lamenta.

Ela lembra do processo de desocupação. “Foram lá com um cadernão, assim, e botaram meu nome. Disseram que era pra sair daqui, porque iriam morrer tudo afogado. No outro dia, nos ‘arrumemos’. Ficou tudo, só levei meus filhos."

A rotina mudou radicalmente desde então. “Pra comer uma banana, tem que comprar, pra comer uma macaxeira, tem que comprar, pra comer uma batata, tem que comprar.” Dona Ercília diz nunca ter recebido nada pela desapropriação.

Quem recebeu alguma coisa não ganhou o que esperava. “O dinheiro dava pra comprar só cinco metros de corda pra se enforcar”, afirma Esmael Siqueira, que preside uma das associações de expropriados.

A Usina Hidrelétrica de Tucuruí faz parte de um projeto ambicioso, que pretendia tornar uma das maiores jazidas minerais do mundo viável economicamente.

Nos anos 1960, técnicos da empresa americana United Steel procuravam manganês no solo amazônico, mas se depararam com algo diferente, na Serra de Carajás: uma jazida de minério de ferro com um tamanho impressionante. Logo ficou claro que estavam diante da maior província mineralógica do planeta, com presença ainda de cobre, manganês, bauxita, ouro e níquel.

O problema era explorar e retirar todo esse minério de uma região inóspita no meio da selva amazônica. A United Steel fez uma parceria com a Vale do Rio Doce, na época sob controle estatal. No fim dos anos 1970, a Vale ficou sozinha no negócio, após pagar uma indenização para a empresa norte-americana.

Para tornar real o sonho de explorar essa riqueza mineral quase sem fim, o governo da época lançou o Projeto Grande Carajás. A Usina Hidrelétrica de Tucuruí era parte central nessa iniciativa, já que forneceria energia suficiente para os novos centros habitacionais e para a exploração mineral na região.

Para que esta imensa hidrelétrica fosse viável, seria preciso alagar uma imensa área. E no ritmo que o progresso exige, isso aconteceu.

Números da Hidrelétrica de Tucuruí
Números da Hidrelétrica de Tucuruí

O presidente da associação dos expropriados diz que muitos dos lavradores eram analfabetos e assinaram os acordos de desapropriação apenas com a digital. “A maioria nunca tinha visto nem um policial na vida. Chegava um capitão do Exército, com uma onça na farda, eles assinavam qualquer coisa”, diz.

Desde a inauguração da usina, em 1984, passaram-se oito governos federais sem uma solução para as quase seis mil famílias que tiveram suas propriedades alagadas pelo lago de três mil quilômetros quadrados – quase duas vezes a área do município de São Paulo.

Siqueira afirma que, nestes anos todos, muitas tentativas de acordo terminaram sem solução, audiências públicas foram realizadas e a maioria dos expropriados continua sem receber um valor justo por suas terras.

Na última audiência pública, em janeiro deste ano, a Eletronorte, estatal que administra a usina apresentou números que mostrariam os benefícios econômicos para a região.

Segundo os dados divulgados, houve aumento dos índices de desenvolvimento nas localidades atingidas pela barragem acima da média nacional. Só em 2019, foram 174 milhões em royalties divididos entre o governo estadual e os municípios.

Uma das tentativas de solução do problema veio em 2016. A estatal assinou um acordo com 2.343 famílias. Elas devem receber R$ 5.088 por conta de um projeto social implantado em 2004, que previa compensações sociais para os expropriados, mas que ainda não havia sido pago.

Segundo associações que representam os expropriados, no entanto, este dinheiro não tem relação com as indenizações de propriedades e seriam apenas contrapartidas sociais não pagas pela empresa.

Questionada, a Eletronorte não retornou até a publicação desta reportagem.

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Transamazônica A estrada sem Fim 50 anos

repórter: André Tal imagens: Michel Mendes auxiliar: Ivanildo Tavares  pauta: Henrique Beirangê edição: Aldrich Kanashiro coordenação digital: Marcio Strumiello sonorização: Rafael Ramos  edição de pós-produção: Miguel Wesley chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo