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Do R7

A extrativista Claudelice Santos sempre precisa tomar muito cuidado quando vai visitar a família em Nova Ipixuna (PA). A pequena cidade de 17 mil moradores, localizada no sudeste do Pará, tem uma taxa de 37 homicídios para cada 100 mil habitantes, uma das mais altas do estado. Com quase metade da população na área rural, o município fica em uma região do estado considerada o epicentro dos conflitos no campo do país.

A mulher de estatura baixa e franzina, mas de voz firme e olhar seguro, está na mira de grileiros - pessoas que ocupam ilegalmente e negociam terras públicas -, depois que o irmão mais velho, José Cláudio Ribeiro, e a cunhada, Maria do Espírito Santo, foram executados em maio de 2011.

Os dois eram líderes de uma reserva extrativista em uma área rural de Nova Ipixuna e denunciavam a entrada de invasores na terra protegida por lei. Após a morte do casal, Claudelice deu continuidade ao trabalho do irmão e da cunhada.

Nascido a partir do deslocamento de ribeirinhos que moravam às margens do lago onde foi construída a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, o município é um dos que esperavam reflexos positivos das grandes obras de desenvolvimento do chamado Projeto de Integração Nacional, do qual faz parte a Transamazônica, lançado na década de 1970.

O abandono do projeto, no entanto, deu outro destino a Nova Ipixuna. Localizada nas proximidades da Transamazônica, a cidade tem apenas 2,6% de esgotamento sanitário adequado e 6,8% de vias urbanizadas, segundo o IBGE. A economia é dependente da agricultura e grande parte das áreas rurais estão ocupadas por pessoas sem títulos das terras. Neste cenário do manda-quem-tem-mais-força, o município é alvo permanente de disputas.

Quem tenta se opor tem grandes chances de parar na lista dos marcados para morrer.

Foi o que aconteceu com o irmão e a cunhada de Claudelice. O casal foi vítima de uma emboscada e morto a tiros quando passava de moto por uma estrada de terra próxima à reserva onde morava.

No local do crime, uma cruz que lembra os homicídios foi erguida, mas acabou, como as vítimas, cravejada de tiros por pistoleiros. Manter-se na linha de frente contra a invasão de reservas tem custado um preço alto. “ Deixaram um bilhete na caixa de correio da minha mãe dizendo que iriam matar o resto (da família) ”, revela Claudelice. 

Ela engrossa uma lista de 201 ameaçados de morte no país por conta disputas no campo, segundo levantamento da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O número leva em conta os casos registrados apenas em 2019, sem considerar quem foi alvo de intimidação em anos anteriores.

Em 2011, um ano após o duplo assassinato, Claudelice decidiu ir morar com as duas filhas em Marabá, em busca de proteção. Hoje, ela não anda mais a pé, a casa onde vive tem câmeras e cerca elétrica. Tudo pago por uma rede de apoio formada por entidades nacionais e internacionais que ajudam moradores da região ameaçados de morte.

Enquanto fica presa dentro de casa, o mandante do crime, José Rodrigues, condenado a 60 anos de prisão, continua foragido. Um dos pistoleiros, Lindonjohnson Silva Rocha, fugiu de uma penitenciária em 2015 e acabou recapturado apenas em julho deste ano. O outro condenado, Alberto do Nascimento, cumpre pena. 

Só nos últimos 10 anos, 126 pessoas foram assassinadas no estado por conta de disputas pelo direito à terra, de acordo com a CPT.



UMA VIDA SOB ESCOLTA

Maria Joelma tem 57 anos, 20 deles sob escolta policial.

Sem poder sair à rua sozinha, se apega à fé.  “Primeiramente, muita fé em Deus e força para cobrar a justiça, porque se não for assim, você não tem condição de viver”. A liberdade de Maria Joelma se transformou em cárcere privado a partir de 21 de novembro de 2000, quando o marido, José Dutra da Costa, o Dezinho, foi assassinado na porta de casa.

Dezinho era presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rondon do Pará (PA), cidade vizinha a Nova Ipixuna. Do outro lado, estava o fazendeiro Décio Barbosa, o Delsão. O sindicalista denunciava o ruralista por suposto envolvimento com trabalho escravo, grilagem e até assassinatos na região.

Segundo a CPT, Delsão é dono de 130 mil hectares de terras, área equivalente a 90% do município de São Paulo, parte delas em terras públicas. A comissão diz ainda que ele responde a mais de 30 embargos do IBAMA por crimes ambientais praticados em suas fazendas e a mais de 500 processos na Justiça do Trabalho, por desrespeito aos direitos dos funcionários de suas serrarias e fazendas.

Dezinho sofreu duas tentativas de homicídio. Escapou por pouco. Até o ano 2000.

Segundo os registros judiciais, um pistoleiro foi, a mando de Delsão, até a casa dele. Na porta, disse que precisava tirar dúvidas sobre um pedido de aposentadoria da avó.  O rapaz foi convidado por Joelma a entrar, se sentou na sala e tomou uma água, enquanto aguardava a vítima.

 Ao perceber que Dezinho estava demorando, Joelma pediu a uma das filhas que chamasse o pai na casa do vizinho. Quando o sindicalista estava chegando no portão de casa, foi recebido a tiros pelo pistoleiro. Dezinho ainda teria entrado em luta corporal com o criminoso, mas não resistiu.

O julgamento do crime se arrastou por quase duas décadas. Delsão foi condenado no ano passado a 12 anos de prisão como mandante do assassinato, mas saiu do tribunal pela porta da frente. Ele teve o direito de recorrer em liberdade, sem previsão para o julgamento do recurso. 

O pistoleiro Wellington de Jesus da Silva foi condenado a 27 anos de prisão em 2006, mas após uma saidinha de Natal, não retornou mais à cadeia.  Apontados como intermediários, os irmãos Igoismar Mariano e Rogério Dias nunca foram encontrados.

Maria Joelma assumiu as funções do marido no sindicato. E também as ameaças destinadas a ele. “Antes, era por telefone. Diziam que eu falava demais. Mas chegaram a me ameaçar pessoalmente. Hoje chegam a mim por meio de pessoas que ficam sabendo das ameaças”, desabafa.

Enquanto o homem condenado em primeira instância como mandante da morte do marido vive solto, Maria espera recuperar a liberdade. “A gente é vítima e acaba se privando. Gostaria de ir à igreja, de ir ao meu lote, levar meu neto na praça, e nesses 20 anos, não fiz isso."

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Transamazônica A estrada sem Fim 50 anos

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