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Do R7

Na lista de atividades degradantes e que contribuem para a destruição das florestas, uma das que se destacam são as carvoarias clandestinas. Foi em uma delas, no município de Tucuruí (PA), que encontramos Antônio Malbino dos Santos, de 55 anos. Sem saber ler e escrever, a rotina de domingo a domingo de seu Antônio é encher e esvaziar os fornos da carvoaria com restos de madeira.

Sem carteira assinada, sem dias de folga e sem tirar férias há pelo menos oitos anos, é de lá que ele sua para receber cerca de mil reais por mês.

O dono da carvoaria tem quatro fornos no local e quase nunca aparece. Quem vigia desconfiado a nossa reportagem é um dos funcionários. Ele chega de moto, pergunta a Antônio o que está acontecendo e segue viagem.

Cearense da cidade de Granja, o carvoeiro nunca esteve em uma escola, mas sabe que seu trabalho ajuda a destruir a natureza. “Isso aí todo mundo sabe, mas a gente não é culpado. ‘Nóis’ pega da serraria, que já traz a madeira da mata.”     

A palavra preservação para o homem que nunca pode ir à escola tem um significado especial. “Se derrubar uma árvore dessa, sente falta. Ela não vai mais fazer sombra, se você derrubar ela, acabou”, lamenta. Além de diminuir as sombras, estima-se que cada tonelada de madeira usada renda, no máximo, 400 quilos de carvão após a fornalha.

Responsável por boa parte das emissões de gás carbônico para a atmosfera, a queima de madeira em incêndios e na produção de carvão vegetal tem forte impacto na saúde dos carvoeiros. É associada na literatura médica a doenças que evoluem de maneira silenciosa pelo acúmulo da fuligem do carvão nos pulmões, entre elas a pneumoconiose, também chamada de “pulmão negro”.

Seu Antônio diz que a saúde não é das melhores e que suas gripes costumam ser bem fortes. “A gripe me judia muito.”

Nos tempos em que um vírus mortal afeta o planeta e ataca principalmente a capacidade respiratória de suas vítimas, o trabalho de seu Antônio ganha contornos ainda mais dramáticos. Como resistir ao novo coronavírus com um pulmão já debilitado pela lida com o carvão?

Caminhando entre a fuligem e sujo de fumaça, seu Antônio diz que teria dificuldade para arrumar outro trabalho porque não foi à escola. Mesmo assim, o carvoeiro analfabeto deixa uma lição de retidão. “Rapaz, eu tinha que me virar, fazer qualquer coisa, só não roubar.”  

Apesar de nenhum equipamento de proteção, com os dentes estragados e a roupa surrada, ele não reclama.  “Para mim não tem nada difícil não. Tudo é igual.” Mas ressalva que a rotina “é de muita quentura”.  Debaixo do sol amazônico e ao lado do calor escaldante dos fornos, que chegam a 400°C, o local que Antônio tem para almoçar é um barracão perto das fornalhas.

A carvoaria onde trabalha é clandestina e fica ao lado de uma estrada rural onde caminhões transportando madeira são vistos o tempo todo, enquanto Antônio conversa com a reportagem.

O Brasil é hoje o maior produtor mundial de carvão vegetal. Cerca de 90% da produção vai parar em usinas siderúrgicas como combustível ou para a produção de aço. A maior parte do carvão usado em usinas vem de plantações de eucalipto. Os outros 10% que vão para o uso residencial e comercial geralmente provêm de carvoarias clandestinas, como a que emprega seu Antônio.

Oficialmente, segundo dados do Caged, o Cadastro Geral de Empregados da Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, existem no país 12.106 trabalhadores registrados em 3.557 carvoarias. Os números podem ser bem maiores, pois as estatísticas se referem apenas às registradas oficialmente – e não incluem carvoarias como aquela em que seu Antônio trabalha.

Produção de carvão clandestina na Transamazônica
Produção de carvão clandestina na Transamazônica

Pela legislação, locais como o que lhe garante mil reais por mês precisariam ter licenças ambientais e documentos de origem das madeiras. "É complicado falar. Mas pra mim (as serrarias) não têm, não (licenças)."

A maior parte do carvão produzido no local vai para a venda no centro da cidade e é comercializado livremente para ser usado em churrascarias e em pizzarias. Seu Antônio nunca comeu em nenhuma delas.

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Transamazônica A estrada sem Fim 50 anos

repórter: André Tal imagens: Michel Mendes auxiliar: Ivanildo Tavares  pauta: Henrique Beirangê edição: Aldrich Kanashiro coordenação digital: Marcio Strumiello sonorização: Rafael Ramos  edição de pós-produção: Miguel Wesley chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo