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Do R7

O som do encontro entre uma motosserra e uma faveira de cerca de 20 metros de altura e três de diâmetro assusta quem vê de perto pela primeira vez o trabalho de um serrador. Os dentes afiados do equipamento rasgam o tronco por dentro, deixando um rastro de seiva. Os galhos balançam para todos os lados com a trepidação da máquina e os insetos começam a se afugentar.

O trabalho se estende por pouco mais de 15 minutos até que se ouve um estalo. É o sinal.

O serrador se posiciona para mais um corte e sai correndo. A faveira começa a desabar aos poucos e um estrondo se espalha pela floresta. Ao redor, uma parte da mata que cercava a gigante cai.

O crime ambiental que nossa equipe flagra se passa em Brasil Novo, sudoeste do Pará. Apesar do nome, pouco mudou na cidade criada como a primeira agrovila da rodovia Transamazônica, em 1972.

O local deveria ter se tornado um modelo de colonização para pequenos produtores vindos de todo o país, durante o Projeto de Integração Nacional que deu vida à rodovia. Governo atrás de governo, 10 gestões depois, no entanto, cenas como a da faveira tombada não desapareceram. 

O impacto do atraso de Brasil Novo aparece em diversos indicadores. Educação, por exemplo. A taxa de escolarização para crianças de 6 a 14 anos é uma das piores do país, colocando o município na posição de número 5.301 entre 5.570 pesquisados pelo IBGE.

Um dos moradores que não teve a chance de estudar foi Elias (nome fictício) – o homem por trás da árvore gigante descrita no início deste texto. O serrador vive no município desde 1983. A família de nove pessoas veio do Paraná, animada com as promessas de terras e progresso da propaganda do governo da época.

Em busca de uma vida melhor, ele conta que a ideia dos pais era trabalhar com a pecuária. Mas, por falta de recursos, acabaram derrubando árvores. "Pra mexer com pecuária tem que ter muita terra, mais fácil mexer com madeira mesmo", diz. Donos de um pequeno lote, foram parar no extrativismo.

Assim como o pai, o filho de Elias, de 20 anos, desde os 12 anos corta árvores. Eles dividem uma pequena casa de madeira na zona rural do município. As árvores que derrubam são vendidas já cortadas para outros colonos da região ou são aproveitadas para uso próprio.

O corte da floresta não é atividade apenas da família de Elias. É o ganha-pão de muita gente no Pará e hoje coloca o estado em primeiro lugar no ranking do desmatamento no país, segundo o Instituto Imazon. O estado teve um aumento de 62% no desflorestamento entre agosto de 2019 e agosto deste ano. Ao todo, foram 2.909 km² de floresta derrubadas apenas em território paraense, de acordo com o instituto, que monitora a floresta com uso de satélites.

Elias sabe que o que faz é ilegal. Fala com a reportagem com o rosto encoberto por uma camisa e diz que tem medo. "Tenho medo sim, porque é proibido, né? E além do mais o cara tá vendo a situação do nosso mundo. Falta de oxigênio nos outros países fora, né?"

O raciocínio do homem que não frequentou a escola não está de todo errado.

As árvores que Elias derruba são responsáveis por retirar o gás carbônico do ar e liberar o oxigênio que respiramos todos os dias. A quantidade de gases que a cobertura vegetal da Amazônia absorve afeta o clima do planeta.

O pesquisador do Imazon Paulo Barreto alerta para outra consequência desta cadeia: o ciclo de chuvas no país estaria ameaçado. "Cinquenta anos atrás tinha menos de 1% de área desmatada, hoje tem quase 20%. Menos florestas significam menos chuvas no próprio Brasil. Então, isso põe em risco a agricultura e até mesmo a formação dos reservatórios de hidrelétricas”, afirma.

rios voadores Transamazônica
rios voadores Transamazônica

Em julho deste ano, uma operação da Polícia Federal foi desencadeada em Brasil Novo. A investigação iniciada em 2016 apontou a existência de grupos que atuavam em todas as etapas da cadeia produtiva da madeira: extração, serragem, falsificação de documentos, fiscalização, transporte e compra da madeira ilegal. Não é à toa que para tentar conter o desmatamento o governo anunciou que o Exército será mantido em operações na Amazônia até o final de 2022.

O pesquisador do Instituto Socioambiental (ISA) Antonio Oviedo lembra que serradores como Elias são a minoria entre os responsáveis pelo desmatamento na Amazônia. "O que a gente tem percebido nos últimos anos é que esse padrão de desmatamento mudou. Esses pequenos proprietários estão contribuindo bem menos com o desmatamento total na Amazônia. Então, são grandes produtores, pessoas com poder aquisitivo suficiente para financiar grandes áreas de desmatamento", explica.

Elias diz que já percebeu o avanço do desmatamento em sua região. Ele conta que para achar uma madeira de lei é preciso caminhar de 20 a 40 quilômetros mata adentro a partir do lote onde mora. Já não existem mais toras de alto valor comercial nas proximidades. A faveira que derrubou serve apenas para fazer ripas. No seu caso, será usada para construir um barracão para guardar entulhos.

Apesar de estar acostumado com o serviço, o serrador confessa que a derrubada da floresta também deixa marcas. “Quando ela (árvore) cai, parece que dá um grito... A gente fica sonhando com aquilo, fica na mente da gente. ”

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Transamazônica A estrada sem Fim 50 anos


repórter: André Tal imagens: Michel Mendes auxiliar: Ivanildo Tavares  pauta: Henrique Beirangê edição: Aldrich Kanashiro coordenação digital: Marcio Strumiello sonorização: Rafael Ramos  edição de pós-produção: Miguel Wesley chefia de reportagem: Mateus Munin e Renata Garofano editor- executivo: Marcelo Magalhães editora-chefe: Cristiane Massuyama  projetos especiais: Gustavo Costa chefe de redação: Pablo Toledo