Saúde

26/2/2013 às 14h55 (Atualizado em 26/2/2013 às 14h58)

Estudo questiona uso de ratos em testes médicos

Problemas como queimaduras, traumas e septicemia, não se encaixam no mesmo padrão

Pesquisa ajuda a explicar o motivo do fracasso de cada um dos cerca de 150 medicamentos testados em pacientes com septicemia Getty Images

Os ratos foram, durante décadas, as espécies mais indicadas para o estudo de doenças humanas. Agora, porém, pesquisadores acabam de revelar indícios de que essa opção pode não ter sido a melhor no caso de pelo menos três grandes doenças responsáveis por mortes humanas — septicemia, queimaduras e traumas. Segundo eles, o resultado disso foram anos e bilhões de dólares desperdiçados em investimentos em pistas falsas.  

As descobertas feitas pelo estudo não significam que os ratos são modelos inúteis para a pesquisa de todas as doenças humanas. Contudo, os autores disseram que elas levantam sérias dúvidas a respeito de doenças que envolvem o sistema imunológico, incluindo câncer e doenças cardíacas, explicou o Dr. H. Shaw Warren, pesquisador especializado em septicemia do Hospital Geral de Massachusetts e um dos autores principais do novo estudo.  

— Nosso artigo sugere pelo menos a possibilidade da presença de uma situação paralela.  

O artigo, publicado recentemente na revista "Proceedings of the National Academy of Sciences", ajudou a explicar o motivo do fracasso de cada um dos cerca de 150 medicamentos testados em pacientes com septicemia. Todos os testes de drogas haviam sido baseados em estudos realizados em ratos. Os ratos, como se veio a descobrir, sofrem de uma doença que se parece com a septicemia que acomete os seres humanos, mas é muito diferente.  

Especialistas médicos não associados com o estudo disseram que as descobertas devem mudar o curso da pesquisa acerca dessa doença letal e frustrante em âmbito mundial. A septicemia, uma reação potencialmente fatal que ocorre quando o corpo tenta combater uma infecção, é a principal causa de morte em unidades de tratamento intensivo nos Estados Unidos.  

Para Dr. Mitchell Fink, especialista em septicemia que atua na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, "essa descoberta muda tudo".  

O Dr. Richard Wenzel, presidente do departamento de medicina interna da Universidade Virginia Commonwealth e ex-editor do The New England Journal of Medicine, aplaudiu:  

— É incrível. Eles foram absolutamente precisos.  

As respostas imunológicas potencialmente letais ocorrem quando o sistema imunológico de uma pessoa reage ao que percebe como sinais de perigo, incluindo moléculas tóxicas de bactérias, vírus, fungos ou proteínas liberadas pelas células atingidas por traumas ou queimaduras, disse o Dr. Clifford S. Deutschman, que dirige as pesquisas sobre a septicemia na Universidade da Pensilvânia e não fez parte do estudo.  

A ação intensificada do sistema imunológico faz com que ele libere suas próprias proteínas em quantidades tão gigantescas que pode haver vazamento nos vasos capilares. Esse vazamento se torna excessivo e o plasma é extravasado para o exterior dos minúsculos vasos sanguíneos. A pressão arterial cai e os órgãos vitais não recebem sangue suficiente. Mesmo se esforçando ao máximo, os médicos e enfermeiros que atuam nas unidades de tratamento intensivo ou prontos-socorros podem não conseguir dar conta de lidar com os vazamentos, interromper as infecções ou conter os danos teciduais. Mais cedo ou mais tarde, há falência dos órgãos vitais.  

O novo estudo, que levou 10 anos e envolveu 39 pesquisadores dos Estados Unidos, começou com o exame dos leucócitos do sangue de centenas de pacientes com queimaduras graves, traumas ou septicemia para verificar quais genes estavam sendo usados pelas células na reação a esses sinais de perigo.  

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Os pesquisadores descobriram alguns padrões interessantes e coletaram rigorosamente um conjunto de dados amplo que deve contribuir com os futuros desenvolvimentos do campo, disse Ronald W. Davis, especialista em genômica da Universidade de Stanford e um dos autores principais do novo estudo. Alguns padrões pareciam prever quem iria sobreviver e quem permaneceria na unidade de terapia intensiva, lutando para sobreviver e, muitas vezes, vindo a falecer.  

O grupo já havia tentado publicar suas conclusões em vários trabalhos. Uma objeção que tiveram de enfrentar, disse Davis, foi a de que os pesquisadores não conseguiram mostrar que a mesma reação havia ocorrido nos ratos.  

— Eles estavam tão acostumados a usar ratos nas pesquisas que pensaram que essa era a única maneira de validar as coisas. Estavam tão fixados na tentativa de curar ratos que se esqueceram de que estávamos tentando curar seres humanos. Isso fez com que começássemos a pensar se as coisas se dão mesmo de modo semelhante nos ratos.   O grupo decidiu se aprofundar na pesquisa, esperando encontrar algumas semelhanças. Mas quando os dados foram analisados, nenhuma veio à tona.  

— Ficamos de queixo caído.  

O motivo do fracasso das drogas ficou claro. Por exemplo, os ratos costumavam utilizar um gene que seria suprimido nos seres humanos. Um medicamento que desativa esse gene nos ratos poderia fazer com que a reação fosse ainda mais letal no caso dos seres humanos.  

O que foi ainda mais surpreendente, segundo Warren, foi o fato de os diferentes problemas de saúde dos quais os ratos sofriam — queimaduras, traumas, septicemia — não se encaixarem no mesmo padrão. Cada um desses problemas estava relacionado a diferentes grupos de genes. Nos seres humanos, no entanto, genes semelhantes eram ativados quando cada um dos três problemas ocorria. De acordo com Warren, isso significa que se os pesquisadores conseguirem desenvolver um mesmo medicamento que age sobre um desses problemas no caso das pessoas, ele pode vir a funcionar no caso de todas as três.  

Erros científicos?  

Os investigadores do estudo tentaram durante mais de um ano publicar o trabalho que mostra não haver relação entre as respostas genéticas dos ratos e as dos humanos. Os pareceristas não indicaram erros científicos, contou Davis. Em vez disso, disse ele, "a resposta mais comum era 'isso só pode estar errado. Não sei o que está errado. Mas tem de haver algo errado'".  

Alguns pesquisadores, ao lerem o artigo, disseram-se tão surpresos com os dados quanto os cientistas que desenvolveram o estudo. Foi o caso de Fink:  

— Quando li o artigo, fiquei chocado com o quão ruins são os dados obtidos a partir dos estudos com ratos. De fato é incrível — não há correlação. Esses dados são tão persuasivos e consistentes que acredito que vão ser levados em conta pelas agências de financiamento.  

Até hoje, diz ele, "era necessário propor experimentos com ratos para obter financiamento para uma pesquisa".  

No entanto, sempre houve uma indicação importante que dizia que os ratos não podiam realmente ser tão semelhantes aos seres humanos na questão genética: É muito difícil matar um rato com uma infecção bacteriana. Para matar um rato, é necessário que o animal tenha um milhão de bactérias a mais no sangue do que seria necessário para matar uma pessoa, lembrou Davis.  

— Os ratos conseguem comer lixo e alimentos podres. Os seres humanos não podem fazer isso. Somos muito sensíveis.  

Os pesquisadores disseram que se puderem descobrir por que os ratos são tão resistentes, talvez tenham como usar essa descoberta para encontrar algo que também possa tornar as pessoas resistentes.

Dr. Richard Hotchkiss, pesquisador de septicemia na Universidade de Washington em St. Louis que não esteve envolvido com o estudo, elogiou o estudo:  

— Trata-se de um artigo muito importante. Ele apresenta um argumento forte ao dizer que é necessário ir até os pacientes e coletar as células deles sempre que possível. Para entender a septicemia, é preciso examinar os pacientes.

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