Curry e vinho

Saudade e o tempero predileto de dr. Ivan Lima

Saudade e o tempero predileto de dr. Ivan Lima

Saudade e o tempero predileto de dr. Ivan Lima

Folha de Pernambuco

Semana passada subiu ao reino dos justos, aos 92 anos, Dr. Ivan Lima Cavalcanti, notável cardiologista e pneumologista, que deixou grande contribuição científica e formou várias gerações de médicos pernambucanos. Tive o privilégio de ser um deles. Foi um dos mais importantes mentores ao longo da minha vida profissional, tanto no âmbito científico como no ético. Em ambos, era inigualável!

Na vida pessoal, tinha a simplicidade e a discrição como características mais importantes. Ah, esqueci da elegância. De gestos e de vestir. Fazia questão de seguir a linha inglesa. Ele, como eu, grande admirador da medicina daquele país. Gostava de dizer que nenhum médico poderia assim se intitular se não tivesse atravessado o canal da Mancha!

Tirante o exagero, tinha lá uma pontinha de razão. Voltando aos hábitos de vestir, fazia questão de um lenço de seda cuidadosamente dobrado no bolso de seu blazer. Dos ingleses também copiou o amor pela sinuca, modalidade esportiva em que brilhou no British Country Club.

E também o gosto pelo curry (caril) indiano. Jamais esquecerei as noitadas em sua casa, em torno da sua sinuca e ao lado de outras formidáveis figuras da nossa Medicina, tais como Carlos Moraes, Rostand Paraíso e Hélio Mendonça. Jantar regado a uma fantástica receita de curry, alegadamente elaborada por ele (nós sempre desconfiamos que era de Hilda, sua querida esposa!). Saudade! Pronto leitor, entendeu agora o título?

Não é comida que o nordestino aprecie muito, creio. Se fosse, aqui teríamos restaurantes indianos, o que infelizmente não acontece. Com isso deixando claro meu apreço por ela. Apreço não, adoração! Considero uma culinária brilhante. Mas reconheço que seu sabor apimentado e exótico não é fácil de apreciar.

Tampouco é fácil de harmonizar com vinhos. Seu paladar picante acentua os taninos, portanto vinho tinto, só os bem leves ou os aveludados, pouco tânicos. Mas a preferência é mesmo pelos brancos. Pinot Grigio (Pinot Gris) e Sauvignon Blanc para pratos de sabor mais ácido e doce-azedo.

O rico Riesling alsaciano para os mais cremosos. Porém sem tanto rigor assim. Em todos os casos, uma boa opção são os rosés bem balanceados (tem muito rosé ruim por aí!). O célebre Hugh Johnson sugere ainda vinho amarelo, mas esse é quase inexistente no nosso mercado. Ele também recomenda o fortificado Jerez: Fino, para os pratos de peixe e Amontillado (ou Palo Cortado) para os de carne.

Gostei, pois Jerez, que os ingleses tanto apreciam, vai se prestar para meu último “toast” com Ivan. Ele lá e eu (ainda) cá. Tim, tim, amigo, brinde à vida (pela qual - de todos - você tanto lutou). E aos céus.

P.S. Leitor, não estou alienado. Ia escrever sobre Coronavírus, mas não podia negar essa última homenagem a meu amigo. A despeito de não ser meu tema, fica pra próxima.

*É médico e enólogo, escreve quinzenalmente neste espaço