Arquivo Vivo Deodato, mau com bandidos e bom para seus familiares

Deodato, mau com bandidos e bom para seus familiares

Delegado Antonio Deodato da Fonseca (à esquerda)

Delegado Antonio Deodato da Fonseca (à esquerda)

Reprodução/Facebook/Memória da Polícia Civil de SP

Eram outros, os tempos. Outra sociedade. Outra cidade. Outros criminosos. Outra Polícia.

Nesses tempos, a Polícia era uma fábrica de tortura e no prédio do Palácio da Polícia, até hoje instalado na rua Brigadeiro Tobias, no bairro da Luz, ficavam o antigo Departamento de Investigações e o gabinete do secretário de Segurança Pública, hoje deslocado para outro endereço.

Era o prédio das atrocidades conhecidas e admitidas, numa simbiose cinismo-hipocrisia, envolvendo a tudo e a todos. Uma dupla de investigadores, Geraldo e Juliano, chegava ao prédio com vários presos amarrados uns aos outros por uma enorme corda no pescoço. Na carceragem, terceiro andar do número 527 da rua, amontoavam-se, em média, 700 presos permanentemente, ali recolhidos para “averiguações”. Averiguar o que? Se teriam participado de algum tipo de crime. Como “averiguar”? Pendurando no pau-de-arara e aplicando choques. Em outras palavras: prendia-se primeiro para verificar depois se o infeliz tinha feito alguma.

Diariamente, os policiais do Departamento de Investigações assistiam a um obrigatório desfile de marginais. Funcionava assim: numa espécie de passarela do crime, desfilavam os acusados de furtos e roubos, com uma plaqueta pendurada no peito com um número que identificava ao artigo do Código Penal que teriam infringido. Um escrivão de polícia, possante voz de crooner, anunciava um por um os astros do crime na ribalta. O escrivão, até então anônimo, seria no futuro o poderoso dono das Faculdades Metropolitanas Unidas, Edevaldo Alves da Silva, um abre-te sésamo na Faculdade de Direito que habilitaria muitos policiais a ingressar na carreira de delegado.

A miséria humana

Este cotidiano fazia parte da rotina policial. Todos sabiam, ninguém se importava: juízes, promotores, advogados, o teatro faz-de-conta da persecução penal. Um dos militares secretários de Segurança, general João Fragoso, dormia em seu gabinete, no décimo andar, mas antes vestia pijama e andava um pouco pelo prédio, como se fosse um estranho no ninho. Ouvi-o comentar, certo dia: ”Aqui desfila toda a miséria do mundo”. Não os miseráveis de Victor Hugo, mas os miseráveis de carne, sangue e osso. Muitos Valjean, muitos Javert. Este, o know-how da tortura, das atrocidades, levado mais tarde para a repressão política. Até hoje, alguns outrora militantes dizem que a Polícia precisou que viesse gente de fora para ensiná-la a aplicar métodos para extorquir confissões, chegando (ou ultrapassando) limites da resistência humana, como se em algum momento ela, mestra, tivesse precisado disso.

É nesse cenário da degradação humana, capaz de banalizar o inimaginável, que pontificou um policial, chefe dos investigadores do DI, que organizou aos poucos uma metodologia própria, singular, para dominar o mundo do crime e a busca implacável dos seus autores.

Antonio Deodato da Fonseca, um homem negro e forte, comandava a máquina de triturar para não deixar nenhum caso de repercussão sem solução. Aprendeu, sem que ninguém lhe ensinasse, que a bruma dos sofismas encobre pseudo-humanistas, que quando na condição de vítima, costumam endossam práticas não ortodoxas. Ou seja: se for a meu favor, tudo bem.

Deodato, um homem de percepção, percebeu que caso importante tem que ser resolvido, e ninguém vai se importar como ele conseguiu. Se não resolver, será considerado incompetente. Aquele mundo das masmorras, dos suplícios, não interessava a nenhum tipo de curioso. Ele é fétido, mau-cheiroso, e é bem melhor debruçar-se sobre cândidas teses acadêmicas do que conectar-se com a realidade.

Era assim no passado, é assim no presente, aí está a retórica história do André do Rap, poderoso chefão do PCC, que não permite que se minta - nem mesmo nas mais altas esferas jurídicas e nas delícias dos mantos da fantasia.

Lá estava Deodato, nesse teatro, que levou Carnelutti, o célebre autor de “As Misérias do Processo Penal”, a se perguntar se seria mais fácil manejar o microscópio do que o telescópio. Discursos fanáticos excitam facilmente as paixões, é advertência de Cesare Beccaria em seu ”Dos Delitos e das Penas”.

Nesse mar revoltoso, navegava Deodato. Os criminosos o chamavam de “Deusdato”, não se sabe exatamente por que razões, mas o fato é que ele fez tudo de seu jeito, como cantou Frank Sinatra. Seus superiores queriam resultados, bons resultados, e só. Nunca leu Kant, mas certamente gostaria de ter lido que a experiência sem teoria pode ser cega, mas teoria sem experiência não vai além de um jogo intelectual. Aliás, foi além: “que se faça a justiça mesmo que o mundo pereça”. De qualquer modo, no jogo intelectual o crime gosta de vencer e convencer de que compensa. Bandido adora joguinhos para interpretá-lo.

Do seu jeito, Deodato criou o estilo da compaixão indireta. Pelos corredores onde humanos eram pendurados como frango assados, pagava do seu bolso os serviços de um enfermeiro, o “Pereirinha”, que todo de branco examinava os supliciados para verificar até quando eles poderiam aguentar. O inacreditável disso é que os torturados demonstravam gratidão por Deodato, que montou um arquivo particular com informações com todo tipo de ladrão que agia na cidade e seu modus operandi. Pelo estilo adotado num roubo ou furto, Deodato era capaz de dizer rapidamente quem havia sido o autor.

Outra coisa que Deodato fez do seu jeito, com incrível eficácia, foi mandar presentes para as mães de presos, no Dia das Mães, e para seus filhos, no Dia das Crianças. E no Natal. Os familiares contavam sobre os presentes ofertados por “Deusdato”, nos dias de visita aos presídios. Os prisioneiros reagiam estupefatos: odiavam a Polícia, mas tinham grande apreço por Deodato, para quem, do seu jeito, não havia segredos no mundo do crime.

Eram outros aqueles tempos. A Polícia resolvia quase tudo. Hoje, a Polícia resolve menos da metade do que deveria resolver. É grande o déficit em crimes contra o patrimônio e contra a pessoa. O teatro criminal continua ativo, mas seu script é mal escrito, porque não se pensa muito antes de escrever, o que não é recomendável segundo o bíblico livro de Provérbios (13:16).

Nas ruas, Deodato era como Melvin Purvis, o lendário antecessor de Eliot Ness no FBI. Corajoso, valente, empunhando uma espingarda calibre 12 para entrar em qualquer esconderijo, depois de um longo trago de pinga tomado no gargalo da garrafa. Era a cena que guardava na minha cabeça, quando o vi pela última vez, dentro de um caixão em velório na igreja de Santa Cecília. Saiu com uma mulher e, no banheiro, nu, recebeu um tiro fatal. Coisas passionais, que também existem no mundo criminal. E como.

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