'A arte existe porque a vida não basta'

A criação artística nos serve em múltiplas faces da existência; nos livra da parasitagem e alimenta a necessária escalada sensorial 

A arte mexe quando lembramos de permitir as pequenas e grandes descobertas

A arte mexe quando lembramos de permitir as pequenas e grandes descobertas

Una Laurencic/Pexels

Comentou o poeta maranhense Ferreira Gullar, certa vez: 'a arte existe porque a vida não basta'. Consta que um dos mais ilustres autores brasileiros disse o que disse porque a duração da existência seria ‘curta’ e a arte, sendo uma invenção humana, incluiria o’ belo’ nela (na visão dele, a arte teria este sinônimo?) a fim de causar-lhe uma espécie de ‘prolongamento da estadia com algum sentido’, numa livre interpretação.

Longe de mim contestar um gigante, e muito menos reinventar a roda. O que eu consideraria no surgimento e permanência da arte entre nós, humanos, desde as primeiras impressões gráficas tingidas nas rochas até a atualidade, é a atividade artística em si como meio de vida (não comercial, digo) simplesmente, tal qual - sem medo de errar - como ar que respiramos para sobreviver. Sem um e sem outro não daria para chegar onde chegamos.

Nas mais variadas vertentes a arte se entrelaça em nós, e como singular na sua essência, é de se esperar que, ao contrário do ar, ela possa ser um suporte à vida pela beleza que produz ou mesmo por uma feiura ímpar (dois substantivos que provocam discussões incessantes acerca de o quê é o quê) que impacta e transforma.

A arte tem fatores que a tornam interessantíssima socialmente falando, mesmo que se discorde de sua finalidade em certos casos. Historicamente ela tem construído e destruído coisas, pessoas, amores, impérios. É usada e abusada pela política, para o bem ou o mau. Tem servido à idolatria, ao simbólico existencial de cada ser.

O frustrado artista Adolf Hitler é um exemplo dessa instrumentalização, quando usou com maestria o cinema para insuflar o medonho conceito de ‘raça ariana’.  Noutro patamar de uso da arte, a psiquiatra Nise da Silveira colocou a pintura a serviço da terapia como indutor curativo de pacientes esquizofrênicos. Sobre esta brasileira, discípula e posteriormente correspondente de Jung, sugiro visita ao Museu de Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro.

Na política, na saúde, no teatro, na arquitetura, na escultura, na literatura, no cinema, na fotografia, na dança, na religião, na música, na pintura etc, a arte mexe o tempo todo quando lembramos de permitir as pequenas e grandes descobertas cotidianas, assim como o ar nos renova a cada respiração.

Desafortunados que somos, os não artistas, pouco nos restaria de humanidade se não tivéssemos tido uma lasca, um átomo que fosse, de Michelangelo, de Mazzaropi, de Picasso, de Elis Regina, de Omar Sharif, de Machado de Assis, de Rodin, de Pirandello, de Brecht, de Mestre Vitalino, de Patativa do Assaré, de Montserrat Caballé, de Pablo Neruda, de da Vinci, de Clementina de Jesus em cada um de nós.

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