A folha, a letra, o fio, a lâmpada

A escrita e a leitura iluminam-se quando se fecham circuitos talentosamente montados para o conhecimento

Muitos já se 
depararam com uma folha em branco

Muitos já se depararam com uma folha em branco

Jessica Lewis/Pexels

Muitos e melhores do que eu, um dia, se depararam com uma folha em branco e, sobre ela, derramaram palavras num desafio frequente de preenche-la com algo que fizesse sentido para si ou ao outro. É a tal situação que, vira e mexe, assombra e enche de estalos as mentes daqueles que se põem a enfrentar o desconhecido com as armas do alfabeto para viver o triunfo de um texto.

Em tempos de fortes emoções que permeiam a vida ultimamente como a política e a maneira que a (des)conhecemos,  as crises viróticas na saúde e nas relações interpessoais, a pressão impiedosa de todos os lados em cima da imprensa e as redes sociais pautando as condutas, é natural que pensemos como a informação escrita que surge de todo canto nos sensibiliza, molda nosso  pensar e nos faz agir de acordo com o resultado mental daquele dado que nos atingiu e se misturou ao repertório pré-existente.

Essa complexa operação de lidar com fontes variadas e mixar tudo isso na nossa cabeça acaba por servir como um inestimável degrau que, se estamos no sentido correto, nos leva a um patamar acima de conhecimento e, espera-se, de civilidade. A subida certa desse passo a passo dá sentido ao básico aprendizado e domínio da leitura, que numa singela significação nada mais é do que a decodificação de símbolos como traços, linhas e pontos. Contudo, tal interpretação não dá conta sozinha da complexidade que é reter a informação, degluti-la e regurgitar uma nova forma de saber.

Motivado por uma conversa que eu tive com o meu filho acerca da tal importância da leitura, percebi que apareceu nas frestas desse papo uma questão que considerei central em se tratando dessa necessária definição do porquê atribuímos um valor distinto ao intelecto em relação, por exemplo, à atividade braçal.

Do ponto de vista da ainda iniciante carreira de leitor do herdeiro, apareceu uma enorme interrogação com razoável nível de inquietação. Pra que a gente precisa ler, pai?

Desconcertado diante do que ouvira, me fez falta momentaneamente um quê professoral. O que dizer diante de tamanha envergadura que a pergunta me pareceu ocupar na multiplicidade ambiental em que estamos no tempo e no espaço?

Onde estaria, nesse emaranhado de circunstâncias de ‘home schooling’ etc, o valor que supostamente um menino de 8 anos deveria ter com relação à importância de ler? Esse infinitivo (e infinito) verbo de ação, disse a ele (com outras palavras, claro), não se resume a saber os códigos que traços, linhas e pontos escondem. Filho, eu supliquei, saiba que a verdadeira leitura é quando a gente passa desse esconde-esconde ao entendimento do que significam as palavras unidas umas às outras. Dessa conquista vem um enorme e vital prazer que é descobrir as coisas do mundo pela junção da interpretação ‘técnica’ e da absorção de uma informação que surge dela e que se somará a outras, quando não substituirá conceitos já gravados. Ou seja, uma revolução constante que toma cada momento em que nos pomos a ler, seja de que maneira for.

Não sei se ele entendeu. Acho que não ainda. Espero que sim, um dia, e que seja breve daqui até este dia.

Do outro lado os pobres coitados de plantão, esses seres que escrevem para outros seres e que são severamente desafiados a fazer acender uma luz dentro de cada cabeça leitora usando, para isso, um circuito de fios, lâmpadas, interruptores talentosamente conectados que, quando não curto-circuitam, fazem surgir na mente receptora uma nova e possivelmente brilhante instalação.

É esse o engenhoso trabalho eletrizante imediatamente antecessor à folha em branco.

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