Ignorância não engole o camarão do Movimento 

Cena trivial, que alimenta a esperança vinda da realidade social dos que querem um lar, vira espinha na garganta de homens bem trajados

O ator e diretor Wagner Moura

O ator e diretor Wagner Moura

Reprodução/Record TV

São Matheus, zona lesta da capital paulista, Ocupação Carolina de Jesus do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, dia desses, um pouco atrás no calendário de hoje.

Nessa tal data, que aqui não importa sua exatidão e sim a ocorrência nela destacada, o ator e diretor baiano Wagner Moura, de camisa xadrez, foi flagrado em pé comendo uma marmita na qual tinha uma comida das mais comuns de sua terra natal. O acarajé, cuja receita leva entre outros ingredientes o camarão seco, junto ao citado e envolto pela bandeira e boné do movimento social, tudo e todos emparelhados a duas mulheres com camisetas alusivas ao MTST (provavelmente militantes) e apetrechos de plástico como vasilha, copo e garrafa de refrigerante, mexeram com o imaginário de homens bem trajados do establishment.

Estes homens viralizaram nas redes sociais questionando a cena. Para eles, havia alguma contradição, talvez arquitetada pelo saci-pererê, moleque que é, aprontando das suas. Sim, camarão em uma ocupação por moradia? Como as pessoas podem gritar por tijolo, cimento, teto, água encanada, esgoto sanitário, luz e oferecerem e/ou comerem camarão?

Esquerda caviar? O artista, engajado, teria sido pego pela culatra ao ‘deixar-se’ fotografar traçando uma comidinha popular para posar de simples, ‘do povo’? Farsesco, como um personagem fora do set? Hipócrita? Se político fosse (sim, ele é político, como todos nós somos desde quando acordamos até fechar os olhos ao dormir), tipo profissional, seria legendado como populista, provavelmente.

Só que não. Além de estar longe dessa idiotice toda postulada por aqueles homens bem trajados, não havia ali encenação; o ator não estava em seu pleno ofício-fim, apesar de estar trabalhando a divulgação de seu mais recente filme e compartilhando sua experiência com a comunidade. Ah, sim, mesmo sem casa, pessoas demandam arte, cultura. Uma certa banda de rock titânico já cantava isso há tempos, e também dizia que um certo pulso ainda pulsava.

O problema está noutra ponta da indignação. Estes homens não sabem absolutamente nada da vida.

Se assim fossem providos, de conteúdo intelectual produtivo e/ou sensibilidade, saberiam que não valeria um minuto no Twitter para folclorizar o que tentaram. Estariam, sim, se sensíveis fossem, lutando por um país que não precisasse de movimentos sociais organizados e longevos para fazer valer um direito constitucional. Trabalhariam em parlamentos republicanos para o bem comum, não para os seus. Misturariam-se à cena comovente de pessoas brigando por uma senha que dá direito a um saco plástico com ossos e restos de um açougue.

As pessoas, não os homens bem trajados, estão com fome no país onde a agroindústria esbanja recordes de produtividade por hectare plantado ou pastado. O Brasil perde quando não mudamos a chave que liga polos ideológicos a subjetividades mesquinhas e falsas polêmicas, bem como olha para muitas de suas escolas públicas como únicas ‘cozinhas’ a servirem a única refeição de milhares de estudantes, sem condições de sequer escolherem o que vão devorar, movidos pela fome incansável.

A nação só assim se dignará a ser chamada se e quando o camarão, seja de qual qualidade, tamanho ou procedência for, estiver azeitado e salgado no prato de qualquer brasileiro que assim o desejar.

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