O Haiti e a Suíça num só estado de coisas

Entre o terremoto e a calmaria o Brasil balança sem o aval popular; ponto de ruptura estrutural enerva o dinheiro e envergonha o passaporte

O Palácio do Planalto

O Palácio do Planalto

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Está certo afirmar que a vida não anda nada monótona pra ninguém. Absolutamente ninguém. E também é correto dizer que andamos por tempos nunca antes pisados em relação a tudo, de microscópicas doenças novas ao deslumbramento de imagens dos confins do espaço sideral.

E ok dizer que a organização social baseada em bandos de gente (uma população) requer alguma gestão a fim de que o mal comum não prevaleça, independente do regime adotado para que esta gerência aconteça em nome do bem-estar a todos. O melhor, sempre, é que o tipo de gestão desta comunidade seja fruto do desejo de sua expressiva maioria e que sua escolha brote da vontade individual e inviolável no seu momento do voto, e goze de uma mínima soberania que possa estabelecer marcos legais como a autenticidade dos atos eletivos.

Grosso modo, tudo isso é um balaio ao qual podemos conceitualmente chamar como um depositário de verdades, mesmo que sejam de naturezas diferentes ou contenham variantes aqui e acolá.

Posto isso, parece que assim viemos vivendo nossas vidinhas, aos trancos e barrancos, entre paradigmas e exceções, nesta nau Brasil desde o início dos tempos republicanos no século 19 e que, trôpego, até aqui chegamos, agora adentrando de vez na sociologia e na política.

Dando um enorme salto na história republicana, encontramos na atualidade um país cuja gestão parece, usando um péssimo trocadilho que ilustra um momento doentio, indigesto. Como se não bastassem algumas variáveis (in)controláveis como a contemporânea praga virótica e a mudança climática a açoitar a terra, o homem e a luta – no campo e na urbe - , temos ainda a evitável, brutal e totalmente inaceitável desigualdade social de séculos para sanear, o preço do botijão de gás para baixar e reativar o fogão de cozinha, a inflação, o desemprego, a violência – também no campo e na urbe - , o desmonte da empresa ‘Made in Brazil’ etc.

No entanto, o que nos chama muito a atenção deste exato instante no planalto central do rico país em que resolvemos nascer, é a (falta de) administração pública no seu mais expansível sentido. Ou eu e um monte de gente andamos com um pé na jaca e a cabeça na Lua ou estamos vivendo uma conjuntura em que a preocupação de um certo ocupante de um conhecido endereço palaciano em Brasília deveria estar focada noutras instâncias do seu atual job de administrador geral, e não em ficar dando trabalho para outros logradouros públicos da capital federal e seus contingentes magistrados e parlamentares.

Ao que parece, o atual chefe do executivo federal ainda não começou, de fato, o seu governo, para o qual foi eleito, vejam, pelas urnas computadorizadas, sem papel.

Sem tentar adivinhar qual o objetivo político ou estratégico para se manter no poder até o final do seu mandato e, se lá chegar, vislumbrar uma reeleição, racionalmente fica difícil avaliar os ganhos, particulares (o que pouco deveria interessar) e sociais (estes sim, de enorme interesse da nação), que as últimas atitudes e palavras significaram. Como resultado indiscutível, o temor de investimentos, nacionais e estrangeiros, na economia. Há muitos outros, tão ruins e caros quanto, como um autogolpe de estado sem respaldo militar ou civil que rebaixaria o status brasileiro, já tão térreo, a um grau negativo com consequências por gerações.

Posar de democrata, impoluto ou de moralista nos costumes já caiu por terra. Seu passado e presente atestam e ratificam, de papel carbono, percalços na trajetória pessoal e profissional até aqui, com punições por condutas enquanto servidor das Forças Armadas ou usuário do imóvel funcional de Brasília para saciar hormônios masculinos.

Não resta muito a ele, que fez a terra tremer sem demanda, sem apoio nem necessidade. Ou o Brasil estava monótono demais (talvez como uma espécie de Suíça tropical) e não percebemos que precisava de um atrapalhado chacoalhão?

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