O saber de cada um com a velhice

A tal Terceira Idade requer de todos um convite à profunda reflexão de quem somos, seremos e faremos para bem conviver com ela

Conviver com pessoas que já se encontram na casa dos 60, 70, 80 ou 90 anos é um privilégio

Conviver com pessoas que já se encontram na casa dos 60, 70, 80 ou 90 anos é um privilégio

Andrea Piacquadio/Pexels.com

Dia desses um querido e inteligente amigo completou 72 anos de vida e resolveu escrever sobre o fato. Sendo ele professor e escritor com sólida carreira em ambos os lados da gangorra literária, o risco de cair em pieguices acerca da idade alcançada tendeu a zero. Ele é um privilegiado em amplo aspecto, mesmo estando entre uma legião de milhões de anciãos desguarnecidos de tudo neste país e envolto com suas dores de ombro e uma labirintite ‘indesgrudável’.

O que também está atrelado de forma longínqua no tempo a cada pessoa que atingiu a maturidade e nela continua sua vida são os adjetivos, que costumam delinear uma maneira de se ver uma certa ‘velhice’ nem sempre bacana. Aliás, certo mesmo é o que conhecemos de realidade nesse espectro do calendário de cada um e sabemos que, entre nós, sociedade desigual, preconceituosa e adepta da cultura do descartável, tornar-se velho é ir contra tudo que se deseja em termos de convivência saudável etc. Chega a ser uma desonra, quase uma ofensa, entrar para os quadros dos sexa, septua, octo, nona.

Puro engano. Desastroso equívoco.

Conviver com pessoas que já se encontram na casa dos 60, 70, 80 ou 90 anos, além de ser algo cada vez mais factível pela extensão da expectativa de vida geral, é um privilégio, mesmo que tenhamos momentos mais ‘trabalhosos’, por assim dizer, quando dependem quase que exclusivamente de nós para tudo, desde tomar um copo de água, um banho, uma aplicação de remédio, uma atenção de minutos ou, quiçá, de horas, para nos contar, murmurar ou mesmo resmungar. O pacote, felizmente, nunca é único, porque mesmo envelhecendo somos múltiplos ainda.

O problema é que não fomos educados para valorizar tudo de bom e de não tão bom assim que provem da terceira idade. Sim, a pessoa idosa abarca em sim um conjunto de feitos e desfeitos, de virtudes e de defeitos que muito nos ajudam a dar parâmetros quando não os temos de onde tirar.

O respeito à velhice, assim como saber aproveitar esse acúmulo de experiências, trocar afeto, saber lidar com as limitações naturais e entender que rugas e incapacidades recém surgidas com o avanço da idade fazem parte de um processo que nos iguala à medida que a ele também, cedo ou tarde, estaremos irmanados, são o máximo! Isso deveria estar em conteúdos interdisciplinares nos ensinos fundamental e médio, para que acostumássemos as crianças e os jovens a desde cedo interagir cognitivamente com essa população, que cresce em nossa microssociedade, na nossa família. Quando vemos, temos pais, mães, tios e tias lindos assim.

O duro é assistir a processos outros que destoam do que deveriam ser. Nem tudo são flores quando lemos boletins de ocorrência com detalhes de maus tratos e/ou abandono, cárcere privado, espoliação de bens, assédio moral. Infelizmente nem o Estatuto do Idoso é tratado e dissecado como ferramenta de ensino.

Ainda carecemos de preparo, conjuntamente, para conter a violência contra os idosos, usufruir de toda sua plenitude do saber adquirido na ‘escola da vida’, dar oportunidade para os que ainda gozam de alguma capacidade motora, intelectual ou artística e valorizar as características da beleza em sua fase madura. Enfim, contribuir para que vivam seus tempos com a autonomia possível e merecida, sem nossas costumeiras mordaças e com todo o nosso respeito.

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